Interrogador ameaçou matar filho de preso, diz relatório

Interrogadores da CIA ameaçaram matar os filhos de um detido no auge da guerra ao terror do governo de George W. Bush e sugeriram que a mãe de outro seria estuprada, segundo documentos sigilosos de 2004 divulgados ontem, quando o Departamento de Justiça dos EUA iniciou uma investigação criminal sobre as práticas "não autorizadas, improvisadas e desumanas" da agência de espionagem.Segundo os documentos divulgados pelo corregedor da CIA, os interrogadores foram longe demais - além até mesmo do que estava autorizado por memorandos do Departamento de Justiça que, de lá para cá, foram invalidados. "Daqui a dez anos estaremos lamentando isso, (mas) tem de ser feito", disse um agente não identificado no relatório, prevendo que os interrogadores algum dia teriam de comparecer aos tribunais para responder pelas torturas.Os documentos são os mais abrangentes liberados até agora sobre o sistema antes secreto do governo Bush de capturar suspeitos de terrorismo e interrogá-los em prisões no exterior.Num caso, o suspeito Abd al-Nashiri, o suposto arquiteto do atentado a bomba contra o navio USS Cole em 2000, no Iêmen, foi encapuzado, algemado e ameaçado com um revólver e uma furadeira. O interrogador também ameaçou a mãe de Nashiri, insinuando que ela poderia ser estuprada na frente dele. Em outro caso, um interrogador apertou a artéria carótida do detido até ele começar a desmaiar, depois o chacoalhou para ele acordar. "Se algo mais acontecer aos EUA, mataremos seus filhos", disse um interrogador a Khalid Sheik Mohamed, mentor dos atentados do 11 de Setembro. Para os investigadores, o programa de detenção e interrogatório foi bem sucedido em identificar conspirações terroristas e desenvolver estratégias de inteligência: "A esse respeito, não há dúvida de que o programa foi eficaz." Mas, de acordo com o relatório, não está claro se as chamadas "táticas avançadas de interrogatório" contribuíram para esse sucesso. O porta-voz da Casa Branca, Robert Gibbs, disse ontem que os interrogadores da CIA não serão processados se tiverem agido dentro das diretrizes legais da época. Mas, segundo o relatório, agentes haviam usado "técnicas não autorizadas". O diretor da CIA, Leon Panetta, disse ontem que pretende "defender os agentes que fizeram o que seu país pediu e seguiram a diretriz legal que haviam recebido". Ele reconheceu que alguns agentes foram punidos por ter ido além dos métodos aprovados pelo Departamento de Justiça da era Bush.

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