'Intervir na Síria ou armar a oposição não resolverá crise'

O brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro, que lidera as investigações sobre as violações a direitos humanos na Síria, alerta que armar os rebeldes ou promover uma invasão estrangeira na Síria fará explodir uma guerra regional, com milhares de mortes. Ele insiste que, um ano depois do início da repressão, apenas uma saída negociada resolverá a crise síria.

Entrevista com

JAMIL CHADE , CORRESPONDENTE / GENEBRA , O Estado de S.Paulo

13 de março de 2012 | 03h06

Ontem, o diplomata apresentou seu relatório ao Conselho de Direitos Humanos da ONU (CDH), no qual diz que o governo sírio está promovendo uma punição coletiva contra a população. Em entrevista ao Estado, Pinheiro insistiu no risco que seria repetir na Síria a mesma estratégia da Líbia e destacou que as apostas devem ser concentradas no trabalho do mediador Kofi Annan. A seguir, trechos da entrevista:

Na sua avaliação, qual deve ser a solução para o conflito sírio, um ano depois do início da repressão?

Não há nenhuma chance de uma solução militar ser a resposta. A solução para o conflito é um acordo negociado, com a participação do governo, dos grupos armados e a oposição. Não há outra saída. Uma militarização do conflito será algo extremamente desastroso. É claro que a Síria está em uma situação geopolítica delicada. É um erro profundo tentar transpor a situação da Líbia para a Síria. A Líbia era um país periférico e com população concentrada nas cidades. Além disso, sem o peso que a Síria tem para o mundo árabe. Meu recado central é um só: a violência precisa parar. Incentivar a militarização e armar rebeldes não funcionará. O ciclo da violência precisa ser rompido para evitar uma guerra civil.

Qual é sua avaliação da visita de Annan a Damasco?

Ainda é muito cedo para dizer. Foram só duas conversas. Acho que seria inaceitável julgar a missão dele neste momento. Temos de ser pacientes nas negociações. É cedo para dizer que seu trabalho na Síria acabou. A realidade é que não há alternativa ao diálogo.

Entendemos a situação das vítimas. Mas pensamos que a outra opção teria consequências catastróficas. Não falaríamos em centenas de mortos, mas em milhares. Não vamos brincar com isso. Será muito difícil a saída negociada. Mas não será a primeira crise solucionada com uma mediação.

Qual sua avaliação sobre o estado atual do conflito?

Falamos em uma punição coletiva da população pelo governo. O que sabemos é que a intensificação do confronto armado aumentou o sofrimento. A situação humanitária é cada vez pior. Em Baba Amr, vemos que os ataques deixaram um rastro de morte, miséria e destruição. Os que saíram ainda nos falam sobre execuções sumárias. O governo deu algum acesso a agências humanitárias. Mas perdemos muito tempo e muita gente poderia ter sido salva. O acesso precisa ser garantido.

O que ocorrerá com a lista que o senhor fez de responsáveis sírios envolvidos nos massacres?

Quando houver uma decisão e um órgão competente, a lista que fizemos das pessoas envolvidas será entregue. Só existem duas cópias dessa lista, que estão com a ONU. Foram colocadas numa pasta, com dois códigos diferentes e só podem ser abertas se ambos estiverem corretos.

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