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Irã, a 'terra prometida'

Alemanha e França buscam extrair euros às braçadas dos 77 milhões de iranianosA Alemanha foi mais rápida. Apenas cinco dias depois da assinatura, em Viena, após 12 anos de conversações, de um acordo sobre o programa nuclear iraniano, o ministro alemão da Economia e Energia, Sigmar Gabriel, chegava a Teerã à frente de uma delegação de 12 empresários e cientistas.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

31 de julho de 2015 | 02h02

É verdade que as sanções ainda não foram oficialmente levantadas, mas serão. E o alemão antecipou-se a todos os outros concorrentes. Gabriel encontrou-se com o presidente iraniano, Hassan Rouhani, e os industriais alemães saltitavam ao seu redor de olho nos lucrativos contratos que logo assinarão com os iranianos.

Uma rapidez um tanto excessiva, talvez, porque já circula a ideia de que a Alemanha não tem uma política externa, mas apenas uma política econômica. O jornal Süddeutsche Zeitung publicou: "Chegar tarde demais é estúpido, mas se precipitar demais é muito mais". Com alguns dias de atraso, o chanceler francês, Laurent Fabius, chegou a Teerã. Sua viagem terá um estilo diferente da alemão. Fabius não está acompanhado por aquele grupo de grandes empresários (Total, Dassault, Pinault, Bolloré, Renault e Peugeot, Hermès e Airbus) que normalmente orbitam em torno dos ministros franceses quando vão ao estrangeiro.

Fabius quer mostrar que está mais interessados no aspecto "humano" do que no "comercial", no "afeto" do que no "papel-moeda". Ele se sente particularmente obrigado a respeitar essas delicadezas, pois tem um pecado pessoal a ser perdoado pelos iranianos. Durante as complexas negociações entre o Irã, de um lado, e os cinco países do Conselho de Segurança da ONU (EUA, Grã-Bretanha, China Rússia e França) mais a Alemanha, a França, e em especial Fabius, mostrou-se mais exigente, mais desconfiada, ameaçando comprometer o processo que Rouhani queria concluir a qualquer custo para enfrentar as manobras venenosas do chefão dos "ultras" de seu país, o líder supremo Ali Khamenei. Fabius é um diplomata muito sutil.

E há outros obstáculos. O primeiro é o fato de ele ser judeu, o que nunca foi uma boa prerrogativa em Teerã, e a diplomacia francesa nem sempre agrada ao Irã. Duas coisas chateiam os iranianos. Em primeiro lugar, eles gostariam que Paris mostrasse um pouco mais de compreensão com o imprevisível aliado de Teerã, o presidente sírio, Bashar Assad. Em segundo, Teerã deplora o apoio de Paris às potências árabes do Golfo (Arábia Saudita e Emirados Árabes), estas "nefastas" nações sunitas que disputam com os xiitas iranianos o domínio do Oriente Médio.

Resta dizer, é claro, que a Alemanha e a França buscam o mesmo fim: extrair dólares e euros às braçadas desse enorme país de

77 milhões de habitantes, evoluído, culto e burguês. As trocas de Paris com Teerã alcançaram ¤ 4 bilhões, em 2004. Em 2014, elas registraram meros ¤ 500 milhões. Portanto, se Fabius conseguir aplacar as mágoas que Teerã acumulou contra a França, veremos desembocarem por lá os executivos da Peugeot, da Renault, da Total.

Não se deve esquecer que o Irã é grande e poderoso, impaciente para se beneficiar com a paz. Além disso, o levantamento das sanções terá outra consequência suculenta: o degelo dos ativos bloqueados no exterior. Eles representam uma bolada e tanto: US$ 150 bilhões. Os olhos brilham.

/ TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

*Gilles Lapouge é correspondente em Paris 

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