Inventando novas razões para os EUA

Obama tenta preencher o vácuo que se forma no Oriente Médio e no Norte da África, mas o presidente americano tem mais boas intenções do que dinheiro

David E. Sanger, The New York Times, O Estado de S.Paulo

20 de maio de 2011 | 00h00

Depois de meses de luta na Casa Branca para conciliar os interesses com os valores americanos nos levantes árabes, Barack Obama se colocou ontem ao lado dos valores, comparando as revoltas na região com a Independência dos EUA e com o movimento pelos direitos civis. Mas, mesmo com Obama pedindo que a região abrace a autodeterminação como caminho para a paz e para a prosperidade, ele não deixou claro até onde os EUA iriam na adoção de medidas concretas condizentes com seu entusiasmo em apoiar a transformação de uma região caracterizada por repressão, pobreza, frustração e irritação.

Se o modelo, como sugeriu o presidente, for a integração do Leste da Europa com o Ocidente, após a queda do comunismo, ele se esqueceu que não estamos em 1989. Na política mundial, como na vida, oportunidade é tudo. O Oriente Médio e os países do Norte da África, que passam hoje por diferentes estágios da revolução, atingem a democracia em uma época de orçamentos curtos nos EUA e de crise na Europa.

O que foi oferecido ao Egito - abatimento de US$ 1 bilhão em dívidas e outro US$ 1 bilhão em empréstimos para projetos de infraestrutura - não é exatamente um Plano Marshall, como os egípcios deixaram claro em conversas privadas com Washington.

Como não há instituições no mundo árabe semelhantes à União Europeia - que serviu de atrativo para que muitas ex-repúblicas soviéticas adotassem o capitalismo democrático -, Obama terá de inventar alguma coisa. "A realidade é que não há muito dinheiro para esse projeto", reconheceu um dos mais altos assessores do presidente após o discurso de ontem.

A questão agora é convencer a Arábia Saudita e outros países ricos em petróleo de que devem garantir a transição democrática. Não será uma tarefa fácil, visto que os sauditas ainda não engoliram o fato de Obama ter abandonado os velhos ditadores da região e de Riad ainda lutar desesperadamente para evitar que as revoltas cheguem ao país.

Esse dilema mostra um dos muitos desafios que enfrenta Obama ao delinear uma doutrina americana que responda a um período de turbulência que ainda está em curso. Seis meses após um mascate tunisiano chamado Mohamed Bouazizi ter se imolado em protesto e tocado fogo no mundo árabe, o presidente parece compreensivelmente ansioso para preencher o vácuo que se forma na região.

Com o destino de Líbia, Síria e Iêmen em jogo, seus assessores sabiam que ele tinha de alinhar-se às vozes da mudança e comparar a revolução atual com a Americana, 235 anos atrás. "Os EUA foram fundados sobre a crença de que os povos deveriam governar a si mesmos. Agora, não podemos hesitar em ficarmos do lado daqueles que buscam seus direitos, sabendo que seu sucesso trará um mundo mais pacífico, estável e justo", disse Obama.

O risco, porém, é que a região perceba que ele tenha mais boas intenções do que dinheiro. Em uma região que há muito suspeita das razões dos EUA, o presidente reconheceu que é preciso mais do que discurso para levar a revolução até a próxima fase.

É COLUNISTA DE POLÍTICA EXTERNA

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