Intervenção estrangeira deve reforçar opositores e impor 'libanização' à Síria

Ainda que limitados, bombardeios americanos podem mudar o curso da guerra civil na Síria, rompendo o atual impasse e movendo a balança em favor dos rebeldes. Com isso, Bashar Assad e a elite alauita a seu redor decidirão finalmente negociar para valer uma saída política para o conflito.

LOURIVAL SANTANNA , ENVIADO ESPECIAL / BEIRUTE, O Estado de S.Paulo

08 Setembro 2013 | 02h11

A Síria caminhará para um arranjo parecido com o libanês, com o poder distribuído pelos diversos grupos sectários e étnicos, proporcionalmente à população. E será instável, como todo o Crescente Fértil - Iraque, Síria, Líbano, Palestina e Jordânia -, quando não está sob regimes autoritários.

Esse é um resumo das análises de três especialistas libaneses em Síria, ouvidos pelo Estado. Todos concordam que, até aqui, os EUA não tiveram interesse na queda do regime de Assad, porque ele estava desbastando células da Al-Qaeda que acudiram para essa jihad na Síria. "Os americanos querem que Assad faça o que eles não conseguiram no Afeganistão e no Iraque: dizimar os jihadistas", afirma Elias Hanna, general da reserva e professor de geopolítica. "A propósito, Assad tem feito um bom trabalho", ironiza Hilal Khashan, professor da Universidade Americana de Beirute (AUB).

A Rússia também tem tido razões para não apressar o fim do conflito. A luta contra o regime sírio tem atraído combatentes islâmicos da Brigada do Cáucaso, que usam a Turquia como passagem, com aquiescência do governo islâmico turco, que também estaria trazendo combatentes do Iêmen, em voos da Turkish Airlines de Áden. Terminada a guerra civil, os sobreviventes voltarão para a luta contra a Rússia, revigorados pela experiência em combate e pelas armas compradas com dinheiro de famílias ricas da Península Arábica.

A narrativa segundo a qual os EUA e a União Europeia não forneceram armas ao Exército Sírio Livre (ESL) por receio de elas caírem nas mãos das células ligadas à Al-Qaeda não faz sentido, analisa Fadi Ahmar, professor de geopolítica síria na Universidade de Kaslik, em Jounieh, na costa libanesa: "O ESL tem uma hierarquia militar, é muito mais forte e organizado do que as células islâmicas." Ele acredita que os EUA deixaram a guerra arrastar-se até aqui, exaurindo tanto o regime quanto os insurgentes, para enfraquecer a Síria como país, que desde os anos 50 contraria sistematicamente os interesses americanos na região.

Essa é uma política que não pode durar indefinidamente, pelo seu alto custo humano, e o uso das armas químicas, combinado à ultrapassagem dos 100 mil mortos, dará início a uma nova fase, com a esperada intervenção americana. Nela, os EUA preservarão os dois interesses vitais da Rússia na região. O mais imediato não entra em conflito com os interesses americanos: manter a base naval em Tartus - a única da Rússia fora da antiga União Soviética - e a influência russa na região. "Os EUA têm bases no mundo inteiro", observa Khashan. "Isso não faz diferença para eles." O outro é a contenção do jihadismo, que coincide com os interesses americanos.

Os três analistas concordam que a Síria não é o que está em disputa entre as duas potências. "Não há nenhum imperativo estratégico para os EUA na Síria", afirma Hanna. "A Síria é o teatro no qual a Rússia fez o seu comeback (retorno) político", diz Khashan. As questões pelas quais EUA e Rússia realmente estão medindo forças têm peso global, como a expansão da Otan (aliança entre EUA, Europa Ocidental e Turquia) rumo ao Leste Europeu; o escudo antimísseis que os americanos preparam para esse antigo quintal russo; e a construção de um gasoduto da Ásia Central para a Europa, cortando a Turquia, como alternativa ao russo, que impõe à União Europeia uma dependência energética frente à Rússia.

O ataque americano deverá tirar o regime sírio da posição "recalcitrante" ao diálogo assumida por Assad, antevê Khashan. A minoria alauita, que controla as Forças Armadas, luta neste momento pela própria sobrevivência. A continuidade de seu apoio a Assad é explicada pela capacidade dele de manter essa minoria unida, explica Hanna.

Do lado dos insurgentes, uma vitória sobre o regime não representaria o fim da guerra, garante Ahmar: a oposição, fragmentada em linhas ideológicas, religiosas e étnicas, continuaria lutando entre si, de forma muito mais feroz do que na Líbia.

Diante da fragmentação potencial de ambos os lados, após os bombardeios americanos e consequente enfraquecimento do regime frente aos rebeldes, não haverá condições para um arranjo político que envolva um governo forte, preveem os analistas. Na melhor das hipóteses, a Síria se tornará um grande Líbano.

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