Investigação fecha cerco a capitão de navio; mortos são 5 e desaparecidos, 15

Enquanto as investigações sobre o naufrágio da embarcação de cruzeiro Costa Concordia - ocorrido na noite da sexta-feira ao noroeste da Itália - avançam, a situação do capitão, Francesco Schettino, se complica. Segundo os relatos de tripulantes, passageiros e autoridades, Schettino abandonou o navio quando o perigo ainda era iminente, o que é considerado um crime, cuja pena chega a até 12 anos de prisão no país.

ILHA DE GIGLIO, ITÁLIA, O Estado de S.Paulo

16 de janeiro de 2012 | 03h07

Ontem, mergulhadores encontraram outros os corpos de dois idosos - o espanhol Guillermo Gual, de 68 anos, e o italiano Giovanni Masia, de 86 - no navio, elevando a cinco o número de mortos. A descoberta dos corpos, ontem, desanimou os socorristas, que, horas antes, haviam comemorado a retirada de um casal de sul-coreanos encontrado no início da madrugada. "Ainda estamos procurando (por mais corpos), com a esperança de que deve haver bolsões de ar (com sobreviventes)", afirmou o agente da Guarda Costeira Cosimo Nacastro.

O chefe dos comissários, Manrico Giampedroni, que estava preso havia 36 horas no interior do navio naufragado, foi resgatado com vida e içado por um helicóptero. "Nunca perdi a esperança de ser salvo. Foi um pesadelo de 36 horas", disse o tripulante. Ao menos 15 pessoas seguem desaparecidas.

O capitão do Costa Concordia permanecia preso, acusado pelo Ministério Público italiano de homicídio culposo (não intencional) múltiplo, naufrágio e abandono do navio. Dois passageiros franceses fizeram questão de relatar ter visto Schettino deixando a embarcação n um bote salva-vidas, envolvido em um cobertor, bem antes de os passageiros estarem seguros. "Normalmente, o comandante deve sair por último", afirmou o policial de Marselha David Du Pays. "Ele deixou o navio e chegou às docas (da Ilha de Giglio) antes que todos tivessem saído", disse a militar francesa Ophelie Gondelle.

"Infelizmente, sou obrigado a confirmar essa circunstância", afirmou o promotor Francesco Verusio à emissora Sky TG24.

O comandante da Guarda Costeira italiana, Francesco Paolillo, contou que, enquanto assistia à retirada dos mais de 4.200 passageiros e tripulantes da embarcação, em terra firme, Schettino foi abordado agentes da força marítima, que recomendaram a ele que retornasse à embarcação em perigo. "Cumprimos nossa função (de lembrar o capitão de sua obrigação)", disse Paolillo, afirmando que Schettino ignorou a recomendação. À emissora Mediaset, ele insistiu que estava entre "os últimos a deixar o navio".

"O capitão não falou nada (durante a operação de retirada do navio). Foi o encarregado de cerimônias quem nos ordenou a tranquilizar as pessoas", relatou o tripulante colombiano Edgard López Sánchez, que atuava como garçom no Costa Concordia.

O marinheiro Italo Arienti, que há mais de uma década trabalha nos ferries que realizam a travessia entre Giglio e o continente, afirmou que o navio passou "muito perto, muito perto" da ilha. Em sua defesa, Schettino afirma que a barreira rochosa em que o navio de 114,5 mil toneladas bateu, provocando um corte de ao menos 50 metros no casco, não estava registrado em suas cartas náuticas. "Estávamos navegando a cerca de 300 metros das pedras (mapeadas)", disse à emissora Mediaset. A Justiça italiana mantém o capitão preso por receio de uma possível fuga e para evitar alterações nas provas relativas ao incidente.

"Estamos investigando (ainda) a possível responsabilidade de outros tripulantes por uma manobra tão arriscada. Os sistemas de comando não funcionaram como deveriam", disse o promotor. O ministro italiano da Defesa, Giampaolo di Paola, qualificou o naufrágio como "um enorme erro humano". "Navios daquela dimensão não podem passar perto de uma costa onde se sabe ser rasa", afirmou à emissora Rai 3. O equipamento que funciona como "caixa-preta" da embarcação foi recolhido ontem.

Uma empresa de serviços marítimos holandesa foi contratada para evitar o vazamento de combustível do navio na costa de Giglio. / AP, AFP e REUTERS

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