AP/Martin Meissner
AP/Martin Meissner

'Inteligência sabia de risco, mas achou que ameaça viria de fora'

Para especialista, a Bélgica, por ser um país pequeno e sem histórico de conflitos, não estava preparada para descobrir e impedir ataques

Entrevista com

Michaël Dantinne, especialista em terrorismo

Renato Machado, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S. Paulo

24 de março de 2016 | 05h00

Ao contrário dos atentados de Paris, em novembro, que tinham um público-alvo específico, formado por jovens, frequentadores de restaurantes e casas noturnas, o objetivo das explosões que abalaram Bruxelas era simplesmente atingir o máximo de pessoas, sem nenhuma mensagem política por trás. Era quantitativo e não qualitativo. A análise é do professor de criminologia da Universidade de Liège (ULg) e especialista em terrorismo, Michaël Dantinne.

Embora reconheça que há falhas nos serviços de inteligência e de segurança belgas, Dantinne acrescenta que é muito difícil determinar a gravidade de uma ameaça, mesmo com algumas informações em mãos. “Sim, estávamos a par de que algo poderia acontecer, mas a distância entre saber o que é possível e algo concreto, como tivemos, é muito grande”, afirmou o professor. Para ele, a única forma de conter a violência é atacar a “motivação” dos terroristas para levar adiante suas ações.

Muito se fala de que os atentados foram uma retaliação à prisão de Salah Abdeslam. O senhor acredita nisso?

Eu vejo dois cenários possíveis. O primeiros seria sim uma vingança, não apenas pela prisão de Abdeslam, mas pela morte de outro membro da mesma célula ou de alguma outra, como também vimos na semana passada (um suspeito foi morto em uma troca de tiros no distrito de Forêt, durante uma operação das polícias belga e francesa). O segundo cenário seria que esses atentados terroristas já estivessem planejados, mas teriam sido antecipados. Pelo que foi divulgado pela mídia e pelas autoridades, tudo indica que esses homens teriam medo de ser presos, descobertos por conta dos depoimentos de outros militantes que estão detidos. Por isso, teria havido essa antecipação. Também pode ser uma mistura desses dois fatores. A verdade mesmo só eles (os terroristas) devem saber, mas deve ser nessa linha.

Os atentados de Paris tinham como alvo basicamente o público jovem. O sr. vê alguma marca característica neste, alguma mensagem?

Atingir o maior número de pessoas possíveis. Foi por isso que escolheram o aeroporto de manhã cedo, momento de saída de muitos voos. Foi por isso que fizeram no metrô no mesmo horário, com crianças e adultos de diferentes procedências. Não vejo razões políticas. Estão falando que o objetivo era atingir Bruxelas, como sendo a capital europeia, o coração da Europa. Acredito que o objetivo era atingir o maior número de vítimas, independente de quem fossem.

Os serviços de inteligência e seguranças belgas têm sido muito criticados. O sr. acredita que houve falhas?

Durante muito tempo, os especialistas e a inteligência da Bélgica pensaram que havia uma ameaça, mas que ela viria de fora e teria como alvo as instituições europeias. Depois dos atentados de Paris, eles passaram a crer que algo pudesse acontecer partindo de belgas e contra belgas. Mas ninguém esperava que fosse tão rápido. Muitos questionam por que, no domingo, não já elevaram o alerta para nível 4. Mas eu questiono: por que não baixar para nível 2, já que Abdeslam, que era a grande ameaça, tinha sido preso? Digo isso para mostrar que é uma situação difícil, quase impossível de se prever. Sim, estávamos a par de que algo poderia acontecer, mas a distância entre saber o que é possível e algo concreto, como tivemos, é muito grande.

No entanto, é verdade que a Bélgica é um país pequeno, sem grandes históricos de conflitos, sem inimigos, com participações em operações militares menos importantes. Portanto, não desenvolvemos uma cultura de inteligência, como a França. Essas questões foram negligenciadas por muito tempo. Parte foi corrigida nos últimos anos, mas ainda há problemas. O principal fator é a radicalização.

Como ocorreu esse nível de radicalização dos jovens belgas?

Todos os principais líderes dos últimos atentados têm em comum um histórico de crimes menores, de delinquência juvenil e de prisões. Praticamente todos conviviam em Molenbeek. Ou seja, ainda não eram radicais, mas eram criminosos, abertos à violência. Então, chegam os convites para ganhar dinheiro, para matar inimigos livremente, para virar heróis na Síria. Eles partem e lá ocorre a radicalização religiosa, até porque se trata de uma guerra, onde há medo, situação perfeita para alimentar a fé. Então, eles voltam para casa, para uma realidade da qual não gostavam, mas agora são radicais religiosos e mais violentos. Claro que há algumas diferenças entre os casos, mas o perfil é este.

Novos atentados podem ocorrer em breve? Como evitá-los?

Difícil responder. Primeiro é preciso agir em cima das células já conhecidas, como a de Abdeslam, já que há pessoas foragidas e outras que já estão no radar das autoridades. Quão próximas estão de promover novo ataque? Difícil saber. Por isso a ação precisa ser constante. A chave é atacar a motivação. E isso deve ser feito em duas frentes: primeiro, trabalhando na raiz, na desigualdade, promovendo políticas mais justas para acabar com o isolamento desses jovens. E, ao mesmo tempo, melhorar a eficiência da polícia e dos setores judiciais.

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