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Investigação sobre morte de jornalista ameaça governo de Malta

Empresário preso nesta semana momentos antes de fugir em seu iate de luxo afirmou que ex-chefe de gabinete do premiê Joseph Muscat foi o mentor do assassinato da jornalista Daphne Caruana Galizia em 2017

Redação, O Estado de S.Paulo

28 de novembro de 2019 | 15h55
Atualizado 29 de novembro de 2019 | 15h51

VALETA - Um destacado empresário de Malta disse à polícia que Keith Schembri, o ex-chefe de gabinete do primeiro-ministro, Joseph Muscat, foi o mentor do assassinato da jornalista Daphne Caruana Galizia em 2017, de acordo com duas pessoas informadas sobre a investigação.

Schembri foi preso na terça-feira em conexão com o caso. Ele não emitiu nenhuma declaração desde sua detenção, mas anteriormente sempre negou qualquer conexão com o assassinato de Daphne, que escrevia principalmente sobre casos de corrupção no país e revelou a participação de importantes figuras políticas maltesas nos chamados Panama Papers.

Muscat, amigo íntimo de Schembri, disse a jornalistas que espera que a investigação do assassinato seja encerrada dentro "das próximas horas".

O assassinato de Daphne, com a explosão de uma bomba escondida em seu carro a poucos metros de sua casa, lançou luz sobre a corrupção no menor país da União Europeia (UE)

Três homens foram acusados de colocar a bomba no veículo e aguardam julgamento. As autoridades até agora não conseguiram dizer quem os contratou.

Depois de dois anos, a investigação se acelerou neste mês, após novas evidências serem descobertas, levando à prisão na semana passada do empresário Yorgen Fenech no momento em que ele se preparava para fugir do país em seu iate de luxo.

De acordo com fontes policiais e legais com conhecimento direto da investigação, Fenech está buscando imunidade legal em troca de testemunhos que implicariam Schembri e revelariam um amplo esquema de corrupção na ilha, implicando também políticos do alto escalão do governo.

O perdão em casos como esse só pode ser emitido pelo presidente, por recomendação do gabinete do primeiro-ministro. O presidente George Vella cancelou uma viagem a Londres na próxima semana por causa da crise, enquanto Muscat desistiu de um evento na noite desta quinta-feira.

As fontes não indicaram se Fenech havia fornecido qualquer evidência para sugerir que Schembri havia planejado o assassinato de Daphne, e não havia indicação de que um perdão - potencialmente controvertido - pudesse ocorrer.

Pressão por renúncia

Muscat negou repetidamente as acusações de irregularidades supostamente cometidas por políticos próximos a ele nos últimos anos e agora está enfrentando crescentes pedidos de renúncia por ter mantido suspeitos em seu governo.

Seu ministro do turismo deixou o cargo no início desta semana, enquanto o ministro da economia também se distanciou do governo com a continuidade da investigação do assassinato. Ambos negaram envolvimento no caso.

Adrian Delia, chefe do opositor Partido Nacionalista, se reuniu com o presidente nesta quinta-feira para exigir que Muscat se demita. "Eu disse ao presidente nesta tarde que, a cada hora de inação, a reputação de nosso país está sofrendo danos irreparáveis", afirmou Delia a repórteres.

Até agora, Muscat se recusa a deixar o cargo. Na terça-feira ele afirmou que Malta precisava de estabilidade durante esse "período turbulento".

O governo já concedeu um perdão neste caso para Melvin Theuma, o suposto intermediário na trama, que foi preso há duas semanas em uma investigação de lavagem de dinheiro e imediatamente ofereceu informações sobre o assassinato de Daphne.

Um dos homens acusados de colocar a bomba no carro da jornalista disse aos investigadores que os três receberam € 150 mil euros (quase R$ 700 mil) pelo caso, segundo um relatório visto pela agência Reuters.

Daphne havia revelado a existência de uma empresa secreta de propriedade da Fenech, envolvida na venda de imóveis, jogos e no ramo de energia. A empresa secreta foi citada em e-mails como um veículo para depositar dinheiro em contas de abertas do Panamá pertencentes ao ex-ministro do Turismo Konrad Mizzi e a Schembri.

Popularidade em baixa

Uma pesquisa publicada no portal do jornal Times of Malta revela que apenas 7% de seus leitores querem que Muscat termine seu mandato, que começou em 2013 e foi revalidado por cinco anos em 2017 em uma eleição antecipada devido ao escândalo dos Panama Papers.

Mas a pressão também vem da família do jornalista assassinata, com seus filhos Andrew, Matthew e Paul incentivando as manifestações e criticando o primeiro-ministro: "(Joseph), você deve renunciar agora", afirmou Matthew recentemente.

"Não participe de nenhuma manifestação organizada por partidos políticos. Não é hora de discussões tribais. Joseph Muscat quer que lutemos uns contra os outros. Nossa guerra é contra a corrupção, contra o escritório do primeiro-assassino (trocadilho com o cargo de Muscat). "(Premiê), junte-se aos protestos da sociedade civil", disse Matthew Caruana Galizia.

Coletivos como "Occupy Justice Malta" convocaram um protesto nacional para o domingo, 1º de dezembro, porque acreditam que "enquanto Joseph Muscat permanecer como primeiro-ministro, continuará sendo um obstáculo para a Justiça". Neste sentido, exigem a renúncia do primeiro-ministro ou que o Parlamento retire sua confiança e force a queda de seu governo. / REUTERS, EFE e AFP

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