Interesses dos EUA prevalecerão sobre aspirações democráticas

Segundo especialistas, posição de Washington em relação à derrubada de outras ditaduras não deve mudar

Denise Chrispim Marin, O Estado de S.Paulo

13 de fevereiro de 2011 | 00h00

O apoio dos EUA aos clamores da Praça Tahrir, no Cairo, não alimentaram otimismo sobre uma real e efetiva pressão de Washington para a derrubada de outras ditaduras, sobretudo no Oriente Médio. O ceticismo não está assentado apenas nos fatos de a batalha pela democracia no Egito apenas ter começado com a derrubada de Hosni Mubarak e de o processo de transição estar coberto de incertezas. Mas também há a desconfortável evidência de que os EUA e o restante do mundo, a rigor, respaldaram um golpe de Estado na manhã de sexta-feira, em nome de uma potencial democracia.

Christopher Nelson, especialista em política externa americana, avaliou ser impraticável, para os EUA, a defesa explícita da democracia em países onde a lei e a ordem estão sustentadas em regimes autoritários. Sobretudo, onde não haja uma sociedade civil evoluída e organizada. Os riscos em relação à segurança e à estabilidade da região - e, em último caso, dos interesses americanos - estarão sempre no topo das definições estratégicas da Casa Branca.

A revolução popular egípcia, destacou o especialista, terá certamente impacto tanto nas autocracias existentes, como no restante do mundo. Mas, conforme notou, a expressão "contágio" sumiu das análises de centros de pesquisa e de autoridades americanas na última semana.

A opinião é compartilhada por Steve Clemons, da New America Foundation, para quem seria uma "fantasia" pensar na pressão sistemática do governo americano sobre seus aliados autocráticos, como meio de dar impulso à democratização do Oriente Médio e de outras regiões. Clemons advertiu para a própria "trapalhada" da Casa Branca ao conduzir essa crise e para seu temor de que, como no Egito, o processo de transição em outros países seja tão complicado e sujeito a um desborde ainda mais autoritário. A atual relação dos EUA com vários regimes autoritários é tão conveniente como foi sua aliança com o Egito nos últimos 30 anos.

Nelson completou o raciocínio de Clemons com hipóteses para o caso de o Egito não se tornar uma "nova Turquia", como é esperado. Na Turquia, a sociedade civil foi capaz de garantir a transição democrática nos anos 80. Se o processo egípcio se revelar uma farsa, argumentou ele, ganhará força no Oriente Médio a noção de que o autoritarismo "realmente serve" aos interesses socioeconômicos dos povos.

"No mundo árabe, somente a Turquia obteve sucesso na construção de um Estado secular democrático capitalista", afirmou. "Pensar em democracia no Afeganistão, Paquistão, Iraque e no restante do Oriente Médio é algo irreal. Não há sociedade civil desenvolvida nesses países."

Ao contrário de Clemons, Nelson considera que Obama conduziu bem a crise do Egito. Pelo menos, em privado. Segundo Nelson, no discurso do dia 11, Obama teve o cuidado de não emitir nenhum sinal de apoio à junta militar sucessora de Mubarak. Ao contrário, deixou implícita a possibilidade de suspensão da "assistência" ao Egito - a remessa de US$ 1,4 bilhão ao ano -, se o novo comando militar não conduzir o processo de transição a contento.

Discussão. Opiniões divergentes, entretanto, prenunciam um debate intenso em Washington sobre a posição futura da Casa Branca em relação aos regimes autoritários que ainda apoia. Robert Danin, do Council on Foreign Affairs, acredita ser o momento de uma "tremenda virada" na política externa americana na promoção da democracia no mundo. O episódio do Egito, em sua opinião, resultou na responsabilidade dos EUA em dizer claramente aos regimes democráticos que seu apoio a eles não é incondicional e não estarão imunes a críticas de Washington. Um dos erros dos EUA foi não impor condições ao Egito em troca de seu apoio.

"Os EUA serão agora mais firmes no apoio a grandes democracias do mundo e terão mais dificuldade em ficar ao lado de regimes repressivos, sem receber as devidas críticas", afirmou.

Também otimista com uma nova guinada nos EUA em defesa da democracia, Lawrence Korb, do Center for American Progress, vê no episódio do Egito uma repetição da atitude americana em relação à América Latina no final dos anos 80. Depois do respaldo total aos golpes de Estado e às ditaduras militares na região, entre os anos 60 e 70, Washington passou a pressionar pela democratização desses países e pelo respeito aos direitos humanos na década seguinte, especialmente sob o governo de Jimmy Carter.

Segundo Korb, o debate sobre essa nova prioridade do governo americano deve ser estimulado. Especialmente, a dissociação do objetivo de combater ao terror da Al-Qaeda do ideal de resguardar a segurança do país. Korb acredita ser possível encorajar a sociedade civil de países governados por autocratas, sem a necessidade de nenhuma pressão.

"As mesmas pessoas que antes queimavam as bandeiras americanas hoje buscam o apoio americano para a democratização de seus países", afirmou.

Comunicado. No dia seguinte à queda do líder egípcio, o presidente dos EUA afirmou ter sido bem-vindo o compromisso da Suprema Corte das Forças Armadas do Egito com a transição democrática civil. Conforme comunicado divulgado ontem pela Casa Branca, Obama expressou sua convicção de que a "democracia trará mais - não menos - estabilidade para o Oriente Médio".

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