Ebrahim Noroozi/AP
Ebrahim Noroozi/AP

Irã admite ter derrubado avião ucraniano com míssil por erro

Todas as 176 pessoas a bordo da aeronave morreram; Exército diz que responsáveis serão processados e Ucrânia e Canadá cobram punição para responsáveis e transparência nas investigações

Redação, O Estado de S.Paulo

11 de janeiro de 2020 | 01h08
Atualizado 11 de janeiro de 2020 | 19h24

TEERÃ - Após dias de negativa, o Irã admitiu neste sábado, 11, que o avião da Ucrânia que caiu logo após decolar na quarta-feira com 176 pessoas a bordo foi abatido por um míssil iraniano disparado “por erro”, embora tenha culpado o papel da “política aventureira” dos Estados Unidos pela tragédia final.

“Infelizmente, mísseis lançados por erro humano derrubaram o Boeing 737”, afirmou o presidente iraniano, Hasan Rohani, classificando o engano de “imperdoável”. O guia supremo iraniano, Ali Khamenei, apresentou suas condolências às famílias das vítimas e ordenou às forças armadas que remediassem qualquer “negligência”, para que esse tipo de desastre não ocorra novamente. 

A confissão foi uma reviravolta no caso da queda da aeronave. Teerã passou dias afirmando que as teses levantadas por EUA, Canadá e outros países ocidentais - de que o voo havia sido derrubado por um míssil iraniano - eram “sem fundamento”.

 

Agora, o governo iraniano enfrenta o desafio de conter novamente os protestos que começam a se espalhar pelo país

O Boeing caiu em um campo agrícola no oeste de Teerã, pouco depois de decolar do aeroporto internacional da capital iraniana com destino a Kiev. O início do voo coincidiu praticamente com o disparo de uma série de mísseis contra bases iraquianas que abrigam soldados americanos, em resposta à morte do general iraniano Qassim Suleimani, em um ataque de drone americano.

O comandante da seção aeroespacial da Guarda Revolucionária iraniana, brigadeiro-general Amirali Hajizadeh, assumiu a responsabilidade pela tragédia do Boeing, segundo comunicado à televisão iraniana. “Eu preferiria morrer a testemunhar um acidente semelhante”, afirmou o militar do Exército ideológico do regime do aiatolá, antes de explicar que o míssil explodiu próximo ao avião. 

Explicação

“Foi um míssil de curto alcance que explodiu próximo ao avião. É por isso que o avião continuou com seu voo por um momento e explodiu quando atingiu o chão”, acrescentou o general. 

Segundo os militares, um soldado confundiu o avião com um míssil de cruzeiro e teve dez segundos para decidir, ao não conseguiu obter a confirmação de uma ordem de disparo devido a uma “interferência” nas comunicações.

A comunidade internacional pressionava o Irã a permitir uma investigação transparente após a publicação na internet de um vídeo de cerca de 20 segundos, que mostrava imagens de um objeto luminoso que subia rapidamente ao céu e tocava o que parecia ser um avião. O New York Times divulgou o vídeo de celular que mostra a explosão do que parecia ser um avião no céu de Teerã. 

“Alguém pode ter um cometido um erro”, disse o presidente americano, Donald Trump após a divulgação do vídeo pelo New York Times. “Dizem que foi uma falha mecânica. Pessoalmente, não acredito que isso nem sequer esteja em questão. Acho que alguma coisa terrível aconteceu.”

Funcionários americanos haviam dito à rede CNN que o avião teria sido atingido por dois mísseis terra-ar. Um memorando publicado pela IHS Markit, empresa britânica de análises, afirmou que o Boeing “provavelmente foi derrubado por um míssil Tor-M1 da Guarda Revolucionária”.

Fontes dos serviços de inteligência britânicos também haviam confirmado a informação ao jornal Guardian. Imagens de destroços de um Tor-M1 – supostamente capturadas no local da queda – circularam na internet.

A Ucrânia e o Canadá pediram uma prestação de contas depois que o Irã assumiu a responsabilidade pela tragédia. 

“O Irã está muito triste com esse erro catastrófico e, em nome da República Islâmica do Irã, expresso minhas condolências às famílias das vítimas dessa terrível catástrofe”, afirmou o presidente Rohani. 

A chanceler alemã, Angela Merkel, e o premiê britânico, Boris Johnson, afirmaram que a admissão do Irã foi um passo importante e exigiram uma investigação completa e a repatriação dos corpos. 

“Agora precisamos de uma investigação internacional completa, transparente e independente e a repatriação daqueles que morreram", disse Johnson em comunicado. 

Já Merkel lembrou que “176 pessoas inocentes morreram”. “Tudo tem que ser feito agora para encontrar uma solução que atenda os países de onde vieram os passageiros.” 

A maioria das pessoas que estavam a bordo do voo PS752 tinha dupla nacionalidade iraniana e canadense, mas também havia ucranianos (toda a tripulação), afegãos, britânicos e suecos a bordo. / AP, AFP E NYT 

Para Entender

Guia visual para entender a crise entre Irã e Estados Unidos

Desde o ataque um navio petroleiro em junho de 2019, país do Oriente Médio e Estados Unidos vivem escalada de tensão

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.