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Invasão americana ainda não cicatrizou

Enquanto jihadistas devoram o Iraque, políticos como Tony Blair, que apoiaram ofensiva dos EUA em 2003, usam isso como desculpa

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

08 de agosto de 2014 | 02h00

Esquadrões negros de jihadistas do Estado Islâmico no Iraque e no Levante (Isil, na sigla em inglês) investem sobre as cidades do Iraque. O ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair aproveita para dizer que, em 2003, teve toda razão em apoiar George W. Bush na guerra desencadeada contra o ditador iraquiano Saddam Hussein. Isso porque o dia de 2003 em que Blair decidiu "colar" no americano e enviar soldados britânicos ao Iraque é uma lembrança lúgubre para ele. Foi o começo de sua queda.

Até então, o brilhante, sedutor e moderno Blair havia conseguido tudo. Mas a intervenção no Iraque formou uma mancha sombria que os anos, longe de dissolver, adensaram. Em 18 de junho, o deputado conservador Peter Tapsell pediu à Câmara dos Comuns que Blair fosse processado. Há pouca chance de isso ocorrer, ainda mais que, na época, o atual primeiro-ministro, o conservador David Cameron, havia votado pela guerra. Onze anos depois, a invasão absurda do Iraque se tornou um pesadelo para Blair. A opinião pública não perdoou o envio de soldados ao Iraque, a falta de lamento de Blair e seu enriquecimento pessoal. Apesar de ter ficado muito rico, o pobre Blair sofre porque toda vez que se desloca é recebido por manifestantes que o acusam de crimes de guerra.

Eis porque ele tenta hoje utilizar em seu favor o caos do Iraque. A seu ver, a debandada das forças legalistas iraquianas deve-se, não à guerra Bush/Blair de 2003, mas à guerra civil que massacra a Síria neste momento. "Devemos nos desfazer da ideia de que 'nós' provocamos essa situação. Isso simplesmente não é verdade", diz ele.

Blair parece não estar convencendo a opinião pública britânica. Ainda mais que há outros atores utilizando as desordens atuais no sentido exatamente contrário. Em primeiro lugar, o ex-primeiro-ministro francês Dominique de Villepin, que era chanceler no governo de Jacques Chirac em 2003 e conheceu seu momento de glória no dia em que, diante do Conselho de Segurança da ONU, explicou com eloquência (e com lirismo descabelado) por que a França não quis se envolver na guerra de Bush.

Villepin denunciou a ilusão da diplomacia americana. "Fracasso da construção nacional como sonham os engenheiros políticos americanos: no Oriente complicado, houve a tentação de fazer tábula rasa para construir novas nações. Isso é não ver que se abria a Caixa de Pandora comunitária e, cedo ou tarde, todas as fronteiras herdadas da era colonial seriam questionadas em nome das purezas étnicas ou confessionais".

Villepin acrescentou uma ideia nova: a seu ver, a desgraça atual do Iraque era o antagonismo mantido por todos entre os dois ramos do Islã, os sunitas (Arábia Saudita, jihadistas, etc.) e os xiitas (Irã e outros).

"Preservar a unidade do Oriente Médio é superar a clivagem sunita-xiita que se tornou a linha de frente comunitária em todo o Oriente Médio, no sul do Iraque, por exemplo, porque isso arrastaria para o caos o Irã, a Arábia Saudita, a Turquia e a Jordânia", disse ele. "Uma conferência regional deve colocar em volta da mesa todas as potências em torno do que é consenso para todas: a garantia das fronteiras num quadro de segurança coletiva."

Villepin propõe aí um belo programa. Infelizmente, do lado dos jihadistas que estão devorando o Iraque, a análise é rigorosamente oposta porque se trata, ao contrário, de apagar todas as fronteiras herdadas não só do período colonial, mas mesmo da Idade Média e da Renascença, para substituir a confusão atual do país pelo califado islâmico que desconsidera as nações, as fronteiras e a história. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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