Alexandre Meneghini/AP
Alexandre Meneghini/AP

Inteligência de Kadafi infiltrou agentes em grupos rebeldes

Regime líbio vigiava opositores e ajudava espiões dos EUA a interrogar terroristas

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

04 Setembro 2011 | 00h00

Reportagem Especial

Espiões do coronel

ENVIADO ESPECIAL / TRÍPOLI

Ao desmoronar às vésperas de completar 42 anos no poder, o regime de Muamar Kadafi tinha uma precisa noção da força militar dos rebeldes que o cercavam a partir de Zintan, Misrata e Benghazi. A ditadura conhecia cada adversário, mesmo os de segundo e terceiro escalões, e trabalhava para sabotar o movimento insurgente por dentro das estruturas do Conselho Nacional de Transição (CNT). As revelações estão em documentos abandonados no Itikhbarat, a sede do serviço secreto militar de Trípoli, aos quais o Estado teve acesso.

Os papéis foram abandonados por ninguém menos que Aballah al-Senoussi, cunhado de Kadafi e temido diretor do serviço de espionagem do regime, e por seus assessores antes da batalha pelo controle da capital, travada desde 19 de agosto.

Situada no centro de Trípoli, a 500 metros do Hospital Central, a sede do Itikhbarat era um dos centros nervosos do Estado policialesco montado por Kadafi ao longo de suas quatro décadas de poder. Por isso, foi atingida por bombardeios da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).

Com a colaboração de rebeldes, a reportagem do Estado visitou o prédio, fechado à imprensa internacional desde que a rede de TV Al-Jazira encontrou nos escritórios documentos comprovando a relação cordial entre parlamentares americanos e o regime, nesta semana. Em ofícios do conselho, alguns dos quais assinados e impressos com papel timbrado nas cores da bandeira revolucionária - verde, vermelho e preto -, constam informações como os nomes e as funções de cada um dos líderes da rebelião e também de membros de segundo escalão.

Fotos revelavam os rostos e os encontros realizados entre os insurgentes de Benghazi e de Zintan, as duas cidades que mais desafiaram o regime. Mapas da região das montanhas de Jabal Nafusah - onde os rebeldes organizaram o ataque a Zawiya, crucial para a conquista de Trípoli - indicam as armas à disposição dos insurgentes, os veículos de guerra e a posição das tropas.

Em troca das informações, o regime kadafista subornava insurgentes de Benghazi e Zintan com dinheiro e bens úteis em meio ao caos líbio, como telefones via satélite. Além disso, garantia a segurança dos traidores.

Quem apresenta os papéis e explica em árabe os arquivos à imprensa é Mohamed, agente do Itikhbarat que se orgulha de ter exercido a função de espião duplo. Desde o início da revolução, assegura, ele transmitia os segredos da organização militar ao CNT e acompanhava o trabalho de inteligência feito pelo regime. "As informações de Mohamed foram cruciais para a batalha de Trípoli e para outras", diz o rebelde encarregado de vigiar as ruínas do prédio, Mouftah, de Zintan. "Nós também sabíamos que armas o governo tinha e onde se concentravam."

Kadafi e CIA. Documentos encontrados no escritório mostram também detalhes sobre os estreitos vínculos da Agência Central de Inteligência americana (CIA) com o serviço de informações líbio - sugerindo principalmente que os EUA enviaram, pelo menos oito vezes, suspeitos de terrorismo para serem interrogados na Líbia, país que notoriamente usava a tortura.

Os arquivos mostram que a cooperação com a CIA e a correspondente agência britânica, MI-6, era muito maior do que se imaginava. Alguns documentos indicam que o serviço secreto britânico estava disposto a grampear números de telefones para os líbios. Outro texto parece um esboço de um discurso escrito pelos americanos para Kadafi falar sobre o abandono de armas não convencionais.

Foram encontrados pelo menos três volumes de documentos em inglês, um marcado com nome da CIA e os outros dois com o do MI-6, além de uma quantidade maior de papéis em árabe. Uma porta-voz da CIA, Jennifer Youngblood, não quis fazer comentários a respeito dos documentos. Mas acrescentou: "Não deve surpreender que a CIA trabalhe com governos estrangeiros para proteger o nosso país do terrorismo e de outras ameaças mortais." O Ministério do Exterior britânico declarou ser política do governo "não comentar questões de inteligência".

"O programa previa a entrega de figuras importantes relacionadas à Al-Qaeda para que fossem torturadas a fim de conseguir delas as informações esperadas", disse Peter Bouckart, diretor de emergências da Human Rights Watch. Os papéis cobrem o período de 2002 a 2007, e muitos deles se concentram no final de 2003 e 2004.

O discurso que parece ter sido preparado para Kadafi foi encontrado no volume da CIA e teria sido enviado pouco antes do Natal de 2003. O texto de uma página apresentava o ditador líbio sob uma luz favorável. O fluxo de comunicações sobre os interrogatórios se intensificou depois da renúncia da Líbia ao seu programa de armas. Um dos papéis incluía uma lista de 89 perguntas a serem feitas pelos líbios aos suspeitos. / COM NYT

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