Juan Mabromata / AFP
Juan Mabromata / AFP

Inteligência argentina quer interrogar ex-presidente Macri por espionagem

Agência Federal de Inteligência da Argentina fez a denúncia contra Macri; além de jornalistas, acadêmicos, empresários e personalidades da sociedade civil foram investigados

Redação, O Estado de S.Paulo

08 de junho de 2020 | 05h02

Quatrocentos e três jornalistas foram investigados e tiveram o perfil ideológico traçado para as cúpulas da Organização Mundial do Comércio e do G20 em Buenos Aires, denunciou a atual direção da Agência Federal de Inteligência (AFI), que pediu para interrogar o ex-presidente Mauricio Macri (2015-2019).

"A denúncia judicial foi apresentada na sexta-feira passada e amanhã (segunda) será aportada toda prova", informou uma fonte oficial que pediu para ter a identidade preservada. 

A lista de investigados inclui dezenas de jornalistas de veículos estrangeiros, entre eles vários da AFP, bem como uma centena de acadêmicos, empresários e outras personalidades da sociedade civil

O material foi encontrado em três envelopes com as legendas "2017", "Jornalistas G20" e "Vários", dentro de um cofre do gabinete que era ocupado pelo ex-diretor operacional da Área de Contrainteligência da AFI. A capital argentina sediou a cúpula da OMC em 2017 e um ano depois, a do G20.

"A investigação sobre os jornalistas eram simples. Coletavam informação nas redes sociais e daí era traçado um perfil ideológico e político", explicou a fonte.

Em sua denúncia judicial, a interventora da AFI, Cristina Caamaño, destaca que constam das fichas "preferências políticas, publicações em redes sociais, simpatia com relação a grupos feministas e de conteúdo político e/ou cultural, entre outras".

Junto aos nomes, aparecem comentários como "mostra-se muito crítico sobre o atual governo", "mostra afinidade com o peronismo", "apoia o governo", "pediu no Facebook a libertação de [o ex-presidente brasileiro] Lula" ou "apoiou o aborto legal". 

Segundo o perfil ideológico, tinham as fichas marcadas com as cores verde, amarela ou vermelha, supostamente para habilitar o credenciamento que os jornalistas tinham pedido à chancelaria argentina, uma prática que evoca uma prática da ditadura (1976-1983).

"Se for confirmado esse procedimento do governo de Maurício Macri, a ACERA repudia energicamente procedimentos dessa natureza, que são inadmissíveis em uma democracia e comprometem gravemente o exercício da profissão de jornalista", manifestou-se em um comunicado a Associação de Correspondentes Estrangeiros (ACERA).

A Associação de Empresas Jornalísticas (ADEPA) pediu que a investigação judicial seja realizada "com celeridade, efetividade e independência" e advertiu pelo Twitter que, se confirmadas as denúncias, "tais condutas seriam incompatíveis com o Estado de direito".

A Federação Argentina de Trabalhadores da Imprensa (FATPREN) e o Sindicado de Jornalistas de Buenos Aires (SIPREBA) também manifestaram seu repúdio. / AFP

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