REUTERS/Mark Blinch
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Ir para o Canadá valeu o risco, diz jovem saudita refugiada

No país que a acolheu, ela contou ter recebido uma carta da família, na qual foi informada, entre outras coisas, de que eles a renegam como filha; jovem tinha medo de ser morta por parentes na Arábia Saudita

Redação, O Estado de S.Paulo

15 de janeiro de 2019 | 15h41

TORONTO - Rahaf Mohamed al-Qunun planeja estudar, conseguir um emprego e “viver uma vida normal” no Canadá  —coisas que afirmou não poder fazer em seu país natal, a Arábia Saudita, de onde fugiu com medo de ser assassinada pela própria família, disse ela à mídia canadense na segunda-feira, 14.

Estar no Canadá é “uma sensação muito boa” disse ela à rede Canadian Broadcasting Corporation (CBC) dois dias depois de chegar a Toronto de Bangcoc, no sábado.“É algo que vale o risco que eu assumi. Meu maior medo era que (meus pais) me encontrassem", declarou ela em árabe à emissora, em sua primeira entrevista.

Rahaf chamou atenção global na semana passada quando se trancou e se entrincherou em um quarto de hotel dentro do aeroporto de Bangcoc, para não ser enviada de volta à sua família, que nega as acusações de abuso. Rahaf se recusou a se encontrar com seu pai e irmão que foram a Bangcoc para tentar levá-la de volta para a Arábia Saudita.

Ela admitiu ter considerado o suicídio como uma alternativa para escapar da família. "Fiquei trancada durante seis meses, porque cortei o cabelo", explicou, acrescentando que sofria regularmente  "violência física" por parte do irmão e da mãe. "As mulheres sauditas são tratadas como escravas", enfatizou.

O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) concedeu a ela o status de refugiada e o Canadá aceitou recebê-la.

No Canadá, ela contou ter recebido uma carta da família, na qual foi informada, entre outras coisas, de que eles a renegam como filha. Por essa razão, a adolescente pediu para ser chamada apenas de Rahaf Mohammed e, assim, eliminar o sobrenome de sua família, Al-Qunun.

"Muitas pessoas me odeiam, seja da minha família, ou na Arábia Saudita em geral", acrescentou a jovem com voz embargada.

Com a ajuda de uma ONG, ela diz que quer estudar inglês e encontrar um emprego no Canadá. "Senti que não poderia realizar meus sonhos, vivendo na Arábia Saudita", acrescentou, reiterando sua felicidade por ter recebido asilo.

"Eu tive a impressão de que renasci, especialmente quando senti todo esse amor e acolhida", explicou. "Diga aos canadenses que eu os amo", agradeceu.

Opressão

A Arábia Saudita é um dos países mais restritivos do mundo em termos de direitos das mulheres, que estão sujeitas à tutela de um homem (pai, marido, ou outro parente). Essa figura masculina exerce autoridade arbitrária sobre elas e toma decisões importantes em suas vidas. O país exige ainda que mulheres tenham a permissão de um “guardião” masculino para viajar, o que grupos de direitos humanos dizem poder manter mulheres e meninas como prisioneiras de famílias violentas. 

O caso da jovem ocorreu em um período em que muitos olhares se voltam para a questão do respeito aos direitos humanos no país árabe, meses depois do assassinato do jornalista saudita dissidente Jamal Khashoggi, na Turquia.

A decisão do Canadá de fornecer asilo a Rahaf acontece também em um momento delicado entre os dois países. As relações entre Ottawa e Riad têm estado tensas depois que o Canadá exigiu a imediata liberação de ativistas de direitos humanos presos no ano passado. A Arábia Saudita retaliou congelando novas negociações comerciais com Ottawa e forçando muitos de seus estudantes a voltar ao reino./ REUTERS e AFP 

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