WASSEM ADIGGA
WASSEM ADIGGA

Integração será o maior desafio para os refugiados na Europa em 2016

Para os que conseguiram fazer a travessia do Mediterrâneo e se alojar em países como a Alemanha, sentimento de alívio com a chegada em segurança à União Europeia é progressivamente substituído por preocupações sobre como garantir um futuro

Jamil Chade, correspondente / Genebra, O Estado de S. Paulo

01 Janeiro 2016 | 00h00

GENEBRA - Em 2015, um número recorde de pessoas foi obrigada a deixar suas casas e seus países fugindo de guerras e perseguição. Mais de um milhão desses refugiados chegaram até a Europa. Muitos não sobreviveram à travessia e transformaram o Mar Mediterrâneo em um cemitério para milhares de sonhos. 

Muitos dos que conseguiram ser reconhecidos como refugiados atravessaram mais de cinco países e flertaram com a morte, agora desejam apenas um coisa para 2016: uma nova chance para reconstruir suas vidas. E, pela primeira vez em anos, recebem 2016 com uma palavra que há tempos não usavam: esperança. 

Segundo a ONU, 60 milhões de pessoas estão deslocadas de suas casas. E um número mínimo conseguiu voltar a seus países de origem. O desafio, portanto, será o de integrar essa nova população em seus novos ambientes, vizinhos e culturas. 

Desejos. Wassem Adigga, de Homs, passou em 2015 pela Turquia, onde conheceu sua atual esposa, Aya, se casou e partiu em direção à Europa. Depois de atravessar Grécia, Macedônia, Sérvia, Hungria e Áustria, ele finalmente chegou à Alemanha. Adigga conta que foi levado para uma cidade de que nunca tinha ouvido falar, Colônia, há três meses e vive em um alojamento social do Estado alemão.

“Hoje, conseguimos sair da guerra e podemos pensar em viver”, disse ao Estado por telefone. Mas ele admite que a tarefa agora não é das mais fáceis. “Quero aprender alemão para conseguir trabalho. Só isso é o que pode nos garantir estabilidade. No fundo, só queremos uma vida normal.” 

Sua esposa, Aya, tentará terminar seus estudos, suspensos desde que a guerra ganhou uma dimensão trágica na Síria. “Mas agora temos algo que não tínhamos: esperança”, disse. Ao lado do marido, porém, voltou a fazer programas que havia “esquecido que existiam”, como idas ao zoológico e caminhadas em parques. 

Ahmed Zuri Assad também saiu da Síria em 2015. Mas sua fuga foi solitária. Deixou a família e foi tentar a sorte na Europa. Hoje, por ter 16 anos, vive em um centro de menores na cidade alemã de Hamburgo. “Aqui, a vida é muito boa”, disse por telefone à reportagem. “Estou de volta à escola, depois de três anos sem poder estudar. Claro que é difícil não falar alemão. Mas em 2016 eu espero já ter um nível suficiente para acompanhar as aulas”, afirmou. 

Outro sonho para o ano novo é mais complexo. “O que eu quero é que a guerra termine”, disse. “Minha família ainda está na Síria e espero um dia voltar para lá.” 

Dificuldade. O sonho também se confronta diariamente com os desafios. Em declarações colhidas pela ONU, a refugiada síria na Jordânia, Ragheda, tem as mesmas preocupações, mesmo sem ter chegado à Europa. Sua filha sofre de estresse pós-traumático e, com dez anos, é raro que consiga passar uma noite sem pesadelos. 

Ragheda, porém, quer reconstruir sua vida, encontrar um trabalho e ser capaz de “não precisar da ajuda de ninguém”. “Recebo dinheiro da ONU. Mas mal dá para pagar o aluguel”, disse. “Estou atrasada no pagamento em quatro meses e espero que, em 2016, possa ser capaz de pagar pela moradia”, disse. 

A situação ainda está distante de uma solução. “Esperávamos que 1 milhão de pessoas pudessem voltar para suas casas em 2015. Mas conseguimos apenas 24 mil”, disse Antonio Guterres, alto comissário da ONU para Refugiados. “As pessoas estão tão desesperadas que elas vão migrar”, disse. “A Europa estava totalmente desorganizada e dividida para receber refugiados e o que vimos foi o caos.” 

A imagem de que a Europa estava sendo invadida gerou temores entre as pessoas, avaliou Guterres. “Isso muda se você tem um esquema organizado.”

Na Europa, porém, o plano de realocar os refugiados pelo continente, por enquanto, mal começou. Dos 160 mil lugares que seriam divididos entre os estrangeiros, menos de 200 deles foram atendidos. Nas ilhas gregas, apenas um dos mais de dez centros de acolhida prometidos está em funcionamento. 

Na Alemanha e na França, os atos xenófobos se multiplicaram. Nas cidades francesas, os números oficiais do governo apontam que mais de 400 casos de ataques racistas foram registrados em 2015, contra cerca de 130 em 2014. Na Alemanha, foi registrado um recorde com 1,6 mil agressões da extrema direita, enquanto o partido xenófobo Alternativa para a Alemanha abarca 10% de apoio em pesquisas de opinião. 

Não por acaso ontem, em sua mensagem de fim de ano, a chanceler alemã Angela Merkel deixou claro que seu governo vai usar todos os recursos possíveis para lidar com os mais de 1 milhão de estrangeiros que pediram asilo no país. Mas também fez um apelo aos alemães para que rejeitem o conflito social fomentado por “nacionalistas com ódio no coração”.

Merkel admitiu que lidar com a nova realidade vai custar “esforço e dinheiro”. Mas o fluxo, segundo ela, deve ser visto como oportunidade de modernizar e criar mão de obra para a maior economia da Europa. 

Pressionada dentro de seu próprio partido a estabelecer cotas para refugiados e vendo sua popularidade cair pela primeira vez em anos, Merkel optou por resistir. Seu argumento é de que o país vive a menor taxa de desemprego desde a reunificação das Alemanhas, a balança de pagamentos está equilibrada e os salários aumentam. 

Mas seu discurso pode não ter o impacto esperado. No total, a Alemanha prevê gastos de US$ 18,5 bilhões com os imigrantes e refugiados em 2016 e, em alguns estados, um déficit voltará a ser registrado.

Os alemães começam um novo ano pela primeira vez em muito tempo com um sentimento de “medo do futuro”. Segundo uma pesquisa do Instituto GfK, 55% dos entrevistados temiam a chegada de 2016. 

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