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Gilles Lapouge
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Intervenção francesa

A França debate a intervenção francesa no Iraque. É uma boa ideia. Numa democracia, é legítimo que o Executivo não envolva seu Exército numa guerra sem prévia anuência do Legislativo (na França, a Câmara é a Assembleia Nacional). Mas é o caso deplorar que esse debate pelos deputados se faça quando a França já está bombardeando posições jihadistas do Estado Islâmico (EI) no norte do Iraque. Em outras palavras, o presidente François Hollande primeiro entra na guerra para depois consultar seus deputados. Uma inversão.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2014 | 02h01

A história recente nos ensina que as operações de manutenção da ordem num país estrangeiro, mesmo se forem benignas, passam rapidamente por uma "mutação" (como os vírus) e provocam guerras enormes.

Na Argélia, a França primeiro despachou alguns soldados antes de se ver atolada num conflito pavoroso que deu origem, em 1962, a uma novo Estado. No Vietnã e no Afeganistão, os americanos conheceram desastres sangrentos. No Iraque, o Ocidente, sob a liderança americana, começa agora sua terceira guerra em menos de 25 anos: em 1990, durante a presidência de George H. Bush, em 2003, instigada pelo infeliz George W. Bush, em 2014, sob a chefia do presidente "pacifista" Barack Obama.

É sabido como terminaram as epopeias no Vietnã, no Afeganistão e no Iraque. Isso não significa que se deva assistir à ignomínia dos jihadistas sem reagir. Mas exige que se reflita bem sobre as dimensões da aventura. Tanto para Obama como para Hollande, não haverá tropas de seus países no terreno. Excelente. Mas qualquer general ou soldado sabe que não se entra numa guerra somente com aviões.

Outra promessa: Hollande, após ter adotado ao menos uma voz solene, informou que a França atacará jihadistas no Iraque, mas jamais na Síria. Mas, 48 horas mais tarde, o chanceler francês, Laurent Fabius, deu a entender que a posição de Paris, neste ponto, estava evoluindo. Não é de estranhar: o EI estende sua empreitada tanto sobre a Síria quanto sobre o Iraque. Seus combatentes não reconhecem fronteiras. Eles saltam do Iraque para a Síria e da Síria para o Iraque. Como se abster de atacar na Síria?

Se atacarmos o EI na Síria, enfiaremos a mão num outro ninho de escorpiões, pois atacaremos o inimigo desse outro inimigo que é o chefe de Estado sírio, Bashar Assad. Sairíamos em socorro desse Assad que todo o Ocidente busca, legitimamente, destronar há três anos. Meu Deus, quem nos ajudará a desfazer essa confusão?

Outro sinal da ampliação do conflito: as primeiras incursões americanas contra o EI na Síria tiveram a participação de cinco países árabes - Arábia Saudita, Bahrein, Jordânia, Emirados Árabes Unidos e Catar. São países que no passado tiveram uma atitude dúbia pois manobraram e possivelmente sustentaram as fileiras dos radicais islâmicos.

Além disso, esses cinco países do Golfo são sunitas, como são as legiões do Estado Islâmico. Portanto, ter conseguido mobilizar esses países sunitas na coalizão montada contra os sunitas do EI foi uma proeza e uma brilhante façanha da coalizão de Obama. No entanto, ao mesmo tempo, a entrada desses países árabes nos combates atesta que estamos longe de uma pequena operação policial e à beira de uma guerra possivelmente devastadora. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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