Leonhard Foeger/REUTERS
Leonhard Foeger/REUTERS

Irã avisa a AIEA que acelerará o enriquecimento subterrâneo de urânio

Medida viola o acordo do país com grandes potências, segundo relatório de vigilância nuclear da ONU

Redação, O Estado de S.Paulo

04 de dezembro de 2020 | 15h17

O Irã planeja instalar mais centenas de centrífugas de enriquecimento de urânio avançadas em uma usina subterrânea, em violação de seu acordo com as grandes potências, um relatório de vigilância nuclear da ONU mostrou na sexta-feira, 4, um movimento que aumentará a pressão sobre o presidente eleito dos EUA, Joe Biden.

O relatório confidencial da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) obtido pela Reuters disse que o Irã planeja instalar mais três cascatas, ou clusters, de centrífugas IR-2m avançadas na planta subterrânea de Natanz, que aparentemente foi construída para suportar bombardeios aéreos.

O acordo nuclear do Irã com grandes potências diz que Teerã só pode usar centrífugas IR-1 de primeira geração, que são menos eficientes, na usina subterrânea e que essas são as únicas máquinas com as quais o Irã pode acumular urânio enriquecido.

O Irã mudou recentemente uma cascata de 174 máquinas IR-2m para o subsolo em Natanz e está enriquecendo com isso. Já está prevista a instalação de mais duas cascatas de outros modelos avançados ali, além das 5.060 máquinas IR-1 que enriquecem há anos na planta.

“Em carta datada de 2 de dezembro de 2020, o Irã informou à Agência que o operador da Fábrica de Enriquecimento de Combustível (FEP) em Natanz 'pretende iniciar a instalação de três cascatas de máquinas centrífugas IR-2m' na FEP”, informa a AIEA ao seu estados membros disse.

O Irã violou muitas das principais restrições do acordo sobre suas atividades nucleares em resposta à retirada do presidente dos EUA, Donald Trump, do acordo e sua reimposição de sanções econômicas paralisantes. Teerã diz que suas violações podem ser revertidas rapidamente se as medidas de Washington forem desfeitas.

Biden, que assumirá o cargo em 20 de janeiro, disse que trará os Estados Unidos de volta ao acordo se o Irã retomar o cumprimento total de suas restrições nucleares. Isso levanta a possibilidade de um impasse sobre quem deve agir primeiro.

Enriquecimento mais rápido

O Irã transferiu a cascata já em operação de IR-2ms subterrânea de uma planta acima do solo em Natanz, onde apenas um punhado dessas máquinas permanece, disse a AIEA. As cascatas extras, portanto, teriam que envolver algumas das centenas de máquinas IR-2m removidas e armazenadas no acordo de 2015.

Embora a primeira cascata não tenha aumentado a produção de urânio enriquecido do país porque ele já estava enriquecendo acima do solo, as cascatas extras sim.

O último relatório trimestral da AIEA sobre o Irã no mês passado mostrou que Teerã tinha estocado 12 vezes os 202,8 kg de urânio enriquecido que é permitido no acordo, mais de 2,4 toneladas.

Isso ainda é uma fração das mais de oito toneladas que tinha antes do acordo histórico de 2015 e não enriqueceu o urânio com uma pureza de mais de 4,5% desde então. Alcançou 20% antes de 2015, mais perto dos 90% do urânio para armas.

As agências de inteligência dos EUA e a AIEA acreditam que o Irã tinha um programa de armas nucleares clandestino coordenado que foi suspenso em 2003, ano em que a construção secreta de Natanz foi revelada por um grupo de oposição no exílio.

O acordo visa manter o Irã à distância de ser capaz de produzir uma bomba nuclear. Diz que nunca tentou./Reuters

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