Irã anuncia que já produz urânio concentrado

Declaração mostra que país já dominaria o ciclo completo de enriquecimento e pressiona Ocidente às vésperas das negociações que começam hoje em Genebra

Jamil Chade CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

06 de dezembro de 2010 | 00h00

O Irã deu ontem um claro sinal de que não desistirá de seu programa nuclear ao anunciar ter enviado o primeiro lote de urânio produzido no país a uma de suas usinas que pode enriquecê-lo. Teerã se tornaria, pela primeira vez, autossuficiente na produção completa do ciclo do combustível nuclear, driblando as sanções da ONU, que proibia a importação do material.

Segundo o chefe do programa nuclear iraniano, Ali Akbar Salehi, o país passou a utilizar urânio da mina de Gaichin. O material seria enviado para ser enriquecido na cidade de Isfahan, em um passo significativo de seu programa atômico e uma demonstração de que o país não ficará dependente de fornecimento de urânio do exterior.

A declaração foi feita às vésperas da primeira negociação entre Teerã e os cinco membros do Conselho de Segurança da ONU (França, Rússia, Grã-Bretanha, EUA e China) mais a Alemanha, hoje em Genebra, depois de mais de um ano de impasses. Fontes do governo iraniano revelaram ao Estado que o país chega com a intenção de defender a retomada do acordo negociado entre o Brasil e a Turquia, em maio, que havia sido rejeitado por europeus e americanos.

De acordo com diplomatas iranianos, anunciar que já dominam o ciclo do combustível completo, portanto, ajudaria a pressionar Washington e Bruxelas a considerar o plano assinado por Luiz Inácio Lula da Silva como o mais viável hoje.

"A partir de agora, o Irã já não terá problemas no abastecimento de urânio", disse Salehi. Para o chefe do programa nuclear do Irã, o assassinato, na semana passada, de um alto cientista nuclear do país e dos inúmeros ferimentos causados a outro em duas explosões não atrasarão o avanço atômico iraniano. "Não importa o quanto eles se esforcem para impor sanções. Nossas atividades nucleares continuarão e eles testemunharão feitos muito importantes no futuro."

Em fevereiro, o governo iraniano já havia desafiado as organizações internacionais e a pressão do Conselho de Segurança ao anunciar que daria inicio à produção de urânio enriquecido. Ontem, Teerã indicou que, desde então, já produziu mais de 35 quilos de urânio enriquecido a 20%. A produção, contudo, poderia dobrar se fosse necessário.

Agora, o país teria alcançado a autossuficiência na produção de pó de óxido de urânio concentrado, conhecido como Yellow Cake, e considerado como fundamental para a geração do combustível nuclear. Após ser processado em centrífugas por separação isotópica, o pó tem a possibilidade de ser transformado em hexafluoreto de urânio (UF6), essencial no processo de enriquecimento e vital no eventual desenvolvimento de armas atômicas. Na prática, a dependência na importação do material estaria rompida, o que daria maior autonomia para o funcionamento das usinas nucleares.

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