Erin Schaff/The New York Times
Erin Schaff/The New York Times

Invasão ao Congresso é resultado de anos de retórica de ódio nos EUA

'Ninguém deveria estar surpreso que isso esteja acontecendo', diz diretora-executiva de grupo de direitos civis

Redação, O Estado de S.Paulo

07 de janeiro de 2021 | 09h50

Apesar de chocante, o protesto anti-democrático da quarta-feira, 6, nos Estados Unidos é um desdobramento natural após anos de uma retórica de ódio e de violência impulsionada por desinformação e teorias de conspiração. Esta é a avaliação de especialistas em extrema-direita ouvidos pela AP após a invasão do Congresso norte-americano por apoiadores de Donald Trump durante o ato que confirmaria a vitória do presidente eleito Joe Biden.

A invasão aconteceu após um discurso em que o presidente americano prometeu nunca admitir sua derrota, em desafio ao rito parlamentar que confirmaria a vitória democrata. O grupo interrompeu a certificação dos votos. A polícia precisou retirar o vice-presidente Mike Pence, que presidia a sessão, e os demais legisladores do prédio em um cenário de violência que abalou um pilar da democracia americana e deixou ao menos quatro mortos.

Membros de grupos supremacistas brancos e neonazistas foram identificados entre os invasores. Em fóruns de discussão da internet, apoiadores de Trump celebraram as imagens caóticas no Congresso. "Se você está surpreso, você não vem prestando atenção", disse a diretora-executiva do Integrity First for America, Amy Spitalnick. "Todos nós deveríamos estar horrorizados por isso, mas ninguém deveria estar surpreso que isso esteja acontecendo."

O grupo de direitos civis de Spitalnick apoia uma ação federal movida por vítimas da violência dos protestos de agosto de 2017 feitos por nacionalistas brancos em Charlottesville e que deixou uma pessoa morta. Uma das pessoas identificadas como porta-voz do ato de 2017 estava fazendo uma transmissão ao vivo da confusão no Capitólio nesta quarta.

Tim "Baked Alaska" Gionet postou um vídeo que mostra os apoiadores de Trump circulando e tirando fotos com policiais que calmamente pediam a eles que deixassem o lugar. "É só o começo", dizem os apoiadores de Trump uns para os outros e para os policiais no vídeo.

CEO da Anti-Defamation League, Jonathan Greenblatt afirmou que as ações dos invasores foram "claramente consistentes" com a retórica do QAnon, a teoria conspiratória que vê Trump como um escolhido por um exército secreto para uma batalha contra governantes ocultos do mundo. "QAnon tem convocado este tipo de loucura há anos", diz Greenblatt.

Representantes de Facebook e Twitter informaram na quarta que estavam trabalhando na remoção de ameaças e publicações que incentivavam violência em suas plataformas. Ainda assim, apoiadores da invasão usaram a hashtag #StormTheCapitol para documentar o caos com fotos e vídeos. 

Mais de um milhão de menções a "civil war" (guerra civil) e "storm the Capitol" (invadir o Capitólio) apareceram no Twitter até a noite de quarta, de acordo com a Zignal Labs, que analisa redes sociais. 

Vice-presidente do ADL's Center on Extremism, Oren Segal disse que o ato é "uma conclusão lógica para o ódio e o extremismo sem controle" durante a gestão Trump. "Tínhamos teorias da conspiração animando as pessoas a agir no terreno. Tínhamos a fusão de narrativas convencionais e extremas." / Com informações da AP.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.