Marcelo Camargo/Ag.Brasil
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Investigação na Venezuela não pode ser pretexto para recrudescer repressão, diz Aloysio 

Chanceler diz ter achado 'estranho' que Maduro já conhecesse autoria do atentado contra ele poucos dias após o incidente

Lu Aiko Otta / Brasília , O Estado de S.Paulo

09 Agosto 2018 | 20h52

O ministro das Relações Exteriores, Aloysio Nunes, disse nesta quinta-feira, 9, ter achado “estranho” que o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, já soubesse quem teria formulado o atentado contra ele, ocorrido no último sábado, logo após ocorrido. 

“Achei estranho que, minutos depois do atentado, o presidente Maduro já tenha descoberto quem era o grande autor intelectual e atribuído essa responsabilidade ao presidente Santos, o que me parece algo bizarro”, afirmou, referindo-se ao ex-presidente da Colômbia Juan Manuel Santos. “O que esperamos é que esse atentado seja apurado de maneira isenta e não seja pretexto para o recrudescimento da repressão à oposição.” 

O secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), Luis Almagro, escreveu ontem em sua conta no Twitter que as investigações devem ter acompanhamento internacional. Ele acrescentou que detenções arbitrárias e tortura foram utilizados para incriminar dissidentes e opositores, e registrou a prisão do deputado Juan Requesens, acusado de participar do atentado.

Aloysio e o ministro da Defesa, Joaquim Silva e Luna, receberam hoje o chanceler do Chile, Roberto Ampuero e o ministro da Defesa do país, Alberto Espina, para a primeira reunião do mecanismo chamado “2+2” para cooperação internacional em temas de defesa. 

“O Brasil resolve suas controvérsias através de sua diplomacia. Consideramos isso sempre Plano A para qualquer situação. O segundo plano, o B, é sempre a Defesa”, afirmou Silva e Luna.

Foi assinado um acordo sobre catalogação de material de defesa, que vai servir para padronizar a produção de equipamentos nos dois países. A harmonização técnica vai facilitar vendas de um mercado para outro e também a exploração conjunta de terceiros países.

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Outro documento assinado no encontro foi um protocolo de intenções de cooperação na área de ciberdefesa. “Ciberataques são os piores inimigos que a democracia pode enfrentar”, afirmou Espina. O Chile foi recentemente abalado por um ataque cibernético a uma de suas instituições financeiras. Os dois países deverão colaborar em investigações conjuntas e no desenvolvimento de projetos de treinamento na área.

Durante a reunião, os ministros avaliaram a situação política na região. “Falamos de nossa profunda preocupação com a escalada da violência na Nicarágua”, informou Aloysio. Ele acrescentou que Brasil e Chile defendem uma solução pacífica para os conflitos entre governo e oposição naquele país. Sobre a Venezuela, reiteraram a visão que a crise política deve ser resolvida pelos próprios venezuelanos.

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Questionado após a reunião sobre a tentativa do governo de Roraima de barrar a entrada de venezuelanos, o chanceler comentou que a questão foi resolvida pela Justiça. Ele explicou que, embora os dados apontem para a entrada de 50 mil venezuelanos no Brasil, estão na região da fronteira algo como 5 mil. “Nosso esforço é para acelerar a interiorização deles”, disse. Ou seja, enviá-los para outros Estados, evitando uma concentração em Roraima.

“São pessoas qualificadas, que vieram tangidas pela crise”, disse. Na sua avaliação, o Brasil tem condição de absorvê-las. É uma situação diferente da Colômbia, que contabiliza a chegada de 1 milhão de migrantes, ou do Equador, que entrou em estado de emergência por causa da chegada de um grande número de venezuelanos.

Aloysio classificou de “excelente” a escolha da ex-presidente do Chile Michele Bachelet para comandar a área de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU). “É uma pessoa de grande dimensão política e pessoal”, elogiou, ao ressaltar que ela própria foi vítima da repressão. “É uma pessoa que tem autoridade moral e integridade política para fazer um excelente trabalho.”

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