Internet vira arma do governo da China

Crise no Tibete mostra como rede pode ser usada para propaganda

Cláudia Trevisan, PEQUIM, O Estadao de S.Paulo

21 de abril de 2008 | 00h00

Vista por muitos acadêmicos e políticos ocidentais como a ferramenta que iria conduzir os chineses na direção da democracia, a internet mostrou uma outra face no recente confronto entre Pequim e o Ocidente em torno da situação no Tibete: a de um poderoso instrumento de propaganda a serviço do governo, que usa a censura e a disseminação de informações na rede para despertar sentimentos de patriotismo e conduzir a opinião pública na direção que lhe interessa.A China vive o paradoxo de ser um país autoritário que abraçou com fervor a internet. O governo investiu bilhões de dólares na criação da infra-estrutura necessária para funcionamento da rede e promove ativamente a sua expansão. Segundo estimativa da empresa de consultoria BDA, a China acaba de ultrapassar os EUA, assumindo a liderança mundial no ranking de número de internautas, com 220 milhões de pessoas conectadas. A BDA estima que serão 490 milhões em 2012.Ao mesmo tempo, o governo construiu o mais sofisticado mecanismo do mundo para o controle da informação que circula online. O sistema bloqueia o acesso a milhares de sites por meio do uso de palavras-chave relacionadas a temas proibidos - um enorme universo que inclui "eleições livres", "independência do Tibete", "independência de Taiwan" e "Falun Gong", a seita que foi banida no país nos anos 90 depois que 10 mil seguidores fizeram uma demonstração pacífica em torno do quartel-general dos governantes chineses. Mas não são apenas sites que são bloqueados. A censura também funciona em chats, blogs e até em e-mails. Pequim utiliza um exército de cerca de 30 mil a 40 mil censores, que monitoraram as discussões online. Além disso, o controle do governo é facilitado pela autocensura praticada por sites de busca e provedores de serviços online. A China tem cerca de 60 milhões de blogs. "As autoridades chinesas se adaptaram à nova mídia e sabem utilizá-la a seu favor", afirma Eric Sautede, um acadêmico que há anos estuda a expansão da internet no país. "O governo não apenas censura conteúdo, mas coloca na rede uma enorme quantidade de informações que influenciam a opinião dos internautas."Duncan Clark, presidente da BDA, discorda da avaliação de que a rede de computadores levará a reformas democratizantes na China. "A internet é uma tecnologia neutra, sem um sistema de valores, e cada um a utiliza como quer. Se existisse na Alemanha dos anos 30, o site número 1 seria www.nazi.gov."

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