Irã caminha entre modelo chinês e soviético

O que o Irã mais teme é uma figura como Mikhail Gorbachev, alguém de dentro do regime que, em nome do compromisso com o Ocidente, acabe comprometendo a revolução e destruindo todo o seu edifício. A disputa por influência antes das eleições presidenciais de 12 de junho - as mais importantes do mundo depois da recente votação nos EUA - deve ser enxergada por meio desse prisma. O debate fundamental gira em torno da seguinte questão: poderá o Irã submeter-se a uma reforma do tipo da empreendida pela China, preservando sua hierarquia islâmica durante a mudança, ou a abertura para os EUA acabará se igualando à implosão ao estilo soviético? Os slogans "Morte aos EUA" ou "Morte a Israel", repetidos nos comícios, parecem uma resposta adequada. O regime se aterá ao jogo que já conhece. O Irã, porém, raramente é o que parece e sempre faz de tudo para mascarar sua complexidade. No governo do presidente Barack Obama, a política americana para o Irã deverá basear-se em um trabalho de persuasão do aiatolá Ali Khamenei, líder supremo, de que envolvimento não significa extinção. É essa a chave da teocracia persa presidida por Khamenei. Seu governo, no entanto, não chega a ser absoluto. Khamenei é o maior acionista minoritário (embora um acionista detentor de ações preferenciais concedidas por Deus) de um sistema em que a repressão e as liberdades conseguidas com enorme esforço rivalizam entre si, como o autoritarismo e a democracia. E assim chegamos às cruciais eleições de junho e ao ex-presidente Mohamed Khatami, reformista outrora considerado o futuro Gorbachev do Irã - algo que ele não era. Seu mandato presidencial, de 1997 a 2005, decepcionou muitos iranianos. Na hora de romper, ele recuou. Os protestos estudantis de 1999 e 2003 morreram antes de ganhar força. No entanto, a reforma que liberalizaria a economia e o diálogo constituíram a marca de Khatami, da mesma forma como a má administração tem sido a de seu sucessor e favorito nas eleições, Mahmud Ahmadinejad. Khatami calou os boatos que vinham crescendo havia dias ao afirmar que "a exigência histórica (do Irã) por liberdade, independência e justiça" obrigou-o a candidatar-se. Foi significativo o fato de ele ter colocado em primeiro lugar a liberdade, uma promessa não cumprida da revolução que arrancou do poder o xá Reza Pahlevi. Segundo uma teoria, Ahmadinejad seria favorável à ?glasnost? iraniana em resposta a Obama, por acreditar que não seria a teocracia iraniana que entraria em colapso, e sim os EUA. Ele foi influenciado pelos sinais de que o capitalismo segue o comunismo no monte de lixo da História. Mas não estou convencido de que, em algum momento, ele possa desviar-se da linha dura.A Revolução Iraniana, que completou 30 anos, tem em seu cerne a independência. O recente lançamento do primeiro satélite feito no país, assim como o polêmico programa nuclear, tem a ver com o orgulho nacional iraniano. Abrir o sistema, sem derrubá-lo - o provável objetivo dos EUA - exige uma considerável indulgência em relação a esse orgulho. O tempo de mudança para os jovens iranianos, portanto, ocorre muito antes das eleições de 12 de junho. * Roger Cohen é colunista

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