Martial Trezzini/Keystone via AP
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Investigadora deixa comissão que apura crimes na Síria

Órgão da ONU é liderado pelo brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro e há cinco anos denuncia crimes de guerra e contra a humanidade cometidos pelos diferentes atores no conflito

Jamil Chade, correspondente / Genebra, O Estado de S.Paulo

06 Agosto 2017 | 20h31

GENEBRA - A ex-procuradora de crimes de guerra Carla Del Ponte anunciou neste domingo, 6, que deixa a Comissão de Inquérito dos crimes na Síria, dizendo que o órgão não tem qualquer impacto sobre o conflito, que já deixou mais de 300 mil mortos. A Comissão, criada há cinco anos, é presidida pelo brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro. 

"Estou frustrada. Desisto", declarou Del Ponte à imprensa suíça. "Já escrevi minha carta de renúncia", confirmou.

Segundo ela, "todos na Síria estão do lado errado". "Bashar Assad cometeu crimes horríveis contra a humanidade e usou armas química. A oposição hoje é composta por extremistas e terroristas. Estou renunciando. A Comissão não tem o apoio de nenhuma vontade política. Eu não tenho poder enquanto o Conselho de Segurança da ONU não agir. Não há Justiça para a Síria", criticou. 

Criada em março de 2011, a comissão liderada por Pinheiro denunciou Assad por crimes de guerra e contra a humanidade. Mas também acusa a comunidade internacional de estar alimentando a guerra na Síria, fornecendo armas e recursos a diferentes lados. 

Em cinco anos, porém, seus investigadores jamais foram autorizados a entrar na Síria, acusados pelo regime Assad de serem tendenciosos e manipulados politicamente pelo Ocidente. 

Procuradora do tribunal internacional que julgou os responsáveis pela guerra na ex-Iugoslávia, Del Ponte afirmou jamais ter visto algo parecido com a dimensão dos crimes na Síria. Nem mesmo em Ruanda e na Bósnia. Ao lado de Pinheiro, ela vinha insistindo que o caso da Síria precisa ser denunciado pelo Conselho de Segurança da ONU ao Tribunal Penal Internacional, o que nunca ocorreu. 

A Comissão da ONU admitiu que Del Ponte vinha demonstrando insatisfação há algumas semanas e já havia indicado internamente que deixaria o grupo. Numa declaração, a comissão agradeceu Del Ponte por seus "esforços para apoiar a causa da Justiça". 

 

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