Investigação sobre chanceler de Caracas está concluída

Bastidores: Roberto Simon

O Estado de S.Paulo

12 de agosto de 2012 | 03h05

O ministro das Relações Exteriores da Venezuela, Nicolás Maduro, de fato se encontrou com generais paraguaios no Palácio los López, a sede da presidência em Assunção, horas antes de o Senado votar a destituição do presidente Fernando Lugo, no dia 22 de junho. A entrada em cena do chanceler de Caracas foi a última tentativa de fazer a cúpula das Forças Armadas do Paraguai afirmarem, publicamente, que se manteriam fiéis ao seu comandante em chefe, ignorando a iminente decisão do Legislativo. Em uma fala de 5 minutos, Maduro alertou sobre os "custos políticos" do impeachment, sem em nenhum momento pedir com todas as letras uma sublevação. Não convenceu os generais.

É essa a versão final da investigação militar sobre o momento mais tenso da crise política no Paraguai, segundo o Estado apurou. O relatório final, com base nos depoimentos dos participantes do encontro, já está concluído e deve ser apresentado à Suprema Corte militar de Assunção nas próximas semanas.

Quando os deputados paraguaios abriram o julgamento político, na manhã do dia 21 de junho, a grande dúvida entre políticos era como os militares se comportariam. "Sabíamos que Lugo cairia como uma pedra no Congresso", explica um integrante do Partido Colorado, de oposição. Em menos de uma hora, a Câmara dos Deputados aprovou com tranquilidade a destituição: 76 votos a favor, 1 contra e 3 abstenções. Como o Partido Liberal, do então vice-presidente Federico Franco, abandonara a coalizão, a votação no Senado, marcada para o dia seguinte, prometia também ser tranquila.

O primeiro sinal dos militares veio com uma nota no fim da tarde do dia 21. O comando das Forças Armadas entregou à imprensa um texto no qual afirmava que, "em respeito à Constituição", "seguiria" a decisão do Congresso. Entendendo que o apoio dos militares era a última esperança, pois a derrota no Legislativo era inevitável, assessores de Lugo montaram uma operação para tentar mudar a posição dos chefes das três armas - o comandante do Exército estava em visita oficial a Taiwan e, pela hierarquia, o número 1 das Forças Armadas era o líder da Aeronáutica.

Ambiguidade. Na noite do dia 21, os generais receberam uma notificação para comparecer ao Palácio los López. O anúncio da reunião foi feito por militares que assessoravam Lugo - quase todos, hoje na reserva. Na tarde do dia 22, enquanto senadores se preparavam para votar, eles ocuparam uma sala no segundo andar da sede da presidência em Assunção.

Aliados de Lugo lhes apresentaram o rascunho de uma "nova declaração à imprensa", pedindo que a divulgassem o quanto antes. O texto tinha um pequeno complemento: além da Constituição, os militares se manteriam fiéis "ao presidente constitucionalmente eleito". "Era uma pequena ambiguidade, pois formalmente Franco também foi eleito como vice", explica uma fonte que investigou o caso. "Mas, naquele momento, essa dúvida seria muito perigosa."

Os generais se recusaram a assinar o documento e, então, Maduro entrou na sala. O ministro do governo Hugo Chávez integrava a missão de chanceleres da Unasul que havia partido da Rio+20 pouco depois da abertura do processo de impeachment, no próprio dia 21. Em reuniões com os chefes dos três poderes, as autoridades alertaram que a deposição de Lugo significaria a suspensão do Paraguai tanto da Unasul quanto do Mercosul. Mas apenas Maduro encontrou-se com os militares.

Nos 5 minutos em que falou aos generais, o chanceler venezuelano indicou que seu governo cortaria suprimentos de petróleo ao Paraguai. Maduro chamou atenção também a sanções multilaterais e à "provável convulsão nas ruas do Paraguai" - que, ao final, não ocorreu. Quando terminou de falar, deixou a sala.

Em entrevista ao Estado, Lugo negou que houvesse qualquer plano de incitar um golpe no Paraguai. "(O governo Franco) disse que Maduro percorreu quartéis em todo país pedindo uma sublevação. Isso nunca ocorreu."

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