AP Photo/Ebrahim Noroozi
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Irã ameaça rever sua cooperação com AIEA se for alvo de ‘medidas injustas'

Parlamentares iranianos também disseram que, se sanções forem reimpostas pelas potências, decidirão se a República Islâmica deve permanecer no acordo nuclear de 2015, abandonado por Trump em 2018

Redação, O Estado de S.Paulo

19 de janeiro de 2020 | 18h14
Atualizado 19 de janeiro de 2020 | 19h41

O Irã vai rever sua cooperação com a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) se for alvo de “medidas injustas”, advertiu neste domingo, 19, o presidente do Parlamento iraniano, Ali Larijani, após França, Alemanha e Reino Unido acionarem na semana passada um mecanismo do acordo nuclear de 2015 para acusar formalmente o Irã de desrespeitar o tratado – e abrir caminho para a reimposição de sanções.

“Nós declaramos abertamente que se as potências europeias, por qualquer razão, adotarem um caminho injusto e usarem o mecanismo de disputas, nos reconsideraremos nossa cooperação com a agência nuclear da ONU”, disse Larijani, segundo a TV estatal.

O governo de Teerã tem gradualmente recuado de seus compromissos no pacto em reação às sanções impostas pelos Estados Unidos depois que, em 2018, o presidente Donald Trump tirou o país do acordo nuclear. O Irã disse na semana passada que poderia abandonar os limites no enriquecimento de urânio, apesar de continuar cooperando com a AIEA, que fiscaliza o cumprimento do acordo nuclear e cujos inspetores têm acesso às instalações atômicas iranianas.

O presidente iraniano, Hassan Rohani, arquiteto do pacto nuclear, tem reiterado que os passos que o Irã tem dado em seu programa nuclear podem ser revertidos se a economia iraniana for protegida das sanções econômicas dos EUA.

Segundo o acordo firmado entre o Irã e as maiores potências – Rússia, China, Alemanha, França, Reino Unido, União Europeia e EUA – o governo iraniano concordou em reduzir seu programa nuclear em troca do levantamento das sanções internacionais contra a República Islâmica.

Alemanha, Reino Unido e França disseram desejar que o acordo nuclear seja bem-sucedido e negaram ter cedido à campanha de pressão dos EUA. Um dia após os três países acionarem o mecanismo de resolução de disputas – do Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA, na sigla em inglês) – o jornal The Washington Post publicou na quarta-feira que os EUA tinham ameaçado adotar uma tarifa de 25% sobre os automóveis europeus se o mecanismo que pode reimpor as sanções não fosse acionado. A chanceler alemã, Angela Merkel, disse que realmente os EUA fizeram tal ameaça, mas os países não cederam à pressão e já vinham estudando usar o mecanismo.

Na quarta-feira, Rohani disse que ao acionar o mecanismo de disputa, Reino Unido, França e Alemanha “colocaram o acordo nuclear na UTI”. O presidente do Irã também fez uma ameaça aos europeus: “Hoje, o soldado americano está em perigo, amanhã o soldado europeu pode estar em perigo”, afirmou Rohani, sem dar mais detalhes.

Para Entender

Os detalhes do acordo nuclear negociado em 2015 com o Irã

Teerã e o grupo P5+1 (EUA, Grã-Bretanha, França, Rússia, China mais Alemanha) colocaram fim ao impasse de anos sobre o programa nuclear iraniano

Um grupo de deputados iranianos firmou neste domingo uma declaração advertindo as potências europeias a “para com suas ações hostis” com relação a Teerã, disse a agência semioficial Tasnim. “Caso contrário, nós, representantes do Irã, decidiremos se o país deve permanecer no acordo nuclear ou se mantém sua cooperação com a AIEA.”

O líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, não o Parlamento, é quem tem a última palavra sobre questões de Estado, como o impasse nuclear entre Teerã e o Ocidente.

A agência Tasnim não informou quantos deputados assinaram a declaração, que também pediu ao governo considerar a redução de seus laços diplomáticos com o Reino Unido, após funcionários iranianos acusarem o enviado britânico a Teerã de participar dos protestos contra o governo do Irã, algo que ele negou.

Os iranianos vêm protestando contra o governo desde que um avião da Ukraine International Airlines foi derrubado por um míssil do Irã por engano. O governo inicialmente disse que não tinha nada a ver com a queda, que matou as 176 pessoas a bordo, mas quatro dias depois admitiu que era responsável pelo acidente. O míssil foi disparado contra o avião horas após Teerã lançar um ataque contra bases no Iraque usadas pelas tropas americanas em represália ao assassinado em Bagdá ordenado por Trump do general Qassim Suleimani, comandante das Forças Quds.

Teerã volta atrás sobre envio de gravadores a Kiev

O Irã está tentando examinar as caixas-pretas do avião da Ukraine International Airlines, que ia de Teerã para Kiev e seus militares derrubaram no dia 8, informou neste domingo a agência de notícias estatal Irna, desmentindo a informação de que os gravadores do avião estavam sendo enviados para a Ucrânia.

Todas as 176 pessoas que estavam no avião morreram. O Canadá, que tinha 57 cidadãos a bordo, e outros países que também perderam cidadãos disseram que os dados do voo e gravadores de voz devem ser analisados no exterior.

O desastre aéreo aumentou a pressão internacional sobre o Irã, num momento em que o país lida com uma longa disputa com os EUA sobre seu programa nuclear e sua influência na região. As autoridades iranianas demoraram quatro dias em admitir que haviam derrubado o Boeing 737-800 por engano.

“Estamos tentando ler as caixas-pretas aqui no Irã. Caso contrário, nossas opções são Ucrânia e França, mas ainda não foi tomada nenhuma decisão para enviá-las para outro país”, afirmou à Irna o diretor encarregado de investigações de acidentes na Organização de Aviação Civil do Irã, Hassan Rezaifar.

Ele foi citado no sábado pela agência semioficial Tasnim, dizendo que as caixas-pretas não poderiam ser decodificadas no Irã e seriam enviadas para a Ucrânia após repetidos pedidos de Kiev. Não ficou claro o que levou Rezaifar a voltar atrás.

A Ucrânia disse anteriormente que esperava que os gravadores fossem entregues a ela, enquanto o primeiro-ministro canadense, Justin Trudeau, disse que a França era um dos poucos países com capacidade de ler as informações das caixas-pretas.

Vítimas ucranianas. Milhares de pessoas foram receber neste domingo, 19, os 11 ucranianos que morreram no acidente da Ukraine Airlines, cujos corpos foram repatriados pelo Irã. O presidente Volodmir Zelenski, o primeiro-ministro Oleksi Goncharuk e outras autoridades assistiram à cerimônia solene no Aeroporto Boryspil, em Kiev.

Zelenski colocou flores sobre os caixões dos nove tripulantes e dois passageiros ucranianos e conversou brevemente com as famílias das vítimas. Os caixões, envoltos em bandeiras ucranianas azuis e amarelas, foram transportados por guardas de honra que também levaram bandeiras dos outros países de origem das vítimas. O funeral está programado para esta segunda-feira, 20. / REUTERS, AFP 

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