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Issa Goraieb
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Intervenção russa

Os russos estão chegando! No Líbano, assim como nos outros países do Oriente Médio, foi recebido com forte emoção o anúncio de um espetacular aumento do apoio militar da Rússia ao regime do presidente da Síria, Bashar Assad. A decisão arriscada, ao mesmo tempo lógica e temerária, do Kremlin, muda sensivelmente o equilíbrio de forças no confronto que ocorre neste país em chamas.

Issa Goraieb, O Estado de S. Paulo

28 Setembro 2015 | 03h00

Uma decisão lógica, inicialmente. A Rússia, que tem em sua fronteira uma série de repúblicas muçulmanas, e já se viu obrigada a intervir na Chechênia, está sinceramente apavorada com a progressão contínua do radicalismo islâmico na Síria e no Iraque, problema que colocou no topo de suas prioridades. Não sem razão, os russos enfatizam a ineficácia dos ataques ocidentais contra os efetivos e as instalações do Estado Islâmico, e apelam para a criação de uma coalizão internacional contra o grupo, que inclua tanto o regime de Assad quanto o Irã. Os argumentos começam a encontrar respaldo no Ocidente, a julgar pela declaração da chanceler alemã, Angela Merkel, que admitiu a necessidade de negociar também com Assad.

Por outro lado, Moscou é obrigada a agir, e mesmo a dobrar sua aposta, explorando a hesitação demonstrada pelos EUA. Latakia é praticamente o único porto desse lado do mundo no qual a Marinha russa dispõe de instalações, na esperança de conseguir uma base naval completa. Mais do que nunca, esta vantagem depende da sobrevida do regime de Damasco. Desde a deposição do ditador líbio, Muamar Kadafi, Vladimir Putin rejeita sistematicamente todo projeto de solução política na Síria que determine a saída de Assad. Além de equipamentos bélicos sofisticados, de centenas de militares russos já se encontram no terreno, e é precisamente aí que os acontecimentos poderão tonar um rumo ainda mais grave.

Seria muito prematuro falar de uma reedição do lodaçal afegão; mas não há como se equivocar, neste momento, quanto ao efeito desastroso que teria, para a população russa, uma eventual série de caixões partindo da Síria. Por outro lado, se a Rússia tiver de participar dos combates, seu prestígio ficará consideravelmente prejudicado no mundo árabe-muçulmano, de grande maioria sunita, pois seria acusada de favorecer a minoria alauita à qual pertence Assad.

Ao contrário, Moscou acaba de marcar um ponto importante concordando com Israel, um estreito aliado dos EUA, quanto à necessidade de uma forma de coordenação diante dos extremistas islâmicos da Síria. Numa visita recente a Moscou, o premiê Binyamin Netanyahu indicou que tal medida, que seria concretizada pelo Estado-Maior de ambos os países, visa evitar todo e qualquer acidente. O fato é que o tráfego aéreo é intenso no céu da Síria, onde se cruzam os caças do regime Assad e da coalizão contra o EI, mas às vezes também os do Estado de Israel. Mas, diferentemente dos outros protagonistas, Israel não se limita a atacar os radicais islâmicos quando estes lançam foguetes sobre as Colinas do Golan, mas ataca também os comboios de armamentos sírios destinados ao Hezbollah libanês.

Esta dupla atividade não tem evitado de maneira absoluta um arranjo russo-israelense que não deixa de ser provocador. No que diz respeito ao problema do EI, Netanyahu se encontra formalmente integrado num plano que persegue os mesmos objetivos do Irã e do Hezbollah. Já está decidido. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

ISSA GORAIEB É COLUNISTA DO 'ESTADO' E DIRETOR DO JORNAL DE BEIRUTE 'L'ORIENT-LE JOUR'

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