Daniel LEAL / AFP
Daniel LEAL / AFP

Invasão da Rússia se amplia e centro turístico da Ucrânia se torna refúgio para deslocados

Centenas de ucranianos chegam em trens lotados e ficam na cidade antes de partir para outros países, como Polônia, fugindo dos ataques russos

Loveday Morris, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

03 de março de 2022 | 12h00

LVIV, UCRÂNIA - Quando Tetania Mudraniets despertou às 5h, com um estrondo, ela achou que fosse um trovão. E pensou imediatamente nas roupas que secavam lá fora. “Pensei que teria de trazer as roupas para dentro”, afirmou a mãe de oito filhos, cinco dos quais ainda vivem com ela. Mas quando ela saiu da casa que vivia na pequena propriedade rural de sua família, em Khakhovka, próximo à Crimeia ocupada para Rússia, “o céu se incendiou”.

Ouvindo as notícias da invasão, seus filhos, com idades entre 10 e 18 anos, imploraram a ela e seu marido que deixassem o local, à medida que o ruído das explosões se aproximava. Mas quando eles conseguiram achar um táxi, as estradas já haviam sido tomadas pelas tropas russas.

Foi o começo de uma traumática jornada de mais de 900 quilômetros, que durou três dias a atravessou a linha de frente do combate em direção a Lviv, uma cidade no oeste do país a aproximadamente 80 quilômetros da fronteira com a Polônia transformada em abrigo. Anteriormente um centro turístico, com uma cidade-velha histórica considerada Patrimônio da Humanidade pela Unesco, Lviv virou agora um centro de refúgio para os deslocados internamente.

Sua principal estação ferroviária fervilha de gente tentando chegar à Polônia ou outras regiões do oeste ucraniano. Cerca de 152 prédios com acesso público, como escolas, teatros, cinemas e galerias de arte foram transformados em abrigos para os deslocados, assim como 100 instituições religiosas. Os moradores também abriram suas casas aos compatriotas cujas cidades estão sob bombardeio.

Anayel, nascida em Camarões, carregava no colo seu filho de 7 meses, Andriej, enquanto esperava o trem.

Mas o prefeito afirmou que os recém-chegados deveriam ajudar. “Quero enfatizar que hoje Lviv não é mais um centro turístico”, afirmou Andrii Sadovii em um comunicado público na segunda-feira. “Todos os que chegam aqui devem se lembrar que não estão de visita. Devemos trabalhar juntos pela vitória de nosso Exército!”

Quando chegou a Lviv, no fim de semana, a família Mudrianiets tomou o metrô de superfície que circula pela cidade e passou quatro horas no transporte tentando se aquecer, até ver um cartaz que indicava um restaurante que estava distribuindo comida grátis para os deslocados. “Estávamos tremendo de frio”, afirmou Anatoli, o marido de Tetania, após a primeira refeição quente da família em dias.

Eles permaneceram no restaurante, comendo e descansando, antes de tomar o trem da tarde para encontrar-se com parentes na região da Transcarpátia, na fronteira com a Eslováquia. Lá, eles decidiriam se cruzariam ou não a fronteira.

Mas as travessias fronteiriças, com esperas de dia inteiro, são intimidadoras. As temperaturas despencaram no fim de semana e começou a nevar, o que causou mais sofrimento nas estimadas 30 mil pessoas que enfrentam filas, de carro ou a pé, nas estações de trem e nos postos fronteiriços no limite com a Polônia.

“Ninguém quer deixar sua casa”, afirmou Anatoli, de 55 anos, que chorou ao contar a história de sua fuga, deixando para trás o que ele descreveu como uma vida idílica e autossuficiente em sua propriedade com 150 cerejeiras, 2 vacas e 100 galinhas. Mas a segurança da família é mais importante. “Pegamos uma mochila, documentos, casacos e roupas de baixo”, afirmou ele. Seu filho de 11 anos, Ilia, levou também um livro e alguns brinquedos.

“O mais assustador é a incerteza”, afirmou Anatoli. Na estrada, afirmou, eles passaram por um blindado e um caminhão militar da Ucrânia incendiados e viram uma bandeira russa hasteada numa hidrelétrica local. Dezenas de veículos militares russos estavam estacionados diante da usina.

Anatoli e Tetania Mudrianiets sentaram-se à mesa com seus filhos Katarina, Ilia, Alina, Anna e Elizabeta no restaurante que servia comida grátis e bebidas quentes aos refugiados em Lviv.

Anatoli disse que deu aos filhos instruções rígidas para não tirar nenhuma foto, por medo de que fossem parados e revistados por soldados russos. Apesar de alguns detalhes a respeito da história da família terem sido impossíveis de verificar, seu relato corresponde a imagens de satélite que mostram a usina hidrelétrica sob controle russo.

Para alcançar o oeste da Ucrânia e a possibilidade de estar em segurança, a família teve de atravessar o Rio Dniepre por uma ponte sob controle russo. Os soldados sinalizavam para carros civis atravessarem. “Foi muito assustador”, afirmou Anatoli. “Não vimos nenhum combate, mas vimos as consequências”, afirmou ele. Uma coluna de fumaça se erguia à distância.

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Quando deixou sua casa, Anatoli pensou que conseguiria atravessar para a Eslováquia, onde vive um de seus filhos mais velhos. Mas nos dias que a família levou para cruzar a Ucrânia, o governo proibiu que homens com idades entre 18 e 60 anos deixem o país.

Em linha ao chamado nacional às armas, o prefeito de Lviv afirmou que mulheres, crianças e idosos são bem-vindos na cidade. “Pedimos aos homens conscritos que os acompanham que retornem para suas cidades e se juntem às defesas de nossos país”, afirmou ele.

A determinação ocasionou despedidas emocionadas ou levou famílias que pensavam em fugir a permanecer no país. Na maior estação de trem da cidade, jovens casais que até então tinham conseguido permanecer juntos contemplavam a separação.

“Tenho oito filhos para cuidar, e eles me dizem que eu devo lutar?”, afirmou Anatoli. “Minha mulher disse, ‘OK, vou cruzar, mas o que você vai fazer? Ficar aqui cinco anos sem a família?’.”

Reencontros

Mas também houve reencontros. Duas irmãs que tinham retornado da Polônia para buscar as filhas depois que a guerra começou finalmente as reencontraram quando a avó das meninas as levou para a estação de Lviv, no domingo.

Maxim, de 13 anos, e Dasha, de 12, carregavam caixas em que transportavam seus papagaios de estimação enquanto esperavam pelas mães.

Os pássaros “também estão com fome”, afirmou a avó, Valentina Perovna, de 61 anos, antes que suas filhas chegassem para o reencontro emocionado. “Todas sofremos juntas.”

Lviv é tanto um ponto passagem quanto um novo lar para os deslocados. Cerca de 31 mil pessoas deslocadas internamente estão abrigadas na região, afirmou Maksim Kozitskii, chefe do governo regional. Outras 100 mil fugiram para a Polônia, disse ele.

Ainda há 35 mil lugares disponíveis em abrigos temporários e lares de pessoas que resolveram abrir suas casas para os refugiados, afirmou Kozitskii. O maior problema é lidar com a logística do fluxo de pessoas, mas o enorme esforço de voluntários e doações significa que não há necessidades humanitárias, afirmou ele.

Na Kiev cercada, moradores cavaram trincheiras e levantaram barricadas preparando-se para o ataque russo. Houve um fluxo constante de moradores entregando comida, roupas e cobertores com seus carros e um movimentado ponto de distribuição de ajuda foi organizado num dos museus da cidade no sábado. Voluntários separavam doações a serem entregues em abrigos e residências. Alguns dos voluntários também tinham sido deslocados e estavam ávidos para colaborar.

Quando a família Mudrianiets chegou a Lviv, tinha gastado US$ 1.300 dos US$ 1.500 que possuía no início da jornada. Seus filhos mais velhos, que vivem fora do país, ofereceram-se para enviar dinheiro, mas uma crise de liquidez não permitiu sacar essa quantia, e a família não sabe o que fará quando ficar sem dinheiro.

O congestionamento na fronteira e as restrições à saída de homens em idade de combate desencorajaram muitos ucranianos a deixar o país. E com acomodações para períodos mais longos lotadas nas cidades, as pessoas estão cada vez mais tentando encontrar opções em vilarejos de áreas rurais, afirmou Evgenia Nesterovich, que realiza trabalho voluntário numa estação de ônibus.

Mas não está claro o quanto durará a calma por aqui, em meio a alertas de que o presidente belarusso, Alexander Lukashenko, abrirá um novo front na fronteira norte da Ucrânia.

“A linha de frente chegaria muito perto da gente”, afirmou Kozotskii. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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