Adriana Loureiro Fernandez/The New York Times
Adriana Loureiro Fernandez/The New York Times

Interior da Venezuela entra em colapso

Para satisfazer elite, Maduro usa recursos em Caracas e abandona restante do país 

Anatoly Kurmanaev  / The New York Times , O Estado de S.Paulo

14 de janeiro de 2020 | 07h00

PARMANA, VENEZUELA - De seu palácio em Caracas, o presidente Nicolás Maduro projeta uma imagem de força e seu controle sobre o poder parece estar seguro. Os moradores dispõem regularmente de eletricidade e gasolina. As lojas estão repletas de mercadorias importadas.

Mas para além da capital, essa aparência de ordem rapidamente se dissipa. A fim de preservar a qualidade de vida de seus mais importantes defensores, que são as elites políticas e militares do país, o governo investiu em Caracas os recursos cada vez menores do país e abandonou grandes áreas da Venezuela.

“A Venezuela está falida como Estado, como país”, disse Dimitris Pantoulas, analista político em Caracas. “Os poucos recursos disponíveis são investidos na capital para proteger a sede do poder, criando um miniestado em meio ao colapso.”

Em grande parte do país, funções básicas do governo, como policiamento, manutenção de estradas, assistência médica e serviços públicos, foram abandonadas.

A única evidência remanescente do Estado em Parmana, uma vila de pescadores nas margens do Rio Orinoco, são três professores que permanecem na escola, embora comida, livros e até giz para a lousa estejam em falta.

O padre foi o primeiro a deixar Parmana. À medida que a crise econômica se aprofundava, assistentes sociais, polícia, médico comunitário e vários professores foram embora. Oprimidos pelo crime, explicam os moradores da vila, eles se voltaram para os guerrilheiros colombianos em busca de proteção.

“Fomos esquecidos”, afirmou Herminia Martínez, de 83 anos, enquanto se abaixava com um facão, no calor tropical, para cuidar de um campo de feijão cheio de mato. “Não há governo aqui.”

Adversários de Maduro perderam força

Há um ano, parecia que, por um momento, os críticos de Maduro poderiam ter uma chance de depô-lo. Um líder da oposição, Juan Guaidó, representou o maior desafio ao governo de Maduro até o momento, reivindicando a presidência e rapidamente ganhando apoio dos Estados Unidos e de quase 60 outros países.

Agora, os adversários de Maduro perderam força. O governo Donald Trump continua apoiando Guaidó: ontem, os EUA emitiram novas sanções contra aliados do governo que o tentaram impedir de assumir a presidência da Assembleia Nacional do país. Apesar da pressão, Maduro parece seguro no poder.

Mas a economia, que vem sendo má administrada, sofreu uma queda nas exportações de petróleo e ouro, e o país enfrenta as debilitantes sanções dos EUA, enquanto entra em seu sétimo ano de uma contração devastadora.

Essa depressão duradoura, juntamente com os cortes feitos pelo governo, levou grande parte da infraestrutura do país a um estado de negligência.

 Como a inflação descontrolada derreteu a moeda do país, o bolívar, praticamente sem valor, dólares, euros, ouro e as moedas de três países vizinhos começaram a circular em diferentes partes da Venezuela. O escambo é galopante.

“Cada lugar sobrevive à sua maneira, da melhor forma possível”, disse Armando Chacín, chefe da federação de produtores rurais da Venezuela. “São economias completamente diferentes.”

Fora de Caracas, cidadãos do que já foi o país mais rico da América Latina podem ser relegados a sobreviver em condições quase pré-industriais.

Cerca de metade dos moradores das sete principais cidades da Venezuela estão expostos a apagões diários e três quartos passam sem um abastecimento confiável de água potável, segundo pesquisa realizada em setembro pelo Observatório de Serviços Públicos da Venezuela,  organização sem fins lucrativos.

Em Parmana, as inundações no ano passado levaram embora a única estrada fora da cidade, deixando a vila sem entregas regulares de alimentos, combustível para a usina de energia e gasolina. Para sobreviver, os 450 residentes remanescentes decidiram limpar os campos com facões, remar seus barcos de pesca e usar os grãos que cultivam como moeda.

Após décadas de esbanjamento do petróleo, o governo da Venezuela está ficando sem dinheiro. O produto interno bruto do país encolheu 73% desde que Maduro assumiu o cargo em 2013 – um dos maiores declínios da história global moderna, segundo estimativas do Congresso controlado pela oposição, com base em estatísticas e dados oficiais do Fundo Monetário Internacional.

Incapaz de pagar salários compatíveis a milhões de funcionários públicos, o governo ignorou a situação, recorrendo à corrupção, influência sobre o tráfico de pessoas e a empresas secundárias para sobreviver.

Em Caracas, o setor privado – criticado por anos sob o governo socialista de Maduro e seu popular antecessor, Hugo Chávez – foi autorizado a preencher algumas das lacunas nos produtos de consumo deixadas pelas importações em declínio por parte do governo.

Como os antes sacrossantos controles econômicos desapareceram da noite para o dia, a capital se encheu de centenas de novas lojas e showrooms, oferecendo tudo, desde carros esportivos importados a petiscos  fabricados nos EUA.

E o ônus do colapso do país caiu em grande parte sobre as províncias da Venezuela, onde muitos moradores foram efetivamente isolados do governo central.

O colapso do Estado venezuelano segue seu curso em Parmana, antes uma grande e próspera vila de pescadores e agricultores nas planícies centrais da Venezuela. Por falta de pagamento, a unidade local da polícia local fez as malas e partiu num dia de 2018, seguida pelos funcionários públicos que dirigiam programas sociais. Logo depois, os moradores expulsaram o destacamento da Guarda Nacional da vila por embriaguez e extorsão.

Pedido de socorro aos guerrilheiros

Para substituir os guardas, os líderes da aldeia decidiram viajar para a mina de ouro mais próxima, controlada por guerrilheiros colombianos para pedir que montassem um posto em Parmana. Nos últimos quatro anos, para proteger suas linhas de suprimentos, os guerrilheiros acabaram com os piratas do rio que haviam aterrorizado os pescadores de Parmana, roubando seus barcos a motor e matando várias pessoas.

“Precisamos de autoridade aqui”, disse Gustavo Ledezma, dono de uma loja e delegado da comunidade. Os guerrilheiros “trazem ordem”, disse. “Eles não brincam em serviço.”

A decadência de Parmana à subsistência sem lei é uma queda drástica em relação aos dias de glória da exportação de arroz, feijão e algodão. As zonas úmidas e as nascentes da cidade atraíam multidões de turistas todos os anos. “Parmana, Parmana, como é bonito acordar com você”, reproduzia a música do lendário intérprete da Venezuela, Simon Díaz.

O presidente Hugo Chávez, que morreu em 2013, vira no potencial agrícola da região o futuro da economia venezuelana. Uma década atrás, ele gastou pelo menos US$ 1 bilhão na construção de uma ponte sobre o Rio Orinoco para conectar a região ao mercado brasileiro.

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A ponte, inacabada, agora está abandonada. As nascentes de Parmana secaram depois que um proprietário de terras com conexões políticas desviou a água para seus campos de algodão em 2013, destruindo a indústria do turismo.

Agora, nas empoeiradas ruas da vila, pescadores desesperados param os motoristas ocasionais, buscando gasolina para os motores de seus barcos. Uma família de agricultores estava sentada ao lado de uma pilha de melancias.

Eles tentaram enviar uma mensagem telefônica a um atacadista para buscar a colheita, mas fazia duas semanas que não havia sinal do celular  e não sabiam se ele viria, nem quando. “Temos de depender uns dos outros agora, não do governo”, disse Ana Rengifo, líder do conselho comunitário. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO 

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