Michael Ciaglo/The New York Times
Michael Ciaglo/The New York Times

Invasão de drones abre investigação federal nos EUA

Fazendeiros do Colorado e de Nebraska afirmam que têm avistado, desde o final do mês passado, grupos de até 30 equipamentos voando em formações precisas

The New York Times, O Estado de S.Paulo

02 de janeiro de 2020 | 11h01

Eles vêm à noite. Drones - muitos deles, às vezes até 30 equipamentos juntos - voando em formações precisas sobre as pradarias dos estados do Colorado e de Nebraska, nos Estados Unidos. Quem são eles? Ninguém sabe. Por que eles estão lá? Não está explicado. 

"É assustador", disse o fazendeiro Missy Blackman, que viu três drones pairando sobre sua propriedade nos arredores de Palisade, Nebraska, em uma noite recente -- um dos drone, conta Blackman ficou pairando logo acima de sua casa. "Eu tenho muitas perguntas sobre o porquê e o que são, e ninguém parece ter respostas."

Desde antes do Natal, a polícia local tem sido bombardeada com relatos de grandes drones com luzes piscantes e envergadura de quase dois metros voando sobre áreas rurais e campos abertos. Os drones, que irritaram os moradores, deram início a uma investigação federal, mesmo que seu uso seja perfeitamente legal. 

"Nunca tivemos aeronaves que voam à noite e não são identificadas. Essa é a primeira vez", disse o xerife James Brueggeman, do Condado de Perkins, Nebraska, que está há 28 anos na polícia e viu os drones enquanto estava patrulha terça-feira, 31, à noite.

Ele disse ter ouvido que há fazendeiros que já falam em abater os equipamentos. "Acho que é uma piada, mas é preciso lembrar a parte do país em que vivemos", disse o xerife. "As pessoas aqui não gostam que sua privacidade seja invadida."

Os voos chamaram a atenção da Administração Federal de Aviação (FAA, na silga em inglês) que, na semana passada, propôs novos regulamentos para a identificação dos drones. Ian Gregor, porta-voz da FAA, disse que o momento para a apresentação das novas normas não tem relação direta com os equipamentos que estão azucrinando os fazendeiros,  mas que a agência abriu uma investigação sobre os avistamentos no Colorado e no Nebraska.

"Várias divisões da FAA e agências governamentais estão investigando esses casos", disse Gregor em um email. Ele não quis dar detalhes, mas disse que os investigadores estavam tentando determinar quem estava operando os drones e o objetivo dos voos.

Na medida que os avistamentos aumentam - pessoas em quatro municípios disseram que os viram na terça-feira, 31 - mais dúvidas surgem. Alguns moradores sugeriram que os drones poderiam fazer parte de uma operação simples de mapeamento ou de uma pesquisa realizada por uma empresa de petróleo e gás. No entanto, ninguém sabe explicar por que  esses voos funcionavam à noite.

O senador Cory Gardner, republicano do Colorado, disse nas mídias sociais que “monitoraria de perto a situação”. Uma manchete de jornal em Akron, Colorado, perguntou: “ O que há com os drones?" 

Enquanto isso, várias agências policiais alertaram os moradores que atirar um drone no céu seria crime. "Eles voam alto o suficiente para você não conseguir atirar em um, mas são estão baixos o suficiente para incomodar", disse Dawn George, que mora perto de Wray, Colorado. "O problema é que, de repente, tudo pode parar e não teremos respostas", disse George. “E isso é muito perturbador para as pessoas. É o medo do desconhecido."

Drones não tripulados, que se tornaram populares nos últimos anos e podem ser utilizados ​ para mapeamento de áreas, fotografias e agricultura, são difíceis de rastrear. Os operadores  precisam registrar-se no governo federal desde 2015, mas não existe uma maneira direta e legal de as autoridades estaduais e locais identificarem o proprietário de um equipamento  específico ou rastrearem a localização desse drone.

"A estrutura regulatória está atrasando a tecnologia", disse Reggie Govan, ex-diretor jurídico da FAA que agora leciona na Faculdade de Direito da Universidade da Pensilvânia. Govan disse que as autoridades federais tinham ferramentas de rastreamento para descobrir de onde os drones do Colorado e Nebraska estavam vindo, mas que a vasta área sobre a qual os drones estavam operando poderia dificultar essa tarefa.

NOVAS REGRAS

As limitações na detecção de drones permitem, por exemplo, que operadores se aproximassem da Casa Branca sem disparar alarmes e, em outro caso extremo, implantem bombas caseiras em um bairro qualquer. Embora não esteja claro que os drones que sobrevoam o Colorado e Nebraska estejam violando a lei, moradores e autoridades locais disseram que gostariam de ver uma nova regra proposta pela FAA que facilitaria a identificação de drones.

"A maioria das pessoas é muito razoável e diz que pode ser alguém mapeando ou fazendo topografia", disse Michael Yowell, capitão de um xerife no condado de Lincoln, Colorado,  cuja casa foi sobrevoada por um esquadrão de drones na véspera de ano-novo. 

Os avistamentos de drones começaram no nordeste do Colorado por volta de meados de dezembro e só cresceram desde então. Quase todos os avistamentos ocorreram entre o pôr-do-sol e às 22 horas.

Do outro lado da fronteira estadual, no Colorado, o capitão Yowell tentou fotografar os drones na noite de terça-feira com a câmera que ele usa para documentar cenas de crime, mas saiu sem uma imagem clara. Ele estimou que até 30 drones estavam voando a cada noite, embora nem todos estivessem no mesmo lugar.

“Queremos saber, por volta das 10 horas, quando começamos a perder visuais deles, em que direção eles estão indo? Para que lado estão indo? - perguntou o capitão Yowell. "Esperamos que seja assim que possamos entrar em contato com alguém no terreno."

O xerife Todd Combs, do condado de Yuma, no Colorado, disse em um post no Facebook na terça-feira que os drones pareciam estar a pelo menos 50 metros de prédios ou pessoas, com base nas imagens que ele viu.

"Existem muitas teorias sobre o que está acontecendo, mas, neste momento, é tudo o que são", disse ele. "Acho que todos estamos nos sentindo um pouco vulneráveis ​​devido à invasão de nossa privacidade que desfrutamos em nossa comunidade rural, mas não tenho uma solução".

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