Interesses de Pequim e Washington devem atenuar acusações

A China censurou ontem os EUA por acusá-la de facilitar o voo do agente Edward Snowden, afirmando que as insinuações feitas são "sem fundamento e inaceitáveis". As observações partiram do Ministério do Exterior chinês e comentários feitos anteriormente pela mídia estatal salientaram a tensão nas relações entre os dois países desde que Snowden fugiu de Hong Kong, no domingo.

BASTIDORES: Sui-lee Wee / Reuters, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2013 | 02h01

Segundo a Casa Branca, a decisão de Hong Kong, território chinês, de permitir que Snowden partisse foi um ato deliberado do governo de libertar um fugitivo, apesar de um mandado de prisão válido, uma decisão que teria impacto negativo na relação entre os dois países.

A China rejeitou a acusação. "Os EUA não têm nenhuma razão para questionar o governo de Hong Kong, de acordo com a lei", disse a porta-voz do Ministério do Exterior, Hua Chinying. "As críticas dos EUA ao governo central chinês não têm fundamento. A China não pode aceitá-las."

Para especialistas de ambos os lados, porém, esse discurso mais duro deverá rapidamente ser esquecido e nenhum dos dois países deseja que seus vínculos se deteriorem algumas semanas depois da cúpula coroada de êxito entre os presidentes Barack Obama e Xi Jinping.

"A China não quer que isto afete a situação geral. Pequim sempre manteve um comportamento moderado e relativamente calmo porque as relações sino-americanas são importantes", disse Zhao Kejing, professor de relações internacionais na Universidade de Tsinghua. "Os EUA não têm razão para exercer pressão, do contrário perderão respaldo moral."

Para Kenneth Lieberthal, especialista em assuntos chineses do Brookings Institution, que foi assessor do ex-presidente Bill Clinton, condenar Pequim é "algo inconcebível" e ligar a questão Snowden a outros assuntos anulará a estratégia política de tratar os assuntos separadamente para evitar ruptura nas relações. "No decorrer dos anos, temos procurado evitar que um desacordo sério numa área determinada extrapole e estrague o relacionamento inteiro", disse.

Na cúpula, no início do mês, Obama discutiu com Xi questões ligadas ao roubo cibernético. Xi afirmou, na entrevista conjunta com Obama, que a própria China tem sido vítima de ataques cibernéticos, mas que ambos os lados devem trabalhar juntos para desenvolver uma estratégia comum.

As revelações de Snowden de intromissão da Agência de Segurança Nacional em Hong Kong e na China deram a Pequim muita munição nessa troca de farpas. "De certo modo, o país que era modelo de direitos humanos se tornou 'espião da vida privada das pessoas', 'manipulador' do poder centralizado sobre a internet internacional e 'invasor" de 'redes' de outros países", é o que se lê na edição estrangeira do Diário do Povo, jornal chinês que reflete o pensamento do governo. "O mundo lembrará de Snowden", diz o jornal. "Foi seu destemor que arrancou a máscara de hipocrisia de Washington."

Pequim estava dividida quanto a reter Snowden ou deixá-lo partir, mas optou por permitir que ele deixasse o país. "Se a China entregasse Snowden aos EUA, seria vista como lacaia de Washington e criticada pelos usuários de internet simpáticos a ele", disse uma fonte próxima do governo chinês. "Autorizar Snowden a permanecer em Hong Kong ou no continente causaria mais problemas e dor de cabeça", disse a fonte. "Permitir sua partida era a única opção."

A agência estatal de notícias Xinhua adotou um tom mais conciliador. "Tanto Pequim como Washington sabem que um caso isolado não deve danificar uma das relações mais cruciais no mundo. É do interesse dos dois países manter esse ímpeto positivo nas relações bilaterais." / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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