Antonio Sánchez Solís/EFE
Antonio Sánchez Solís/EFE

Europeus desafiam EUA e avançam em sistema que burla sanções ao Irã

Governo iraniano reconhece progressos em reunião com potências, mas afirma que medidas ainda não são suficientes para deter o processo de enriquecimento de urânio acima do estabelecido em acordo de 2015

Redação, O Estado de S.Paulo

28 de junho de 2019 | 18h14

O Irã reconheceu nesta sexta-feira, 28, que "progressos" foram feitos para auxiliar o país a superar o efeito do restabelecimento das sanções americanas, após a saída dos Estados Unidos do acordo nuclear de 2015. Mesmo assim, os esforços feitos pelos remanescentes países da União Europeia no acordo ainda são “insuficientes” para que o Irã não quebre o pacto estabelecido anteriormente.

"Não acredito que o progresso que alcançamos hoje seja considerado suficiente para deter nosso processo, mas a decisão não é minha", afirmou o vice-ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, após uma reunião com diplomatas das grandes potências europeias e aliados iranianos em Viena, na Áustria.

Alemanha, China, França, Reino Unido e Rússia forneceram mais detalhes sobre o sistema do Apoio à Troca Comercial (Instex, na sigla em inglês), mecanismo que vai permitir operações econômicas entre países europeus e o Irã, contornando as sanções dos EUA.

Segundo Araghchi, o Instex já está em operação. O problema é que países europeus ainda não voltaram a comprar o petróleo iraniano, principal produto de exportação iraniano atingido pelas sanções americanas. Além disso, o Instex ainda não comporta grandes operações, como a própria compra e venda de petróleo.

"Para que o Instex seja útil para o Irã, os europeus devem comprar petróleo ou considerar uma linha de crédito para este mecanismo. Caso contrário, não é o que esperávamos", comentou Araghchi.

Apesar de anunciar um novo encontro dos países entre ministros “para as próximas semanas”, assinalando avanços nas negociações, o representante iraniano frisou que a decisão de aumentar o nível de enriquecimento de urânio e a quantia produzida “já foi tomada” por Teerã, e que o processo será mantido, “a menos que se cumpram as nossas expectativas”. Araghchi também reforçou em depoimento à imprensa que tomadas de decisões são de responsabilidade do governo.

Ruptura

Teerã exige poder exportar seu petróleo para permanecer no acordo nuclear de 2015 e restabelecer o nível de venda anterior a maio de 2018, quando o presidente americano Donald Trump saiu do acordo.

Ao final da reunião nesta sexta, a China disse que continuará a importar petróleo iraniano, apesar da pressão americana. “Não aceitamos a chamada política 'zero' (importação de petróleo iraniano) dos Estados Unidos”, disse à imprensa Fu Cong, diretor-geral de controle de armas do ministério das Relações Exteriores da China. "Nós rejeitamos a imposição unilateral de sanções", acrescentou.

Em meio a tensões entre os EUA e o Irã – uma crise que se agravou no último mês, após ataques iranianos a navios petroleiros no Estreito de Ormuz e a derrubada de um drone americano em solo iraniano, seguido por tentativas de hackear os sistemas de segurança iranianos feita pelos EUA – a intenção de quebrar o acordo nuclear feita pelo Irã é vista como delicada pelos diplomatas.

O acordo nuclear obriga Teerã a produzir no máximo 300 quilos de urânio, enriquecido a 3,67%, utilizado para geração de energia. No dia 17 de junho, o governo iraniano afirmou que dentro de um prazo de 10 dias – vencido na quinta-feira, 27 – estaria com um estoque maior do que o permitido.

O governo assinalou que se encontra a poucos quilos de superar o patamar, o que em todo caso deverá ser confirmado oficialmente pelos inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

Diplomatas que acompanham o trabalho dos inspetores da ONU afirmaram à Agência Reuters que os dados adquiridos por eles sugerem que o Irã ainda não havia ultrapassado o limite do estoque no prazo do dia 27, mas que alcançaria sua meta no fim de semana.

Outro prazo datado para o dia 7 de julho pelo Irã estabelece que a produção estará sendo feita a um nível de enriquecimento de urânio maior do que o estabelecido pelo acordo nuclear. O país pretende chegar ao patamar de 20%. Apesar de ainda ser inferior ao mínimo necessário para fins bélicos – acima de 90% - a intenção não deixa de ser uma ameaça aos EUA e à União Europeia. /EFE, AFP e REUTERS

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.