Estadão / Rodrigo Cavalheiro
Estadão / Rodrigo Cavalheiro

Inundações não abalam kirchnerismo

Oposição acusa Scioli de não ter feito obras hídricas, tática ineficaz segundo analistas; vítimas culpam natureza e mantêm voto no governo

RODRIGO CAVALHEIRO, CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S. Paulo

23 de agosto de 2015 | 02h00

BUENOS AIRES - Dez dias de chuva transformaram ruas de 40 cidades da província mais povoada da Argentina em canais. A água expulsou 6 mil argentinos de casa, outros 10 mil foram atingidos. Gabriel Markus, pintor de paredes na turística San Antonio de Areco, a 120 quilômetros de Buenos Aires, tornou-se o mais conhecido deles. O instante em que secava lágrimas com o corpo encharcado correu o mundo depois de publicado no jornal La Nación

Numa região dominada pelo peronismo e governada há oito anos pelo candidato kirchnerista à presidência, Daniel Scioli, o desespero de milhares de pessoas como Markus deu esperança aos opositores para a eleição de 25 de outubro. O território de 13 milhões de habitantes concentra 37% dos votos do país. 

A cada entrevista, os rivais de Scioli têm se referido a um ex-piloto de lancha incompetente por não ter feito obras pluviais. A um político insensível que viajou para a Itália logo após ganhar a primeira etapa da eleição, a primária obrigatória, com 38,4% dos votos. A um trapalhão arrependido que passou menos de 9 horas em Roma e 26 nos voos de ida e volta de Buenos Aires. Uma tática ineficaz, segundo inundados e analistas.

Markus não é só o rosto da catástrofe. Sua trajetória de vida e seu modo de lidar com o recomeço resumem o perfil político das vítimas que agora voltam ao lar. Entre ele e seus vizinhos do bairro Canuglio, a perda de móveis, fotos, colchões, suvenires, roupas, eletrodomésticos, animais de estimação tem um responsável. A culpa é do homem, não de um homem.

“Ter perdido tudo não muda meu voto, de jeito nenhum. Vou no candidato da Cristina, seja o Scioli ou quem ela disser. Aliás, minha lista é toda de candidatos dela”, diz. “Se mudar o governo, estamos mortos. Estamos no forno”, acrescenta Markus, que chegou até a 7.ª série e lê com dificuldade – não só pelo nível de instrução, mas também pelos óculos de grau que achou, sem uma haste.

Na adolescência, ele morou na rua durante quatro de seus 53 anos para escapar da violência da mãe. “Nunca roubei e provei cocaína só uma vez. Não era pra mim.” Trabalhou como gari e carregador de caminhões, mas foi como garçom que se estabilizou e comprou seu primeiro brinquedo, aos 32 anos, um trem à pilha. 

Depois de vagar 20 anos em restaurantes da costa argentina e da Cordilheira dos Andes, a maior parte deles em Bariloche, retornou a Areco “para morrer na terra natal”. Sua volta teve relação com uma infecção no pulmão, que o deixou seis meses internado. Nada que o impeça de fumar, garante ele, que no hospital escondia o tabaco sob o travesseiro. Ultimamente, são dois maços por dia, o dobro do que consumia havia um mês.

Na cidade de 17 mil habitantes, cuja economia tem base na agropecuária, já enfrentou dois alagamentos – o anterior foi em novembro. Markus diz ter sido visitado três vezes pelo prefeito kirchnerista Paco Durañona, o mesmo que pediu aos moradores para não postarem fotos da inundação no Twitter para não prejudicar o turismo. “Ele se impressionou com a quantidade de coisas que já fiz. Respondi ‘me dá um bisturi e te opero’. Ele riu”, lembra.

Enquanto expõe seus argumentos pró-Cristina, Markus fuma depressa e bebe devagar o vinho de caixa que mistura a água mineral, obrigatória desde que a dos canos voltou com um gosto forte de cloro. O litro da marca Uvita custa 14 pesos (R$ 5), acessível para quem ganha 5 mil pesos (R$ 1887) por mês e tem poucas despesas. “Tomo para evitar a loucura”, diz o homem que perdeu 5 quilos e ganhou folga do chefe para receber as doações que não param de chegar. Ele pretende voltar ao trabalho amanhã.

Markus vive com a mulher, Susana Brun, de 54 anos, numa casa sem goteiras, com uma cozinha/sala, um quarto e um banheiro. Se apresenta como um tipo “meio obsessivo com limpeza”, que acorda com o despertador, às 6h30, e levanta-se às 6h35, depois de fumar na cama o primeiro cigarro. Sua rotina foi alterada no dia 6, quando apagou o cigarro, girou o corpo, sentou-se ao lado da cama e sentiu a água pela canela. “Comecei a jogar a roupa para os lugares mais altos e salvei alguma coisa. A geladeira, o fogão e os móveis estragaram. A água invade sua intimidade, suas lembranças”, pondera, levando a mão esquerda à cabeça e logo ao coração. 

“Se ocorrer de novo, vou embora. Não faço mais questão de morrer aqui”, afirma sério. Lembra que usou a cama e o armário como pontes para chegar à rua. Nos 5 dias que ficou com um irmão, voltou diariamente para ver o nível da água e alimentar seu canário, agora batizado “Nación”. “Olha o que recebi de comida”, diz, apontando um armário também doado, cheio de produtos. Para quem o visita, ele reserva doce de marmelo, queijo e mate.

Markus começou a receber ligações de apoio ou de ofertas depois que a filha, moradora de outra província, colocou o celular do pai no Facebook com a foto publicada no jornal argentino. Um jogador do time San Lorenzo, Sebastián Blanco, comprou uma geladeira, um fogão e uma máquina de lavar roupas e levou pessoalmente. Markus ganhou até um aquecedor elétrico, algo que nunca teve.

Ontem, preparou um leitão ao som de cumbia, ritmo que o jogador Carlos Tévez tornou conhecido no Brasil. Para comemorar “o fim do pesadelo” e recuperar parte dos 5 quilos que perdeu, convidou para o churrasco amigos e gente que acabou de conhecer. “Não esperava essa repercussão. Me telefonaram da Itália e do Canadá, mas dispenso essa fama. Não quero ser ídolo. Sabe o que quero ser? Um inundado a menos.”

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