Intrigas palacianas em Pyongyang

O 'trono' não é incontestável; Kim Jong-un tenta se afastar da imagem do pai, repudiado pela elite de seu país

É MEMBRO DO AMERICAN ENTERPRISE INSTITUTE, NICHOLAS, EBERSTADT, THE NEW YORK TIMES, É MEMBRO DO AMERICAN ENTERPRISE INSTITUTE, NICHOLAS, EBERSTADT, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2013 | 02h02

A política arriscada empreendida por Pyongyang é um sinal de fraqueza, não de força. Os problemas atuais do regime norte-coreano são, em grande parte, obra de Kim Jong-il, que morreu há um ano e meio.

Ele não foi apenas um governante péssimo, mas também nefasto. Foi o cérebro por trás do fracasso monumental da economia da Coreia do Norte que, sob sua vigilância, registrou o pior desempenho de qualquer Estado industrializado.

Ele foi também o arquiteto da única situação de fome em tempo de paz a atingir uma sociedade urbana e alfabetizada.

Muitas das vítimas desse desastre foram designadas oficialmente membros das "classes hostis" - ou inimigos do Estado -, de maneira que o regime não lamentou as mortes.

Mais do que Stalin ou Mao, em sua busca do poder absoluto, Kim Jong-il destruiu o aparelho de Estado. Não menos atroz para um governante dinástico, também falhou na sua sucessão.

Ele próprio foi preparado para o comando durante quase um quarto de século antes da morte do seu pai, o "grande líder" Kim Il-sung. Mas não se preocupou em nomear um herdeiro até ficar incapacitado por um acidente vascular cerebral em 2008. Seu escolhido, o filho Kim Jong-un, foi posto às pressas no poder em 2010, antes da morte do pai.

Não é surpresa, portanto, o fato de Kim Jong-il ser universalmente (ou talvez secretamente) repudiado pelas elites da Coreia do Norte, que o acusam de deixar como legado uma nação arruinada. Kim Jong-un, o filho, quase admitiu isso em julho, durante um discurso no Partido dos Trabalhadores da Coreia, afirmando que as autoridades do país ainda tinham "um fraco entendimento" do patriotismo do pai.

A semelhança física de Kim Jong-un com Kim Il-sung pode ajudá-lo a se distanciar do legado direto deixado por seu pai, mas ele não conseguirá resolver os problemas que herdou simplesmente imitando o estilo de oratória apaixonado do avô.

O trono não é exatamente incontestado. Ele tem dois irmãos e o mais velho, Kim Jong-nam, denunciou publicamente a última transferência de poder.

O anúncio feito por ele no ano passado de que se casara e o fato de sua mulher estar grávida podem ser vistos em parte como uma apólice de seguro de vida.

Existe ainda a questão de assegurar o próprio Estado, o que já provocou algumas mudanças nos escalões mais altos. Três dos sete homens que acompanharam Kim Jong-un no carro fúnebre de Kim Jong-il durante seu funeral foram atingidos desde então por enfermidades políticas: rebaixamento, eclipse e morte.

Esses fatos provariam que o partido está retomando seu controle sobre o Exército e os órgãos de segurança do Estado.

A Coreia do Norte tem objetivos internacionais na propagação de sua crise. Mas a demonstração de poder nuclear de Pyongyang tem como objetivo também fortalecer internamente a autoridade do jovem líder. A mídia estatal norte-coreana saiu do seu padrão para referir-se a Kim como "querido e respeitado líder". Diante da lógica orwelliana da propaganda de Pyongyang, isso poderia ser um indício forte de que o rei menino não é nem querido e nem respeitado em seu próprio país.

Essa é exatamente a razão pela qual os governos ocidentais devem refrear seu impulso de estabelecer negociações de alto nível com Pyongyang.

Qualquer ostentação diplomática inevitavelmente será alardeada na Coreia do Norte como uma concessão feita pelo seus inimigos externos. Ele não deve receber esse presente.

Deixar que Pyongyang saiba que suas provocações só lhe trarão prejuízos pode ajudar a mudar os cálculos do regime. E desencorajar a Coreia do Norte a recorrer à chantagem militar internacional, hoje e no futuro. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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