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Iranianas celebram os 40 anos da Revolução Islâmica   AP Photo/Vahid Salemi

Irã celebra 40 anos da Revolução Islâmica 

Em 11 de fevereiro de 1979, depois que as tropas se retiraram das ruas, a rádio de Teerã anunciou em um histórico boletim: 'Esta é a voz do verdadeiro Irã, a voz da Revolução Islâmica'

Redação, O Estado de S.Paulo

12 Fevereiro 2019 | 05h03

TEERÃ - O triunfo da Revolução Islâmica completou 40 anos na segunda-feira, 11, momento em que foi estabelecido no Irã um sistema teocrático que resiste no poder apesar das pressões dos Estados Unidos e de algumas potências regionais e do descontentamento de parte dos cidadãos.

Os protestos contra o xá Mohammad Reza Pahlevi (1941-1979) se agravaram em janeiro de 1978 na cidade santa de Qom, depois que o jornal Etelat publicou um artigo denunciando que o aiatolá Ruhollah Khomeini não era de origem iraniana e levava um estilo de vida libertina.

Os estudantes dos seminários de Qom saíram às ruas e enfrentaram a polícia, combates que terminaram com dois mortos, segundo o regime de Xá, e com 70 mortos, de acordo com os opositores.

"Qom representa a origem da revolução e seus seminários são a coluna Espiritual do movimento que sacudiu o mundo", afirmou no mês passado o líder supremo do Irã, Ali Khamenei.

Ao clero se uniram em breve os bazaris - donos dos comércios dos bazares, fundamentais na economia da época -, o que supôs um grande impulso ao levantamento contra a monarquia, liderada também por partidos esquerdistas como Frente Nacional, Tudeh e Fedayin.

O seguinte banho de sangue ocorreu em setembro de 1978, no chamado Black Friday, quando as forças de segurança abriram fogo contra os manifestantes que gritavam em Teerã "o xá tem de sair".

Segundo um relatório da Fundação de Mártires do Irã, mais de 2,7 mil manifestantes morreram entre outubro de 1977 e fevereiro de 1979, a maioria na capital.

Mohammad Reza Pahlevi fugiu finalmente do país em 16 de janeiro de 1979 e em 1º de fevereiro desse ano, Khomeini retornou ao Irã, quando conseguiu a renúncia do governo de Shapur Bakhtiar, nomeado pelo Xá.

Em 11 de fevereiro de 1979, depois que as tropas se retiraram das ruas, a rádio de Teerã anunciou em um histórico boletim: "Esta é a voz do verdadeiro Irã, a voz da Revolução Islâmica".

Sobre o papel "proeminente" das Forças Armadas, Khamenei garantiu em recente discurso que "uma das bençãos da revolução foi que o Exército se uniu ao movimento da nação".

Por sua vez, o presidente iraniano, Hassan Rohani, definiu há poucos dias a Revolução Islâmica como "a vitória do bem sobre o mal, e da democracia sobre a ditadura".

"A Revolução Islâmica foi uma esperança para os oprimidos e um terremoto para os EUA e os sionistas (Israel)", ressaltou Rohani, que criticou as atuais pressões de Washington contra o Irã.

Os EUA, que romperam relações diplomáticas com o Irã em 1980 após o ataque à Embaixada em Teerã e a tomada de 52 funcionários americanos como reféns, voltou no ano passado a impor sanções ao país.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, decidiu restaurar as sanções e deixar o acordo nuclear multilateral de 2015, enquanto alguns responsáveis de sua administração falaram às claras de uma mudança de regime no Irã.

Também se opõem com firmeza ao sistema teocrático iraniano potências do Oriente Médio como Israel e Arábia Saudita, com as quais Teerã trocou ameaças bélicas.

Além das pressões externas, no interior do país a situação também não é muito encorajadora. A crise econômica fomentou protestos esporádicos, os mais fortes há um ano, que derivaram em críticas contra o sistema.

Por enquanto, qualquer esforço da oposição foi aplacado pelas autoridades, embora sem chegar à repressão registrada depois da vitória da revolução, quando foram detidos e executados vários dirigentes e simpatizantes dos partidos esquerdistas contrários à deriva islâmica do sistema.

Restrições

Ao crescente papel dos clérigos na tomada de poder após a aprovação em referendo em abril de 1979 do sistema da República Islâmica, uniu-se a censura de jornais e a obrigatoriedade do uso do véu às mulheres, entre outras restrições.

O primeiro-ministro interino, Mehdi Bazargan, afirmou que na realidade quem governava era Khomeini e renunciou ao cargo após a tomada da Embaixada dos EUA. / EFE

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Brasil perdeu negócio envolvendo petróleo e soja após a Revolução Islâmica, lembra diplomata

Em 1979, o então encarregado de negócios tornou-se o responsável pela Embaixada do Brasil no período mais turbulento da história recente do Irã

Entrevista com

Sergio Florêncio Sobrinho

Renata Tranches, O Estado de S.Paulo

03 Fevereiro 2019 | 05h00

Em começo de carreira, o diplomata Sergio Florêncio Sobrinho estava em Ottawa quando soube que seu próximo posto, seu segundo, seria Teerã. Com 32 anos, mulher e dois filhos, mudou-se para a capital do Irã em 1977 sem ter ideia do que o aguardava. Quando estourou a revolução, dois anos mais tarde, o então embaixador brasileiro, Aluysio Regis Bittencourt, próximo da família imperial, foi retirado do país pelo Brasil, que decidiu não mandar ninguém até que a situação se acalmasse.

Assim, o jovem encarregado de negócios tornou-se o responsável pela embaixada do Brasil no período mais turbulento da história recente do Irã. Viveu dias de tensão quando, em dois momentos, teve de retirar do país sua família do país. Sem saber, jantou na embaixada canadense na sala ao lado de onde estavam os americanos que se refugiaram ali para escapar da tomada da embaixada americana pelos estudantes iranianos.  

Hoje, profundo conhecedor de Oriente Médio e professor do Instituto Rio Branco, a escola de formação de diplomatas brasileiros, Florêncio diz não concordar com a transferência da Embaixada do Brasil para Jerusalém, tema polêmico da nova política externa comandada pelo chanceler Ernesto Araújo, que foi seu aluno. “Essa decisão é desastrosa”, disse, em entrevista ao Estado

Qual era o clima que o sr. encontrou quando chegou a Teerã, em 1977? 

Naquele ano, o clima era de um país hiperocidentalizado, de um lado. Fomos a uma casa noturna e nunca tinha visto tantos casacos de pele, joias. Mas aí era só dar dois passos para o lado e só se via miséria. Era muito contrastante, uma distância cultural enorme entre ricos e pobres. 

Havia alguma ideia do que estava para acontecer? 

No meu jantar de despedida (em Ottawa), meu embaixador disse que eu estava indo para o país mais seguro do Oriente Médio. Era o mais seguro mesmo, o xá Reza Pahlevi era o grande aliado dos EUA. Esse embaixador, Heraldo de Carvalho Silva, era conhecido por ser extremamente inteligente, bem informado. Depois, quando aconteceu toda a confusão da revolução, eu pensei: “nossa”. Naquela época, ninguém poderia prever que haveria uma revolução iraniana. 

Essa discrepância social contribuiu para a revolução? 

Foi um dos motores, entre vários. O primeiro deles é que o Irã era um país com um potencial de crescimento, de industrialização muito maior do que os outros do Oriente Médio. Pelo tamanho, pela população, pela história, por várias razões. O xá nunca teve uma base popular muito grande. Ele decidiu se legitimar pela economia. Ele promoveu um crescimento econômico, uma industrialização, mas essa industrialização acabou beneficiando muito pouco a população. De qualquer forma, havia um crescimento econômico. 

Houve um descontentamento? 

Na metade dos anos 70, esse crescimento desacelerou e começou a gerar desemprego. Houve um fator econômico que contribuiu para isso. Foi um crescimento econômico acelerado, mas socialmente excludente, que deixou de fora os bazaris, que eram os grandes comerciantes dos bazares que tinham muito contato com a população. Indignados com essa industrialização do xá, que só beneficiava um grupo, eles se tornaram uma classe fundamental para alimentar a revolução. Além do mais eram eles quem financiavam as mesquitas, tinham uma ligação muito forte com a hierarquia religiosa, com os aiatolás. 

O sr. percebeu algo antes da revolução? 

Quando eu cheguei, não havia nenhum sinal de revolução. O que o embaixador tinha dito era verdade. Era um país com um crescimento econômico acelerado, industrialização, modernização, ocidentalização, tudo era exemplo de crescimento. Só que o que eu notava era uma oposição muito grande dos jovens e estudantes a esse rumo que o país seguia, que enriquecia, mas excluía. E, ao mesmo tempo, era muito repressivo. 

Como era essa repressão? 

A polícia secreta do xá, a Savaki, era conhecida, ao lado da israelense, como uma das mais repressoras do mundo. Havia um movimento estudantil muito forte contra o xá. Por acaso, eu tinha feito mestrado em economia no Canadá onde fiz um grande amigo, que era iraniano. Somos grandes amigos até hoje. Ele fazia parte de um grupo de estudantes que, nos EUA e no Canadá contribuíam para um movimento de deposição do xá, fora do Irã. Quando terminamos o mestrado, ele voltou para o Irã, por coincidência eu também fui. Ele foi um dos integrantes do movimento da revolução, no início, e chegou a ser preso pelo xá.

Por quanto tempo?

Foram quase dois meses e meio. Quando saiu, ele estava mal, porque sofreu tortura e tudo mais. É incrível como, na história, a revolução come seus próprios filhos. Esse é um exemplo bem concreto. Ele lutou pela revolução, foi preso. Depois, um tio dele, que era um grande intelectual iraniano, reconhecido, professor da Souborne, voltou para o Irã na revolução e foi nomeado ministro da Educação (pelos aiatolás). Mas a revolução foi deixando de ser antidéspota, liberal, democrática, como era no começo. Esse tio não só foi afastado do cargo, como também preso e torturado pela revolução. 

Antes da revolução, quem era Khomeini para os iranianos? 

Na pré-revolução, ele era a grande esperança, o líder carismático que tinha o apoio dos liberais. Era visto como uma figura iluminada, o grande líder espiritual, o líder político que ficava acima da estrutura partidária e simbolizava todas as aspirações do país de igualdade, de autonomia com relação às superpotências. Ele era a grande esperança de todos, uma explosão daquela elite que era muito identificada com o xá. Ele dizia que iria fazer uma revolução islâmica, mas quando perguntavam o que era essa revolução, ele falava, falava, e ninguém entendia. Ninguém sabia se era uma revolução democrática, religiosa, uma teocracia. Ele conseguiu não definir com clareza e isso contribuiu muito para a vitória da revolução. 

E depois? 

Ele teve todo o povo com ele e, uma vez vitoriosa, a revolução começou a abandonar aqueles princípios democráticos, de direitos humanos, de liberdade de imprensa, de liberalismo político, isso foi sendo sistematicamente ceifado da agenda política. A revolução foi tomando esse curso mais excludente e dominada por essa hierarquia religiosa que resultou em muitas injustiças, perseguições e num radicalismo político. 

 

Como eram as relações com o Brasil? 

Na época, o Brasil exportava carne, soja, material bélico para o Iraque, isso antes da guerra (Irã x Iraque). O Brasil importava muito petróleo então tinha uma política inteligente de fazer uma troca em que importava o petróleo e, para compensar, exportava soja, frangos, Passats, tanques de guerra, material bélico. Quando veio a revolução, e depois a guerra, o Brasil era criticado pelo Irã. Eles (regime) me chamavam lá para explicar por que o Brasil estava fornecendo arma para o inimigo. Eu explicava que era uma política comercial. 

 

​No mesmo ano da revolução, houve a tomada da embaixada americana. O sr. teve medo? 

Houve dois momentos de grande apreensão. Quando a revolução foi vitoriosa, no início de 79, o país se tornou um caos. Era difícil de comprar alimentos, tinha filas para comprar coisas básicas, havia restrição de fornecimento de gasolina, era uma vida bem complicada e ameaçadora. Quando o xá caiu, sem resistência, já que não houve nenhuma facção do Exército que se aliou a ele, a população tomou os quartéis. Houve uma imensa distribuição indiscriminada de armas, que criou um clima de insegurança imenso. Havia várias facções revolucionárias, cada uma seguindo uma linha e todas armadas. Houve muitos assassinatos de representantes de comitês revolucionários por outros grupos. Diante desse clima, os países decidiram retirar os parentes dos diplomatas. Essa foi a primeira grande retirada. Saíram minha mulher e meus filhos, já com o bebê (filho que nasceu em Teerã). Eles saíram pelo aeroporto, que ainda estava aberto, apesar de caótico. Eles ficaram seis meses fora, a revolução se estabilizou um pouco e eles voltaram. 

 

E quando ocorreu a outra? 

Depois veio a guerra Irã-Iraque e começou de novo bombardeios, gente dizendo que os americanos iriam invadir o país. Com essa insegurança, as famílias foram retiradas pela segunda vez. Mas dessa vez o aeroporto estava fechado e as únicas opções eram as saídas via terrestre pela Turquia, que era perigosíssimo por ser dominada por bandos armados. Era um risco monumental. A saída pelo sul, passando pelo Iraque, também era super arriscado. A outra via, Paquistão, também tinha muitos grupos guerrilheiros. Eu optei pela saída mais segura, que era via União Soviética. Minha família e a de diplomatas de outros países. Fomos de carro até o Mar Cáspio. Lá, eles pegaram um barco que levou 13 horas até Baku, na União Soviética, que hoje é a capital do Azerbaijão. O Itamaraty não queria que saíssemos via URSS. Mas eu queria o que fosse mais seguro para meus filhos e minha mulher. Eu me despedi no Mar Cáspio e fiquei, como se diz, a ver navios. Acabei desobedecendo, mas foi o mais seguro. A maioria das pessoas foi por essa rota mais segura. Eles ficaram mais seis meses no Brasil e depois voltaram e ficamos juntos até abril de 81 (quando deixou o posto e voltou para Brasília). 

 

Como foi para sua família a tomada da embaixada? 

As embaixadas americanas em geral tem uma espécie dutty free para os americanos, mas permitem que outros diplomatas e suas famílias comprem lá. Uma semana antes da tomada dos reféns, minha mulher e outras amigas de outros países, estiveram lá na embaixada. Por uma semana ela teria sido presa. 

Qual foi o sentimento? 

Agora é história, mas na época ela ficou super nervosa. 

 

O que houve depois? 

Virou uma espécie de peregrinação político-religiosa, porque a embaixada era um símbolo da 'luta do bem contra o mal'. Eram os religiosos, os aiatolás, contra o grande Satã, os EUA. 

O sr. sabia da fuga dos reféns para a Embaixada do Canadá? 

Como eu tinha servido no Canadá, quando fui para o Irã, fiquei naturalmente amigo dos diplomatas canadenses, tínhamos uma história comum. O embaixador (do Brasil) já tinha saído e eu era o encarregado de negócios. Nesse posto, eu era convidado para as solenidades, eventos, etc. O embaixador do Canadá me convidou para uma reunião. Era um jantar que eu não sabia, ninguém sabia, mas os reféns, que aparecem em (filme) Argo, estavam lá dentro da embaixada. Eu jantei com eles, embora eles estivessem invisíveis. O embaixador estava preocupadíssimo, a empregada desconfiada. 

Como foi a experiência para o sr.? 

Até o Irã, eu pensava em ir para a universidade dar aula, mudar de profissão, porque eu gostava do trabalho, mas achava o Itamaraty muito político, que não ia dar muito certo. Mas depois que eu passei por essa experiência no Irã, aí eu não tive dúvidas sobre minha profissão. 

 

O Brasil rompeu relações com Teerã? 

Não. Na verdade, os países mais identificados com a revolução iraniana, naturalmente, substituiriam seus embaixadores. Quando se coloca um encarregado de negócios, o país está reduzindo o prestígio (das relações). Mas isso foi natural, porque havia muita instabilidade. 

 

​O sr. foi os olhos do Brasil em Teerã durante a revolução. 

É verdade. O pessoal da Petrobras (na época) tinha grande interesse no Irã porque como era o país no Oriente Médio que mais crescia, que tinha maior potencial econômico de exportação, muito dinheiro e se industrializava rapidamente. Houve um acordo entre dos dois países no qual o Brasil aumentaria suas compras de petróleo iraniano de forma bastante acelerada. Em troca, o Irã compraria soja, frango. O Brasil participaria da construção de hidrelétricas no Irã e isso era um grande projeto para a época. O Brasil aumentaria muito as compras de petróleo. 

Aumentaria em quanto? 

Nós comprávamos somente 5% das nossas necessidades do Irã e chegaríamos a comprar até 25% em troca de o Irã importar os produtos brasileiros. A Petrobras, por meio da Braspetro e da Interbras, que era o braço comercial da empresa, era fundamental nesse projeto. A coisa ia bem, só que veio a revolução e o Irã deu um corte substancial nas exportações de petróleo. Essa foi uma medida muito radical e não fazia muito sentido econômico. Mas eles cortaram, e o Brasil ficou desesperado. 

 

O que aconteceu em seguida? 

Esses contratos de petróleo de longo prazo têm um preço baixo. Quando não se tem esses contratos, é preciso ir aos chamados mercados spot, um mercado livre, nos quais o preço do petróleo é muito maior. A Petrobras estava desesperada porque naquela época, um pouco antes, tinha havido o primeiro choque do petróleo, que fez quadruplicar o preço do barril. 

 

A Petrobras perdeu todos os contratos? 

Na verdade, o Irã cortou muitos desses acordos e mesmo aqueles que ficaram foram muito reduzidos.

 

Esse rompimento foi a maior consequência para o Basil da revolução? 

Foi sim, em termos comerciais, porque tínhamos um potencial de desenvolvimento, de exportação de produtos agrícolas e de veículos. O Brasil começou a exportar alguns produtos industrializados naquela época. Certamente teve um impacto sim. 

 

Em algum momento chegamos perto do que foi?

O Irã retraiu muito, andou muito para trás, se pensarmos em termos econômicos, com retrocesso político. Mas passamos a ter uma relação muito correta com o Irã, embora nesse começo, até em função da guerra Irã-Iraque, o Brasil não fosse bem visto. 

 

Como o sr. definiria hoje as relações entre Brasil e Irã? 

No começo, inevitavelmente, as relações ficaram tensas, mas o Brasil até recentemente sempre teve uma política de aproximação com os países em desenvolvimento, no Oriente Médio. O país sempre foi muito respeitado entre os países árabes e islâmicos, com uma presença comercial de peso na região. A relação com o Irã foi ganhando peso e o Brasil se projetava cada vez mais em termos de presença internacional. Depois da revolução, o Irã precisava melhorar sua imagem e recuperar um pouco mais de credibilidade. O Brasil, com exceção desse começo, sempre foi considerado um país importante para o Irã se projetar na América Latina, na diplomacia multilateral, foi uma relação que evoluiu muito positivamente, na medida em que o país se desenvolvia. Com todos os problemas que a revolução gerou, o Brasil nunca foi um antagonista da revolução. Comercialmente, nós expandimos muito nosso comércio com o Irã.

O sr. acha que mudar a embaixada do Brasil para Jerusalém pode afetar essa relação? 

Essa decisão é desastrosa. Eu tenho certeza de que não vai ser implementada. Isso não faz sentido, não chegaremos a esse ponto, se Deus quiser. É um ponto de inflexão exatamente negativo em todos os sentidos. Vamos perder muito e não vamos ganhar nada. 

 

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Para manter sua independência, o Irã teve de pagar caro, afirma embaixador

Segundo embaixador do Irã no Brasil, escolhas do novo governo brasileiro, que o aproximaram de Israel, não devem afetar relações com Teerã

Entrevista com

Seyed Ali Saghaeyan

Renata Tranches, O Estado de S.Paulo

03 Fevereiro 2019 | 05h00

Para manter sua independência, a República Islâmica "teve de pagar caro" desde a Revolução de 1979, afirma, em entrevista ao Estado, o embaixador do Irã no Brasil, Seyed Ali Saghaeyan. "Os EUA tentaram criar atritos e desentendimentos étnicos e religiosos, projetaram vários golpes de Estado, impuseram a guerra de oito anos no período de Sadam Hussein e, enfim, impuseram injustos embargos econômicos, tudo com a finalidade de enfrentar a independência do Irã", disse.  

A Revolução Islâmica está completando 40 anos. Nessas quatro décadas, o que mudou no Irã e o que poderia ter sido melhor?

A República Islâmica do Irã, com sua revolução de natureza plenamente popular desde o início, focou na manutenção de sua indenpendência. Aproveitando seus potenciais e a capacidade de seus talentos, conseguiu ter avanços notáveis em diferentes áreas. Mas, para romper laços de dependência e insistir na manutenção da sua independência, a República Islâmica do Irã teve de pagar muito caro. Os Estados Unidos tentaram criar atritos e desentendimentos étnicos e religiosos, projetaram vários golpes de Estado, impuseram a guerra de oito anos no período de Sadam Hussein e, enfim, impuseram os injustos embargos econômicos, tudo com a finalidade de enfrentar a independência do Irã. Mas desses 40 anos, a República Islâmica do Irã elaborou uma nova Constituição e, nesse período, com voto direto, o povo iraniano vem elegendo o presidente da república, os membros do Parlamento e da Assembléia dos Notáveis, os vereadores, das cidades e das áreas rurais. Assim, a República Islâmica do Irã consegue dar passos importantes no sentido de consolidação da democracia. A República Islâmica do Irã, graças ao apoio popular e de seus jovens talentosos, obteve conquistas importantes em diversas áreas (quinta força cibernética; um dos países mais avançados na precisão e pontaria de mísseis; entre outros). Apesar da imposição de oito anos da guerra do Iraque contra o Irã e os embargos injustos, o Irã teve essas conquistas sem essas dificuldades.

Existe um novo momento de isolamento contra o país após a decisão dos EUA de se retirarem do acordo nuclear?  

O acordo nuclear, denominado Plano de Ação Conjunto e Abrangente (JCPOA), é um acordo que visa o fim da 'iranofobia' e dos atritos internacionais. Esse acordo demonstrou a veracidade do programa nuclear iraniano de ter fins pacíficos. Mas os Estados Unidos abandonaram unilateralmente esse acordo internacional, como abandonaram outros acordos. Assim, mais uma vez, demonstraram sua incompatibilidade com a sociedade internacional e suas estratégias de unilateralismo. Neste sentido, o ministro das Relações Exteriores do Irã, o doutor Zarif (Mohammad Javad Zarif ) falou que se existe uma coisa que os EUA ainda não abandonaram é o planeta Terra. O programa de mísseis iranianos tem objetivo de autodefesa. O lançamento do satélite ao espaço ou o experimento dos mísseis, pelo Irã, não violam a Resolução 2231 do Conselho de Segurança da ONU. É preciso considerar que durante oito anos Saddam Hussein bombardeou as cidades e o povo iraniano com mísseis, em um momento em que o Irã não tinha acesso aos instrumentos de defesa. Além disso, a venda de armamentos americanos, franceses e ingleses aos países da região a transformou em um depósito de pólvora. O Irã decidiu, para manutenção de sua força de defesa, projetar esse programa.

Após a revolução, muitos iranianos deixaram o país. O que o governo diria a eles? 

O Irã, como todos os outros países, tem Constituição, leis e regulamentos que são aprovados democraticamente, pelo procedimento de referendo ou pelos representantes eleitos pelo povo na Assembleia do Conselho Islâmico. O principio de administração do país se baseia nessas leis. Os países, na dimensão interna de seus territórios, tem soberania nacional. O direito internacional, inclusive a Carta Magna da ONU, os vários documentos da Assembleia-Geral da ONU reafirmam o respeito à soberania nacional dos países. Os cidadãos têm liberdade de escolher o local para viver. Por exemplo, os chineses e os indianos são as maiores minorias que vivem fora do seu país, muitos libaneses vivem no Brasil, muitos iranianos instruídos e cientistas são absorvidos pelas instituições educacionais e de pesquisa de outros países, inclusive os EUA. A República Islâmica do Irã está sempre disposta a recebê-los com braços abertos. Alguns grupos de iranianos voltam ao Irã após terminar seus estudos especializados. Podem existir iranianos enganados pelos serviços de espionagens estrangeiros que entram no Irã como espião. O tratamento para essas pessoas que agem contra segurança nacional é definido nas leis de todos os países.

Como as relações com o Brasil evoluíram desde a Revolução Islâmica? 

Os países são livres na projeção de seus programas de comércio exterior. É provável que as relações econômicas e comerciais entre dois países, em diferentes períodos, tenham momentos de altos e baixos. Além disso, os governos mudam, mas um Estado com três elementos essenciais - soberania nacional, população e território - permanecem. É preciso observar, porém, que as relações dos países são entre Estado-Estado e não governo-governo. As relações com o Brasil são, sempre, uma das prioridades políticas, econômicas, comerciais e culturais do Irã. Ressaltamos que o aniversário do 116.º ano dessas relações coincide com a nossa festa do 40.º ano da Vitória da Revolução Islâmica do Irã. A visita do doutor Zarif ao Brasil, ocorrida no ano passado, acompanhado de uma grande missão econômica, demonstra a determinação da República Islâmica do Irã para desenvolver as relações com o Brasil. O volume do intercâmbio comercial bilateral no ano de 2018 atingiu mais de US$ 2,6 bilhões. Esperamos que neste ano de 2019, com a colaboração do novo governo do Brasil, no sentido de interesses recíprocos dos dois países, o volume do nosso comécio bilateral aumente ainda mais.

Como o Irã vê a aproximação entre o governo Bolsonaro e Israel? 

A República Islâmica do Irã, conforme as resoluções da ONU, considera o regime sionista um regime ocupador. Ele usurpou os territórios palestinos. Infelizmente, 61 resoluções contra esse regime foram barradas pelos vetos dos países ocidentais, especialmente pelos EUA. Mas a definição da política das relações exteriores é dentro dos direitos e a autonomia de cada país. Assim, as relações do Brasil com Israel não têm nada a ver com a República Islâmica do Irã. A posição do Brasil conforme foi declarada é por reconhecimento de dois Estados e as resoluções da ONU declaram que Jerusalém tem identidades islâmicas, cristãs e judaicas. Porém, o conhecimento de Jerusalém como capital judaica é contrario às leis internacionais. Espera-se que as relações bilaterais da República Islâmica do Irã e o Brasil estejam longe de influência de qualquer insinuação maldosa externa que visa destruí-las... 

Houve uma proximidade maior entre Irã e os governos petistas? 

As relações da República Islâmica do Irã com o Brasil não se limita somente há 13 anos (governos petistas) como foi pensado, mas passam de um século. As relações da República Islâmica do Irã com outros países incluindo Brasil se baseiam nos princípios de respeito mútuo, na igualdade de interesses, no respeito à soberania nacional, à não ingerência nos assuntos internos, no repúdio ao unilateralismo na cena internacional. Assim, nós respeitamos o voto do povo brasileiro para eleger o presidente da República, representantes no Congresso e legislativos estaduais e municipais, e desejamos a manutenção e desenvolvimento das relações bilaterais conforme os princípios relacionados.

Por que o Irã declarou apoio ao governo de Nicolás Maduro enquanto cresce seu isolamento internacional? 

O respeito à soberania nacional dos países é um dos pilares dos direitos internacionais. A legitimidade interna de cada país depende do voto do povo. A tentativa de alguns países para isolar outra nação não elimina sua legitimidade interna. Mas do ponto de vista dos direitos internacionais essa tentativa é considerada ingerência nos assuntos internos dos outros países. Se essa atitude virar um procedimento, será uma ameaça à independência de outros países. Por exemplo, na Venezuela as eleições foram realizadas livremente por meio do voto eletrônico e Maduro foi eleito. Portanto, a República Islâmica do Irã apoia e reconhece o resultado das eleições democráticas. É preciso lembrar que a ingerência estrangeira nos países como o Afeganistão, Iraque, Líbia e Síria não tinha outro resultado a não ser destruição.

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