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Interesse em Damasco

Até onde sabemos, o homem mais poderoso do planeta não prima pela lógica

Gilles Lapouge*, O Estado de S.Paulo

21 de dezembro de 2018 | 06h06

Com a costumeira rapidez de sua diplomacia, o presidente Donald Trump anunciou num tuíte que vai retirar seus soldados da Síria. Mesmo os mais próximos de Trump em Washington ficaram aturdidos. Já os especialistas em jihad que enxameiam a capital americana ficaram simplesmente estupefatos. Como prever o imprevisível?

Um homem parece ter aconselhado Trump a tomar a decisão: o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, que há um ano pressiona o americano a fazer isso. A insistência de Erdogan faz sentido. Com o afastamento das forças americanas, ele quer ter sob a mira dos fuzis turcos os curdos das Unidades de Proteção Popular (YPG), combatentes ligados ao Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), organização que Erdogan detesta. O líder turco teme que os curdos do norte da Síria, até agora protegidos pelos EUA, se vejam tentados a criar seu próprio país, vizinho à Turquia. Caso isso ocorra, Erdogan pode agora intervir contra os curdos abandonados por Trump.

A França também está preocupada com a decisão isolada e fulgurante de Trump. Emmanuel Macron acreditava ter persuadido Trump a não tomá-la. Foi durante o breve encontro no qual os dois dirigentes mantiveram uma espécie de idílio que beirou o ridículo. 

As autoridades francesas receberam com azedume a nova investida de Trump. Em seu tuíte, Trump assegurou que “o Estado Islâmico foi derrotado”. Não é bem assim, responde a ministra francesa das Forças Armadas, Florence Parly. É verdade que os territórios ainda sob controle do EI encolheram, mas é falso que o grupo tenha sido “riscado do mapa”.

Decididamente, a França não tem chance nesse conflito. Toda vez que ela se ocupa da Síria, esbarra nos EUA. Lembremos que em 2013 a França conseguiu com os aliados da coalizão o bombardeio à Síria, que havia usado gás sarin contra os rebeldes sírios democratas. Ora, Obama decidiu não ordenar os ataques aéreos previstos nessas circunstâncias. E olha que Obama mantinha mais a palavra que Trump.

O medo de Paris é que os curdos sírios, que tiveram um papel essencial, às vezes heroico, na guerra contra o EI, sejam abandonados à própria sorte num momento em que Erdogan, que parece se sentir o todo-poderoso agente da operação Trump, ameaça intervir pesadamente contra o feudo curdo na Síria. 

Sobre isso, o ainda chanceler francês, Jean-Yves Driant, afirmou: “É preciso estabilizar as zonas libertadas da organização terrorista, notadamente pelas forças curdas e árabes, que apoiamos e com frequência se sacrificaram nos combates”. 

A diplomacia francesa considera indispensável criar um santuário no norte da Síria até que uma transição política “inclusiva”, integrando setores da sociedade síria, seja iniciada. As observações e reivindicações da França são razoáveis e lógicas. Mas será que Trump vai levá-las em conta? Até onde sabemos, o homem mais poderoso do planeta não prima pela lógica.

Enquanto a saída dos soldados americanos preocupa alguns países e líderes, outros líderes e países se alegram. Entre os líderes que se alegram estão o russo Vladimir Putin e o sírio Bashar Assad. Um país que está contente é o Irã, aliado da Síria e inimigo dos EUA, que se aliaram à Arábia Saudita. Os sauditas são grandes compradores de armas americanas e inimigos figadais do Irã. Quem puder que entenda! / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

* É CORRESPONDENTE EM PARIS

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