IPCC faz alerta a Brasil, China e Índia

Presidente indiano do comitê pede que os países não repitam erros de desenvolvimento cometidos por nações ricas

Jamil Chade, O Estadao de S.Paulo

13 de outubro de 2007 | 00h00

O presidente do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, pelas iniciais em inglês), Rajendra Pachauri, pediu que Brasil, China e Índia não repitam os erros dos países ricos no desenvolvimento de suas economias nos próximos anos, mas afirmou que ainda não é o momento de estabelecer tetos de emissões de gás carbônico nos países emergentes. Numa entrevista por teleconferência, Pachauri ainda falou sobre a Amazônia, sugeriu a criação de um tratado internacional para garantir a cobertura florestal no planeta e alertou sobre os riscos que a degradação ambiental pode trazer para a paz."As responsabilidades devem ser diferentes para cada país. Ainda há muitas pessoas nesses países emergentes que nem têm acesso à energia. Temos de cuidar para que essas necessidades sejam supridas também", afirmou Pachauri, respondendo a uma pergunta do Estado. Questionado sobre as políticas do governo brasileiro na Amazônia, Pachauri evitou fazer críticas diretas. "Não vou comentar o que o governo brasileiro deve fazer, mas florestas como a Amazônia são as maiores fontes naturais para a captação de carbono. No futuro, devemos ter políticas claras e mesmo um acordo internacional para garantir que a cobertura florestal aumente no mundo e não apenas que o desmatamento seja freado", afirmou.Sobre a questão do etanol, Pachauri disse que os governos precisam analisar com cuidado os efeitos da produção antes de embarcar no projeto. "Devemos analisar com cuidado os efeitos dos biocombustíveis e decidir quais são as melhores opções", disse. Pachauri reconheceu que o etanol pode ter efeitos positivos para o clima, mas alertou é preciso garantir que não haja um conflito com a produção de alimentos.As declarações de Pachauri sobre o Brasil foram contestadas pelo ministro da Defesa, Nelson Jobim. "Da Índia é difícil receber recomendações, inclusive da Europa. Lembrem-se de que eles destruíram tudo", disse Jobim. "Vamos cuidar da Amazônia porque ela é uma questão nossa. Os brasileiros sabem cuidar do que é seu", declarou Jobim, reconheceu, entretanto, que a Amazônia tem impacto sobre o clima de todo o planeta (ler mais na pág. A10).O debate sobre a responsabilidade dos governos está no centro da disputa diplomática em torno de um novo tratado ambiental. O Brasil e outros emergentes se recusam a aceitar obrigações de corte de emissões, alegando que, historicamente, os responsáveis são os países ricos. Para Alemanha, EUA e Japão, sem um teto nas emissões dos emergentes, o problema jamais será solucionado.Pachauri não propôs um teto já, mas disse que isso não significa que os emergentes não devam ter novas responsabilidades. "Os países emergentes não podem repetir o padrão de desenvolvimento dos países ricos nas últimas décadas", ressaltou.Na avaliação do indiano, está na hora de a comunidade internacional pensar num modelo de sociedade com menor emissão de gás carbônico. "Uma das idéias que defendemos é uma taxa sobre o carbono. Se isso for instaurado, as empresas verão o benefício de buscar tecnologias mais limpas e mudar seus padrões. Os consumidores também farão essa opção", disse. Para Pachauri, a tendência é que as condições climáticas e ambientais afetem cada vez mais a estabilidade no mundo e, portanto, se tornem uma ameaça à paz internacional. "Vivemos num mundo muito desigual e injusto. Se além disso temos agora o impacto das mudanças climáticas, os efeitos serão sentidos na própria capacidade de certas populações se manterem vivas."Pachauri disse que o Nobel recebido pela entidade deve ir para todos os 600 cientistas que participaram dos estudos sobre o impacto do clima no mundo. "O prêmio nos dá agora mais responsabilidades para que façamos mais e para que a ciência continue dando explicações", disse.Sobre a premiação de Al Gore, Pachauri afirmou que o americano teve um papel crucial em divulgar a mensagem sobre o clima ao público. "Seu compromisso é o de fazer com que o mundo tenha conhecimento do que está ocorrendo. Para nós, é um privilégio dividir o prêmio com ele", afirmou o indiano. Pachauri afirmou ainda que Gore ligou para ele ontem para comemorar o prêmio e sugeriu uma reunião entre os dois para planejar como poderão trabalhar juntos.

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