Interrogatório no mar, uma nova era com velhos hábitos

O governo de Barack Obama prendeu e está interrogando no mar o mais recente prisioneiro da guerra contra o terror empreendida pelos militares americanos, voltando a adotar uma prática que era comum nos tempos de George W. Bush.

CAROL ROSENBERG, THE MIAMI HERALD, O Estado de S.Paulo

10 de outubro de 2013 | 02h12

O chamado taleban americano, John Walker Lindt, o prisioneiro militar número 1, foi mantido a bordo do navio de assalto anfíbio USS Peleliu, em 2001, e no USS Bataan até 22 de janeiro de 2002, enquanto o governo Bush decidia o que fazer com o jovem de 20 anos nascido na Califórnia. No fim, Lindt foi levado a um tribunal federal para responder a processo e, graças a um acordo no qual se declarou culpado, ficará preso até 2019.

Outro detido que permaneceu a bordo de um navio é David Hicks, australiano levado para Guantánamo no dia em que a prisão foi aberta, como preso número 2. Segundo um relatório da inteligência militar americana, datado de 17 de setembro de 2004, Hicks, capturado no Afeganistão, "foi entregue às forças americanas e encarcerado no USS Pettiloo".

O comandante da prisão de Guantánamo, general Jay Hood, assina o documento e, como Hood era um soldado e não um marinheiro, pronunciou o nome do navio incorretamente. Era o Peleliu, segundo a jornalista Leigh Sales escreve em seu livro Detainee 002: The Case of David Hicks.

Levou cerca de dois anos para que o australiano pudesse contar com um advogado, que o ajudou a declarar-se culpado em troca de sua libertação, em 2007.

A ONG Reprieve, formada por advogados que atuam em Londres, investigou a prática de interrogar presos a bordo de navios em um relatório de 2008, no qual identificou o USS Peleliu e o USS Bataan como locais usados para essa finalidade. A ONG considera esses navios "prisões flutuantes" e afirmou que se trata de uma prática ilegal.

Aparentemente o governo Obama não concorda, mas adotou a mesma estratégia há dois anos, depois que militares americanos capturaram o somali Ahmed Abdulkadr Warsame, no Golfo de Áden. Ele foi interrogado por dois meses no mar e, posteriormente, transferido para Nova York, onde foi finalmente informado dos seus direitos.

Agora, de acordo com algumas informações, o líbio Nazih Abdul-Hamed al-Ruqai, de 49 anos, está sendo interrogado a bordo do USS San Antonio em algum ponto do Mar Mediterrâneo. Ele foi capturado pelas Forças Especiais americanas no sábado, em Trípoli, na Líbia.

O somali é conhecido como Abu Anas al-Libi e consta da lista dos terroristas mais procurados pelo FBI. Ele já foi indiciado em Nova York por suposto envolvimento nos atentados de 7 de agosto de 1998 contra as embaixadas americanas em Dar Es-Salaam, na Tanzânia, e em Nairóbi, Quênia.

Se tudo se desenrolar como no caso de Warsame, o líbio só chegará a Nova York para o processo em aproximadamente dois meses. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

* É JORNALISTA

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