Presidência da Turquia / AP
Presidência da Turquia / AP

Intromissão internacional no conflito líbio

A Turquia se aproxima do governo de Trípoli, enquanto a Rússia apoia um general rebelde, em uma repetição do antagonismo registrado na Síria

The Economist, O Estado de S.Paulo

16 de dezembro de 2019 | 03h00

Os ferimentos dos milicianos líbios que defendem o frágil Governo de União Nacional (GNA, na sigla em inglês) de Trípoli estão mudando, juntamente com a batalha que eles travam. Os estilhaços costumavam ser a causa da maioria das mortes na capital da Líbia

Mas, ultimamente, os mortos apresentam marcas de tiros na cabeça, diz um diplomata estrangeiro. Do outro lado da luta, franco-atiradores russos se uniram ao autoproclamado Exército Nacional da Líbia (LNA), liderado pelo general Khalifa Haftar, que cerca Trípoli desde abril, na esperança de desalojar o governo. As linhas de frente estão se movendo pela primeira vez em meses.

Países como Egito e Emirados Árabes há muito apoiam Haftar com armas e dinheiro. Mas o apoio da Rússia é um divisor de águas, dizem os diplomatas. Moscou ajudou Haftar a consolidar seu domínio no leste e no sul, onde está a maioria dos campos de petróleo, e pode mudar o equilíbrio das forças em Trípoli. Contudo, a presença russa também pode atrair outras potências globais. Os EUA acusaram a Rússia e seus aliados de abaterem um de seus drones em novembro. O presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, diz que pode enviar tropas para defender o GNA, se for solicitado.

A intervenção da Rússia veio na forma de mercenários do Wagner Group, empresa de segurança privada com conexões com o Kremlin. Moscou nega envolvimento na Líbia, mas autoridades ocidentais dizem que o Wagner Group está entrando com armas, tanques e drones há quase um ano. Calcula-se que 1.400 mercenários russos estejam no país. “É como se um treinador da primeira divisão fosse treinar um time amador”, diz um diplomata, que considera a empresa um braço não oficial do governo russo.

O presidente Vladimir Putin está tentando aproveitar seu sucesso na Síria, onde resgatou o regime de Bashar Assad e conquistou uma posição no Mediterrâneo. A costa da Líbia tem 1.770 km e fica logo do outro lado da Europa. O Wagner Group já protege a maioria das instalações de petróleo sob o controle de Haftar. Isso lhe confere um poder estratégico sobre a Europa, que consome petróleo bruto da Líbia.

A Turquia tem laços comerciais com o GNA e se opõe à agenda anti-islâmica de Haftar e seus aliados estrangeiros. Mas seu interesse na Líbia também tem relação com energia. Em novembro, Erdogan assinou um acordo com o GNA demarcando as fronteiras marítimas entre as zonas econômicas exclusivas dos dois países. Grécia, Chipre e Egito veem o movimento como uma tentativa da Turquia de obter o controle das águas ricas em gás. O acordo foi acompanhado por outro, que visa fortalecer o GNA, que já recebe armamentos da Turquia.

Os aliados estrangeiros de Haftar dizem que darão mais apoio a ele se a Turquia aumentar a pressão. Em um esforço para diminuir as tensões, Erdogan disse que quer falar com Putin antes que o presidente russo visite a Turquia, em janeiro. “Quanto à questão de Haftar, não quero que ela crie uma nova Síria nas relações com a Rússia. Acredito que a Rússia também vai repensar sua posição atual sobre Haftar”, disse Erdogan. “Ele é um fora da lei e, pelo mesmo motivo, qualquer apoio a ele deve ser considerado ilegal.”

A interferência estrangeira ignora o embargo de armas imposto pela ONU, em 2011, bem como seus esforços para intermediar um acordo de paz. Os planos para uma conferência internacional em Berlim foram adiados várias vezes. O GNA é cada vez mais visto como refém de suas milícias aliadas. O Banco Central, em Trípoli, mantém controle sobre as receitas de petróleo, mas Haftar pode renovar sua tentativa de reconhecimento internacional e começar a vender o produto.

Observadores não acreditam que a queda de Trípoli seja iminente. Em uma ofensiva recente, as forças de Haftar avançaram cerca de 1 km e depois pararam. Ainda assim, os defensores da cidade receberiam de braços abertos as tropas turcas e algum poderio aéreo. “Muitas pessoas no front estão ficando cansadas”, diz um miliciano em Trípoli. “Foram oito meses de luta e elas querem voltar para casa.”

Enquanto isso, os moradores da capital sentem o cerco se fechando. As mortes de civis estão subindo. As ruas estão lotadas de pessoas que fogem dos combates. Haftar, que controla o fornecimento de energia e água da cidade, pode piorar a situação. Se ele vai ou não fazer isso, depende dos cálculos de seus aliados estrangeiros. / Tradução de Renato Prelorentzou

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