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Invasão argentina surpreendeu governo brasileiro

Regime militar reclamou por não ter sido avisado de ataque feito pelo governo vizinho e evitou melindrar britânicos e argentinos

Marcelo Moraes, Brasília,

31 Março 2012 | 18h32

BRASÍLIA - O governo brasileiro não foi informado previamente pelos argentinos sobre a decisão de ocupar as Malvinas. Documentos das Forças Armadas brasileiras, que fazem um balanço do choque, mostram a insatisfação pelo governo do general João Baptista Figueiredo por só ficar sabendo da invasão apenas pela imprensa.

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"O governo argentino não participou previamente sua intenção ou ação de ocupar as ilhas. Tampouco notificou o governo brasileiro de forma privilegiada sobre as operações militares de 2 de abril de 1982, tão logo estas foram desencadeadas", constata o informe produzido pela inteligência do Exército brasileiro, que faz parte do acervo de documentos sigilosos do Conselho de Segurança Nacional. "O governo brasileiro tomou conhecimento do assunto por meio do noticiário da imprensa e das declarações públicas de autoridades argentinas", acrescenta o informe.

A reclamação dos militares brasileiros é que, pela proximidade e pela parceria com o vizinho (que também tinha um governo militar), deveria ter havido um aviso prévio. Na época, Figueiredo chegou a se queixar a outros integrantes do governo e até mesmo em um encontro com o então presidente do EUA, Ronald Reagan, e com o seu secretário de Estado, Alexander Haig.

Foi o próprio general brasileiro que tomou a iniciativa de procurar o presidente e general argentino Leopoldo Galtieri para se informar sobre a situação do conflito. Apesar de admitirem que, depois do episódio, o relacionamento com os argentinos tinha melhorado, os militares brasileiros reclamam que "ainda persistia um clima de desconfiança em certas áreas do relacionamento bilateral".

"Como exemplo, pode-se citar os campos de material de emprego militar, indústria aeroespacial, indústria naval e serviços de engenharia. Nesses campos, a penetração brasileira tem sido basicamente vedada, não obstante a Argentina ter recorrido a fontes extracontinentais para o fornecimento de itens que poderiam ter sido feito pelo Brasil em condições vantajosas", avaliaram os militares.

Os brasileiros passaram todo o período de conflito receosos de como agir para não melindrar argentinos e britânicos, parceiros importantes. Na informação número 3, de 5 de abril de 1982, feita pela inteligência do Exército, os analistas brasileiros admitiam que a busca desse equilíbrio seria um trabalho complicado.

"Diante da hipótese de um pedido da força-tarefa da Grã-Bretanha para reabastecer em portos brasileiros, a recusa pura e simples seria interpretada como apoio à intervenção armada argentina, o que não corresponde à realidade, mas poderia sujeitar o Brasil às ameaças de sanções econômicas da Grã-Bretanha e mesmo da Comunidade Europeia", afirma o texto. "Caso, entretanto, o Brasil venha a aquiescer, estaria aberta a porta para uma confrontação por todos os meios indesejáveis com o país vizinho", acrescenta o documento.

O choque militar iminente entre Argentina e Grã-Bretanha colocou em prontidão a diplomacia brasileira por todo o continente. Um dos principais centros de atenção foi o Peru, cujo governo chegou a propor uma trégua entre os dois países. O mesmo governo, porém, deixou vazar para os diplomatas do Brasil a possibilidade de apoio militar à Argentina.

Telegrama enviado pelo adido do Exército brasileiro em Lima, no dia 12 de abril, e carimbado como secreto, informa que o presidente peruano Fernando Belaúnde Terry propusera uma trégua de 72 horas. Nesse período, os peruanos defendiam que os representantes do governo americano buscassem um acordo político para encontrar uma "solução honrosa e pacífica".

Em outro telegrama do mesmo dia, também classificado como secreto e acrescido de um "urgentíssimo", a tese do apoio militar, desde que chancelada pelo presidente Belaúnde e pelo Congresso peruano, seria uma retribuição pelo apoio argentino à independência do Peru.

 

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