Investigadores amadores acham restos dos filhos do czar

Examinando declarações de assassino, eles localizaram as ossadas perto da cova de Nicolau II

Clifford J. Levy, O Estadao de S.Paulo

01 de dezembro de 2007 | 00h00

Nos arredores deste centro industrial, a certa distância de uma estrada como qualquer outra, num pedaço de terra sem nada de especial, desenrolou-se o ato final de um dos eventos mais significativos do século passado.Numa clareira, na direção de uma plantação de videiras, os assassinos depositaram os corpos de suas vítimas, que foram mutilados, queimados e encharcados de ácido para que ficassem desfigurados. Após 73 anos, em 1991, os restos mortais foram recuperados e soou o anúncio - a cova do último czar da Rússia, Nicolau II, e de sua família fora encontrada.Mas a história não termina aqui. Onze pessoas teriam sido mortas naquele dia de julho de 1918 por ordem de Lenin. Mas apenas nove ossadas foram desenterradas aqui e depois autenticadas por meio de exames de DNA. Os restos do filho do czar, Alexei, e de uma filha cuja identidade ainda não está absolutamente clara, permaneciam desaparecidos. Será que suas ossadas estariam em outro lugar ou eles teriam escapado à execução, segundo o rumor que circula há tanto tempo?Somente nos últimos meses essas questões, que datam da Revolução Russa, parecem estar sendo resolvidas e por um grupo de detetives amadores que passaram seus fins de semana investigando o caso. Na realidade, parece que as pistas para descobrir o que aconteceu aos dois filhos do czar sempre estiveram lá, esperando para serem encontradas. Tudo o que faltava era ouvir com mais atenção as declarações orgulhosas dos assassinos.Seus relatos constam em relatórios secretos nos arquivos da era soviética e um deles ofereceu a pista mais interessante - uma única frase do principal assassino pareceu sugerir onde os dois corpos podiam ter sido enterrados."Todos eles queriam deixar um marco na história, pois consideraram que esse foi uma espécie de feito heróico", disse Vitaly Shitov, que mora na região e analisou as declarações dos assassinos para ir atrás dos restos mortais. "Eles queriam promover seus atos."Seguindo essa pequena pista, Shitov e outros investigadores foram no meio do ano até o local onde os outros restos mortais foram encontrados - e continuaram andando. Longe da estrada, a cerca de 70 metros da primeira cova, há uma área ligeiramente elevada entre as árvores. Foi lá que os corpos de Alexei, de 13 anos, e de sua irmã foram enterrados. Os investigadores amadores encontraram as ossadas, parcialmente queimadas, espalhadas entre projéteis e pedaços de frascos que continham o ácido usado para desfigurar os corpos. Esses fragmentos pareciam semelhantes aos encontrados na primeira cova. Portanto, parece que durante todos esses anos desde a primeira descoberta, os restos de Alexei e sua irmã estavam a pouca distância dali.Cientistas russos e americanos estão examinando minuciosamente as novas descobertas. Acredita-se que a irmã seja Maria, de 19 anos, embora não se tenha absoluta certeza. Há anos, outras pessoas conjecturam que a irmã seja Anastácia, de 17 anos, apesar da crença de que ela sobrevivera. Se, como esperado, os resultados dos exames de DNA dos dois conjuntos de ossos forem conclusivos, acabarão com muitas das dúvidas que surgiram na Rússia e no mundo inteiro sobre o que aconteceu à família real. Um dos mais céticos tem sido a Igreja Ortodoxa Russa, que nunca reconheceu a autenticidade das ossadas encontradas aqui, em parte porque acha que os corpos que faltam levantam dúvidas sobre se os nove restos mortais são autênticos.Entre alguns russos e estrangeiros, o destino de Alexei e de sua irmã despertou um grande interesse nos últimos anos, como se a incapacidade de encontrar seus restos e dar-lhes um enterro adequado fosse uma afronta final à família por parte do bolcheviques.Eles repassaram meticulosamente os eventos de 17 de julho de 1918, quando os assassinos mataram Nicolau II, sua mulher, cinco filhos do casal, o médico e três serviçais a facadas e tiros no porão da casa onde estavam sendo mantidos desde que o czar foi obrigado a abdicar.Os assassinos quiseram esconder os corpos para que suas covas não se tornassem ponto de reunião de seguidores do czar. Primeiro, eles lançaram os corpos numa mina e depois os removeram para a cova, longe da estrada. Nos últimos anos, a mina foi vistoriada em busca das duas ossadas que faltavam. As pessoas também fizeram buscas periódicas na área em torno da cova onde a primeira ossada foi encontrada. Depois, Shitov e seus colegas decidiram examinar as declaração do assassino-chefe, Yakov Yurovski. Ele contou como tinha separado os dois corpos, acreditando que se fossem queimados e enterrados em outro local, confundiriam os legalistas que, posteriormente, poderiam procurar 11 corpos e não 9.Mas como "separados"? Os investigadores amadores concentraram-se na expressão que Yurovski usou para descrever a seqüência de eventos do segundo enterro. A expressão "tut zhe" pode significar "nas proximidades", "bem aqui" ou "agora mesmo". Muitas vezes foi interpretada como indicando que a segunda cova estava próxima da primeira.Mas uma outra interpretação surgiu agora. A partir do contexto, os especialistas imaginaram que talvez Yurovski quisesse dizer que a cova estava na área, mas não tão próxima da primeira. Eles também partiram da premissa de que, para queimar os corpos, ele precisou encontrar um local longe do terreno molhado próximo à estrada. Trabalhando nos fins de semana, eles começaram fazendo buscas longe da primeira cova e da estrada e primeiro encontraram os restos da fogueira que teria sido usada para queimar os dois corpos. Serguei Pogorelov, um arqueólogo chamado para supervisionar o trabalho, disse que foram recuperados 15 fragmentos de ossos intactos e mais de 40 pedaços de ossos queimados.Pogorelov ressaltou que muitas das reservas sobre as descobertas do primeiro local surgiram porque a escavação fora feita de forma descuidada. Desta vez, disse ele, foi feita uma escavação profissional e a Igreja Ortodoxa Russa foi convidada para observar.Por enquanto, a Igreja não quer dizer se considera genuínos os restos recém-encontrados, pois espera os exames que faltam. Mas as pessoas que por tanto tempo procuraram os restos dizem esperar que, assim que os resultados chegarem, a Igreja realizará uma cerimônia oficial na Catedral de São Petersburgo para sepultar os remanescentes dos Romanovs. Tradução de Maria de Lourdes Botelho

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