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Intelectuais e ex-líderes pedem ação da ONU

Em carta ao Conselho de Segurança, FHC, Shirin Ebadi e ex-presidente sul-africano cobram Rússia por apoio a Assad

Jamil Chade, correspondente em Genebra,

12 de março de 2012 | 03h04

O ex-secretário-geral da ONU Kofi Annan concluiu ontem dois dias de visita a Damasco sem chegar a um acordo para por fim à guerra civil no país. Annan defendeu um cessar-fogo, seguido de "reformas democráticas", mas o presidente Bashar Assad respondeu que uma saída negociada seria impossível enquanto "terroristas armados" estivessem atuando na Síria.

Durante a permanência de Annan, o Exército sírio realizou uma ofensiva à cidade de Idlib, no noroeste do país, que deixou ao menos 119 mortos, segundo comitês locais.

O ex-secretário-geral da ONU, que ontem se disse otimista, havia pedido no sábado cessar-fogo, libertação dos presos políticos e acesso irrestrito das agências humanitárias à população. Assad pediu tempo para pensar. "É preciso começar parando a matança, o sofrimento e o abuso que está ocorrendo hoje, e então dar tempo para um acordo político", declarou ontem Annan, antes de seguir para o Catar, cujo governo tem proposto abertamente que a comunidade internacional forneça armas aos combatentes rebeldes. Annan, que nasceu em Gana, contou ter pedido a Assad que seguisse um provérbio africano: "Se você não pode virar o vento, então vire a vela."

Tropas leais ao governo apoiadas por tanques e artilharia avançaram no sábado contra Idlib. Moradores tentaram fugir e combatentes do Exército Sírio Livre (ESL) bateram em retirada. Mesmo assim, só no sábado, 39 civis, 39 combatentes rebeldes e 20 soldados morreram na cidade e nos arredores, somando 98 pessoas.

Outros 16 civis e 5 soldados morreram ontem, de acordo com o Observatório Sírio de Direitos Humanos, com base em Londres, totalizando 119 pessoas no fim de semana. Os disparos de canhões podiam ser ouvidos ontem do lado turco da fronteira.

Retirada. "Mandamos nossas forças se retirarem de Idlib para evitar uma repetição do que ocorreu em Homs", disse ontem ao Estado o capitão Ayham al-Kurdi, do ESL, referindo-se à ofensiva que devastou a cidade do centro-oeste da Síria dez dias atrás. "Mantivemos apenas pequenos grupos para proteger algumas áreas."

"Anunciamos que sairíamos de Idlib, mas o governo não levou isso em conta e bombardeou a cidade, com tanques, artilharia pesada e foguetes", continuou o capitão, que tem atuado como porta-voz do ESL, em Antakya, perto da fronteira entre a Turquia e a Síria. "Helicópteros estão sobrevoando a cidade, mas são usados mais para reconhecimento do que para ataques." Segundo ele, os rebeldes derrubaram um helicóptero no sábado.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, ganhadores do prêmio Nobel da Paz, e personalidades internacionais uniram-se ontem para pedir ao Conselho de Segurança da ONU que supere suas diferenças e dê uma resposta à crise na Síria. Em carta, que será publicada hoje no Financial Times, o grupo pediu à Rússia que deixe de apoiar Bashar Assad e alertou para a perda de credibilidade internacional provocada pelo respaldo à ditadura síria.

A carta - subscrita também pelos ex-presidentes Frederik De Klerk, da África do Sul, e Richard von Weizsäcker, da Alemanha, além dos prêmios Nobel Shirin Ebadi, Leymah Gbowee, Mairead Maguire, Rigoberta Menchú Tum e Jody Williams - as personalidades classificam as divergências no Conselho de Segurança de lamentáveis e alertam que são elas estão impedindo uma resposta unificada e proativa para a crise.

"A responsabilidade pelo recente banho de sangue cabe, em última instância, àqueles que na Síria ordenaram, permitiram ou cometeram, eles próprios, estes crimes hediondos", diz o texto. "Entretanto, a falta de consenso da comunidade internacional deu ao governo do presidente Assad a licença para matar. Esta licença precisa ser revogada."

O grupo ressalta que a demora em uma ação por parte da ONU agravará o conflito. "Receamos que o atual impasse na estratégia internacional acarrete uma escalação de iniciativas, tais como armar o regime e a oposição, o que poderia prolongar o conflito e o sofrimento", argumentam os signatários. "Para solucionar o impasse, precisamos ver a Rússia trabalhando junto a outros parceiros internacionais." Completam o grupo o filósofo Jürgen Habermas, os escritores Umberto Eco e Stéphane Hessel.

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