EFE/EPA/FILIP SINGER
EFE/EPA/FILIP SINGER

Interesse por imigração cai e extrema direita perde espaço na Alemanha

Pandemia e mudanças climáticas se tornam prioridades para alemães e travam crescimento de partido xenófobo

Redação, O Estado de S.Paulo

26 de setembro de 2021 | 05h00

BERLIM - Em 2013, eles chegaram com tudo. Prometeram “caçar” as elites, questionaram a necessidade de um memorial do Holocausto em Berlim e descreveram os muçulmanos como “garotas com lenço na cabeça” e “homens com facas na mão”. Quatro anos atrás, a Alternativa para a Alemanha (AfD) se tornou o primeiro partido de extrema direita a conquistar um lugar no Parlamento da Alemanha desde a 2.ª Guerra.

A ascensão da AfD foi um terremoto político em um país que já vira o partido nazista de Adolf Hitler emergir da periferia para ganhar o poder em eleições livres. Mas agora, às portas de outra eleição, os piores pesadelos de muitos alemães não se concretizaram. O apoio ao partido diminuiu. Ao mesmo tempo, ninguém acredita que os extremistas desapareçam do cenário político tão cedo.

Mas, se o destino da Alemanha na eleição de hoje não passa pela extrema direita, segundo analistas políticos, o futuro da Alemanha será parcialmente moldado por ela. “A AfD veio para ficar”, disse Matthias Quent, professor de sociologia da Universidade de Magdeburg e especialista em extrema direita. “Havia uma esperança ingênua de que fosse um fenômeno de protesto de curta duração. Mas a realidade é que ela se enraizou no cenário político alemão.”

Segundo pesquisas, a AfD deve obter hoje cerca de 11% dos votos, um pouco abaixo do resultado de 2017, quando os extremistas tiveram 12,6%. A votação, porém, é suficiente para manter sua presença no Parlamento – a cláusula de barreira na Alemanha é de 5%, o que impede muitos partidos nanicos de eleger representantes. 

O maior desafio da AfD, no entanto, é que todos os outros partidos se recusam a inclui-la em qualquer negociação para a formação da próxima coalizão de governo, o que exclui automaticamente o partido do poder. “A AfD está isolada”, afirmou Uwe Jun, professor de ciências políticas da Universidade de Trier. 

Mesmo assim, se os dois principais partidos da Alemanha ficarem abaixo da marca de 30% dos votos, como mostram as pesquisas, a AfD continuará sendo uma força disruptiva, que complica os esforços para construir uma coalizão governamental. Tino Chrupalla, um dos líderes da AfD, acredita que esse “muro” que outros partidos ergueram deve ruir. “Não é sustentável”, disse. “Mais cedo ou mais tarde, não haverá governo sem a AfD.” 

Fundado em 2013 como um partido nacionalista em protesto contra o euro e o resgate da Grécia, a AfD deu um cavalo de pau para a direita. O partido aproveitou a decisão da chanceler, Angela Merkel, de receber mais de 1 milhão de imigrantes, em 2015, para crescer com uma plataforma xenófoba. Nos últimos 18 meses, porém, o partido parou de crescer, já que a pandemia e as mudanças climáticas atingiram o topo da lista de preocupações dos eleitores – ao passo que a imigração sumiu da campanha. 

A AfD não costuma ter ligação direta com a violência política, mas sua retórica agressiva contribui para a normalização da linguagem violenta, que coincide com uma série de ataques terroristas. Em junho de 2019, um político regional que havia defendido os refugiados foi morto a tiros em sua casa por um neonazista – no julgamento, ele disse que havia participado de protestos da AfD.

Em outubro de 2019, um extremista atacou uma sinagoga de Halle, no Yom Kippur, matando duas pessoas. Em fevereiro de 2020, outro extremista matou nove, a maioria jovens imigrantes, na cidade de Hanau. A partir deste ponto, a AfD para de subir nas pesquisas. 

“Depois desses três ataques, a população e a imprensa perceberam, pela primeira vez, que a retórica da AfD leva à violência real”, disse Hajo Funke, da Universidade Livre de Berlim, que escreveu sobre o partido e acompanha sua evolução. “Foi um ponto de inflexão.”

Os números da AfD, de acordo com sondagens, vêm se mantendo os mesmos desde então, sugerindo que seus apoiadores não são eleitores insatisfeitos com o sistema, mas alemães que apoiam de fato suas ideias radicais e sua ideologia ultraconservadora. “A AfD revelou um eleitorado pequeno, mas muito radical, que muitos pensavam que não existia na Alemanha”, disse Quent. “Quatro anos atrás, as pessoas se perguntavam: ‘De onde vem isso?’ Na realidade, sempre esteve por aí. Só precisava de um gatilho.” / NYT

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.