Alessandro Grassani/The New York Times
Alessandro Grassani/The New York Times

Inundada de turistas, Veneza vai rastrear trajetos dos visitantes na ilha para conter covid

Prefeito da cidade está levando o controle de multidões a um novo nível, impulsionando soluções de alta tecnologia que alarmam até mesmo aqueles que há muito defendem uma Veneza para os venezianos

Emma Bubola / The New York Times, O Estado de S.Paulo

05 de outubro de 2021 | 16h46

VENEZA — Quando a pandemia de coronavírus espantou os visitantes de sua cidade, alguns venezianos ousaram sonhar com uma Veneza diferente — que pertencesse a eles tanto quanto aos turistas que lotam suas piazzas e becos de pedra, expulsando os habitantes locais até de seus apartamentos.  

Na cidade adormecida, a harmonia de seus 100 campanários, o murmurinho das águas de seus canais e o dialeto veneziano ressoaram subitamente como a trilha sonora dominante. Os cruzeiros que despejavam diariamente milhares de turistas e causavam ondas daninhas na cidade que afunda desapareceram — e depois foram banidos. 

Mas agora, o prefeito está levando o controle de multidões a um novo nível, impulsionando soluções de alta tecnologia que alarmam até mesmo aqueles que há muito defendem uma Veneza para os venezianos. 

As autoridades da cidade estão acessando dados de telefones celulares de turistas sem sua autorização e usando milhares de câmeras de segurança para monitorar visitantes e evitar aglomerações. No próximo verão, seu plano é instalar portões nos principais pontos de entrada da cidade, projeto que causa controvérsia há muito tempo; visitantes que vierem passar o dia terão de reservar sua entrada com antecedência e pagar uma taxa para entrar. Se pessoas demais quiserem entrar, algumas serão rejeitadas.   

O prefeito Luigi Brugnaro, conservador e favorável ao comércio, e seus aliados afirmam que seu objetivo é criar uma cidade melhor de se viver para os venezianos sitiados. “Ou somos pragmáticos ou vivemos num mundo de fantasia”, afirmou Paolo Bettio, diretor da Venis, a empresa que manipula tecnologias de informação para a cidade. 

Mas muitos residentes consideram distópico o plano de monitorar e controlar o movimento das pessoas — ou veem isso como um truque publicitário, uma maneira de atrair turistas mais ricos, que poderiam estar desmotivados a visitar a cidade por causa das multidões.     

“É como declarar de uma vez por todas que Veneza não é mais uma cidade, mas um museu”, afirmou Giorgio Santuzzo, de 58 anos, que trabalha como fotógrafo e artista na cidade. 

Segundo várias métricas, Veneza já é uma cidade morta. Muitos venezianos estão fartos de ter de ir à terra firme comprar roupas de baixo porque as lojas de suvenir que vendem muranos falsificados expulsaram os comércios que atendiam os habitantes locais. 

Eles estão cansados de turistas perguntando onde fica a Praça de São Pedro — que é em Roma — e de políticos ordenhando o dinheiro do turismo da cidade enquanto desprezam as necessidades de seus residentes. 

Ainda assim, afirmam muitos, soluções de alta tecnologia não trarão de volta uma Veneza mais autêntica. Em vez disso, eles temem que isso furtará a cidade do romantismo que ainda lhe resta. 

Em uma manhã recente de verão, um casal espanhol, Laura Iglesias e Josép Paino, estava claramente encantado com a cidade enquanto vagueava entre seus antigos  palazzos e sinuosos canais. Eles afirmaram que tinham viajado no tempo. “Veneza”, suspirou Iglesias, “é o lugar perfeito para se perder de si mesma”. Mas Veneza, por sua vez, não os perdeu de vista. 

Sobre as cabeças do casal, uma câmera de alta definição registrava sua imagem a 25 quadros por segundo. Um software acompanhava sua velocidade e trajetória. E em uma sala de controle a poucos quilômetros de lá, autoridades municipais examinavam os dados colhidos de seus celulares e dos aparelhos de telefone de praticamente todos os que estavam em Veneza naquele dia. O sistema é projetado para coletar dados como as idades das pessoas, sexo, país de origem e localizações anteriores. 

“Sabemos minuto a minuto quantas pessoas estão em visita e aonde elas estão indo”, afirmou Simone Venturini, o secretário de Turismo da cidade, enquanto observava as oito telas da sala de controle, que mostram imagens em tempo real da Praça de São Marcos. “Temos controle total da cidade.” 

Originalmente, câmeras de segurança que transmitem imagens em tempo real — juntamente com outras centenas localizadas em toda a cidade — foram instaladas para flagrar criminosos e barqueiros irresponsáveis. Mas agora elas passaram a vigiar os visitantes e funcionam como uma maneira de as autoridades localizarem aglomerações que pretendem dispersar. 

As autoridades afirmam que dados de localização de telefones celulares também as ajudarão a evitar os tipos de multidão que tornam uma luta diária atravessar as pontes mais famosas da cidade. Além disso, elas estão tentando descobrir quantos turistas vão a Veneza somente passar o dia — e gastam pouco na cidade. 

Uma vez que as autoridades estabeleçam esses padrões, os dados serão aplicados para orientar o uso dos portões e do sistema de reservas. Se multidões forem esperadas em dias específicos, o sistema sugerirá alternativas de itinerários ou datas para as viagens. E a taxa de entrada será ajustada para cobrar um valor maior, de até € 10 (ou cerca de R$ 63), nos dias que um trânsito maior de turistas for esperado. 

Autoridades municipais rejeitam críticos que se inquietam sobre invasão de privacidade, afirmando que todos os dados de telefones celulares são coletados anonimamente. A cidade está adquirindo as informações a partir de um contrato com a TIM, uma empresa de telefonia italiana, que, assim como muitas outras, está capitalizando sobre a crescente demanda de forças de segurança, firmas de marketing e outros ramos de atividade por dados. 

Na verdade, os dados dos venezianos também estão sendo coletados, mas as autoridades municipais afirmam que estão recebendo dados agregados e, por esse motivo, insistem, não são capazes de usá-los para vigiar indivíduos. E o ímpeto desse programa, segundo as autoridades, é monitorar turistas, que, segundo elas, são fáceis de distinguir, em razão do período menor que passam na cidade. 

“Todos deixamos rastros”, afirmou Marco Bettini, um dos diretores da Venis, a firma de tecnologia. “Sua operadora de celular sabe onde você dormiu mesmo se você não compartilhar essa informação.” Ela também sabe onde você trabalha, afirmou ele, e que em um dia específico você visitou uma cidade que não é a sua. 

Mas Luca Corsato, um gestor de dados que vive em Veneza, afirmou que essa coleta de informações levanta questões éticas, porque usuários de telefones celulares provavelmente não têm ideia de que o município pode comprar seus dados. Corsato acrescentou que, ainda que cidades comprem dados de localização de celulares para monitorar multidões em eventos específicos, ele não sabe de outra localidade que faça uso “massivo e constante” desses dados para monitorar turistas.  

“A verdade que elas estão atacando”, afirmou ele a respeito das autoridades municipais de Veneza. “Mas deixar transparecer a ideia de que todos que entram são identificados e qualificados é algo perigoso.”    

Alguns turistas lamentam a perda tanto da privacidade como de algo menos tangível. “As multidões acabaram com o romantismo de Veneza”, afirmou Martin Van Merode, de 32 anos, um turista holandês que fotografava a Basílica de São Marcos com seu smartphone. Mas a vigilância, afirmou ele, “é ainda menos romântica”. Mesmo assim, até os venezianos lamuriantes reconhecem que há um aspecto positivo nos planos do prefeito. 

“Não gosto da ideia de ser monitorado constantemente”, afirmou Cristiano Padovese, garçom do restaurante La Zucca, que tem como tema abóboras. “Mas se eu não tenho alternativa a não ser viver do turismo. Então, por que não?” 

Padovese, como muitos moradores de Veneza, reclamou que a cidade se tornou um parque de diversões. Para eles, o turismo é um vício que afasta amigos e parentes. 

Uma proliferação não regulamentada de albergues, pousadas e hospedagens em residências compartilhadas, como as encontradas no Airbnb, tornou o valor do aluguel inacessível para os venezianos, e o bem conectado setor do turismo sufocou a maioria das outras atividades econômicas. 

O número de habitantes que vive no centro histórico de Veneza despencou para cerca de 50 mil, contra mais de 170 mil na década de 50. E, em dias recentes, mesmo com restrições aos voos internacionais ainda vigorando, os funcionários que operam a sala de controle municipal afirmaram que ainda há mais turistas do que habitantes na cidade. 

Muitos venezianos que vivem essa realidade concordam que algo tem de mudar. Alguns usaram o tempo livre durante a pandemia para avançar com certas ideias, incluindo estímulos habitacionais para jovens profissionais e empreendedores, na esperança de atrair pessoas com altos índices de escolaridade, capazes de resgatar o glorioso passado da cidade.   

Isso, afirmam eles, seria muito diferente — e muito menos invasivo — do que a visão dos portões de Brugnaro.

Santuzzo, o artista, afirmou que a iniciativa do município não passa de um truque ou de um esforço para manter a cidade dependente de turistas, mas de turistas ricos, que podem pagar por uma noite de hotel e cuja entrada não será limitada.  

Associações de comerciantes locais reclamam que Veneza será colocada em uma “jaula”. E jornais alertam sobre a possibilidade de Veneza se tornar “um Big Brother ao ar livre”. 

“Eu sentiria ainda mais que vivo numa cidade que não é uma cidade”, afirmou a irmã de  Santuzzo, Giorgia Santuzzo, de 63 anos, que trabalhava em uma fábrica de lustres de vidro antes de se aposentar. “Terei de obrigar meus amigos a pagar para vir me visitar?” 

Talvez sim. Assim como visitantes que passam a noite na cidade, parentes próximos dos venezianos serão isentos da taxa de entrada na cidade, de acordo com o plano municipal — mas seus amigos, não.

Venturini, o secretário municipal de Turismo, não demonstra remorso pela cobrança aos visitantes que venham passar o dia, chamando-os de turistas de baixa qualidade, que consomem na cidade por apenas poucas horas e deixam seu lixo para trás. (A limpeza urbana é particularmente custosa em uma cidade sem carros, onde por rejeitos são transportados apenas por barcos e contêineres com rodas.)

Para tentar acelerar a iniciativa do prefeito, os primeiros modelos dos portões foram entregues recentemente para a sala de controle realizar testes. Ainda assim, sempre existe a possibilidade de o plano afundar, como já ocorreu no passado. 

O ministro da Cultura da Itália, Dario Franceschini, que recentemente se pronunciou sobre o assunto, qualificou os portões como “invasivos”, dando esperança àqueles que dependem do turismo de que o plano desaparecerá. 

“Quando tudo reabrir, seremos invadidos novamente pelos turistas”, afirmou Giuseppe Tagliapietra, que trabalha como gondoleiro há 43 anos. “E ficaremos felizes com isso.” / TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO

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