Irã acena com concessões a grandes potências sobre reator de plutônio

Chefe da agência atômica de Teerã afirma que seu país aceitaria discutir 'mudanças no projeto' da instalação de Arak, um dos pontos mais delicados da negociação com as potências ocidentais

Reuters/O Estado de S.Paulo

07 de fevereiro de 2014 | 02h08

TEERÃ - O Irã indicou ontem que pode fazer concessões em um dos pontos mais sensíveis de seu programa nuclear: o reator de plutônio de Arak, a 250 quilômetros de Teerã, que potências ocidentais veem como um "caminho alternativo" ao processamento de urânio para Teerã produzir uma bomba atômica.

A menos de duas semanas do retorno das negociações na Suíça, o chefe da agência nuclear do Irã, Ali Akbar Salehi, citado pela imprensa iraniana, disse que as preocupações do Ocidente com Arak são infundadas, mas que seu país está disposto a ceder em alguns pontos. "Podemos fazer algumas mudanças no projeto para produzir menos plutônio nesse reator e, dessa forma, dissipar e mitigar as preocupações", afirmou Salehi, segundo a mídia local.

O status de Arak será um dos temas mais sensíveis do diálogo que terá reinício no dia 18 entre o Irã e o P5+1, formado pelos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU (EUA, Grã-Bretanha, França, Rússia e China) mais a Alemanha.

Os dois lados chegaram a um acordo provisório em novembro, em um avanço inédito em negociações que se arrastam há uma década. Agora, diplomatas têm seis meses para acertar um pacto definitivo, garantindo que Irã não será capaz de produzir uma bomba, em troca da suspensão das sanções.

O reator de Arak ainda não está pronto e a França impôs como precondição ao acordo firmado em novembro uma moratória nas construções na instalação. Ao final, iranianos se comprometeram a não instalar novos componentes nem produzir combustível para o reator enquanto conduzem o diálogo com as grandes potências.

Autoridades e especialistas ocidentais afirmam que se o Irã só quisesse produzir energia com seu programa nuclear, não precisaria operar simultaneamente reatores de urânio e plutônio. Arak, portanto, seria uma forma de a república islâmica deixar aberto o caminho para militarizar seu programa.

Em depoimento ontem no Congresso dos EUA, a diplomata que chefia as negociações com o Irã, Wendy Sherman, voltou a criticar a ideia de permitir que Teerã obtenha plutônio. "(Os iranianos) não precisam do reator de água pesada de Arak para ter um programa nuclear com fins pacíficos", defendeu Wendy, em sabatina.

O Irã garante que o único objetivo do reator é produzir isótopos médicos - e não material que possa ser usado para fins militares. Instalações como a de Arak usam água pesada (que contém deutério, um isótopo de hidrogênio) e podem produzir plutônio.

Para que esse produto seja convertido em material físsil, usado em uma bomba, ele deve ser submetido a uma usina de reprocessamento - a qual, aparentemente, o Irã não tem, segundo inspetores.

Protesto. Na sabatina no Congresso, os comentários feitos pela negociadora-chefe dos EUA causaram irritação em Teerã. Wendy questionou os motivos que levaram à construção da usina de Fordo, localizada sob uma montanha perto da cidade de Qom e inicialmente mantida escondida de inspetores. Segundo ela, que ocupa o cargo de subsecretária de Assuntos Políticos do Departamento de Estado, o Irã não precisa de Qom para produzir energia.

O ministro das Relações Exteriores de Teerã, Mohamed Javad Zarif, disse que os comentários da americana "não valem nada" e não haverá negociação sobre "a tecnologia iraniana". Ao mesmo tempo, cerca de 200 parlamentares do Irã assinaram um documento em protesto contra as declarações da negociadora e exigiram que o governo responda "à altura", segundo uma TV local.

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