Jalil Rezayee/EFE
Jalil Rezayee/EFE

Irã comemora retirada dos EUA do Afeganistão, mas teme suas consequências 

O Irã, governado por clérigos xiitas, e o Taleban, um movimento sunita radical, estão em desacordo com divergências fundamentais

Miriam Berger / The Washington Post , O Estado de S.Paulo

13 de julho de 2021 | 05h00

Enquanto as forças ocidentais saem do Afeganistão, o Irã observa com um misto de temor e alegria. A resolução de um objetivo de longa data, a retirada das tropas americanas apresentou um desafio para os iranianos: o que fazer com o Taleban, um problema antigo para o Irã, que rapidamente recupera o poder e o território vizinho.

O governo afegão disse na sexta-feira que o Taleban capturou uma importante passagem de fronteira entre o Irã e o Afeganistão.

O Irã, governado por clérigos xiitas, e o Taleban, um movimento sunita radical, estão em desacordo com as divergências fundamentais, e Teerã há muito se irrita com o tratamento dado pela milícia às minorias não sunitas.

Os iranianos temem que tanto o domínio do Taleban quanto o Afeganistão voltem à guerra civil, uma perspectiva desestabilizadora que provavelmente colocará em perigo as comunidades persas e xiitas do país, enviará mais ondas de refugiados afegãos pela fronteira e fortalecerá a militância sunita na região.

Buscando uma vantagem, o Irã cultivou laços com algumas facções do Taleban e suavizou seu tom em relação ao grupo extremista, que considera quase certo que vá permanecer no poder.

Essa aposta gerou um debate acirrado no Irã, onde o repressivo Taleban é visto de forma desfavorável e o ceticismo em relação às intenções dos EUA é alto, mesmo com o governo Biden avançando lentamente nas negociações para tentar retornar ao acordo nuclear de 2015.

“O Irã será imensamente prejudicado pelo caos e por uma guerra civil no Afeganistão”, disse Fatemeh Aman, uma pesquisadora sênior não residente do Instituto do Oriente Médio, citando em particular o medo de Teerã de que a afiliada do Estado Islâmico no Afeganistão ganhe terreno. “Eles vêem o governo parcial como o melhor cenário, com o Taleban no poder.”

Mas a aproximação cada vez mais pública do Irã ao Taleban pode ser um erro de cálculo, segundo Aman, já que o Irã acredita que eles estão usando o Taleban, mas alguns podem argumentar que o Taleban está usando o Irã para se apresentar como mais poderoso, digno de governar um país.

O Irã foi excluído das negociações EUA-Taleban em Doha, no Catar, que no ano passado levou a um acordo de retirada de tropas para encerrar duas décadas de operações militares americanas no Afeganistão. Biden definiu um prazo de 11 de setembro, mas os militares dos EUA disseram na semana passada que a saída estava mais de 90% concluída.

O Taleban, que deve controlar cerca de um terço do Afeganistão, até agora ganhou terreno sem combates em grande escala e, em vez disso, tem contado com acordos com líderes locais.

Ainda assim, mais de 1,5 mil soldados afegãos fugiram pela fronteira para o vizinho Tajiquistão nas últimas semanas para escapar dos avanços do Taleban, enquanto cerca de 200 mil afegãos fugiram de suas casas este ano.

Os avanços acelerados do Taleban deixaram Teerã temendo a possibilidade de que o grupo radical pudesse retomar Cabul e, ainda mais, o espectro da violência generalizada aumentando o fluxo de extremistas, narcóticos e armas, disse Aman.

Nas últimas semanas, alguns linhas-duras da política iraniana - alinhados com o líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, e o presidente eleito Ebrahim Raisi - partiram para a ofensiva e pintaram publicamente um quadro de um Taleban suavizado e reformado.

No fim de junho, o jornal ultraconservador Kayhan, ligado ao líder supremo, declarou: “O Taleban hoje é diferente do Taleban que decapitou pessoas”.

O jornal argumentou que as recentes conquistas do Taleban não envolveram crimes horríveis semelhantes aos do Estado Islâmico no Iraque, e observou que o grupo chegou a dizer que não tem problemas com os xiitas.

Declarações semelhantes se seguiram. Hessam Razavi, o editor de notícias estrangeiras da Tasnim News Agency, que é próxima ao Corpo da Guarda Revolucionária, disse a um programa de TV iraniano no mês passado que não houve guerra entre xiitas e taleban no Afeganistão.

Alguns linhas-duras rejeitaram essa abordagem conciliatória. Na semana passada, a primeira página do jornal conservador Jomhouri Eslami criticou os líderes iranianos por minimizar a ameaça de terroristas do Taleban ao longo da fronteira iraniana.

Nas redes sociais em língua persa no Irã e no Afeganistão, outros condenaram os líderes iranianos pelos esforços percebidos para encobrir a sangrenta história do Taleban de atacar hazaras, uma minoria xiita, e reprimir as mulheres e as liberdades individuais.

Em um incidente gravado na memória iraniana, os insurgentes do Taleban em 1998 atacaram o consulado iraniano em Mazar-e Sharif, no norte do Afeganistão, e mataram nove iranianos. Os dois lados quase foram à guerra.

Enquanto isso, o governo do presidente centrista do Irã, Hassan Rohani, que chega ao fim, tem sido mais circunspecto em relação aos acontecimentos violentos na fronteira.

“Estamos considerando seriamente a questão do Afeganistão e conversando com todos os grupos afegãos”, disse Saeed Khatibzadeh, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, no fim do mês passado, informou o jornal Aftab Yazd. “Um diálogo genuíno entre os afegãos é a única solução duradoura”, disse ele. “Estamos prontos para facilitar as negociações. ”

"Embora os iranianos se importem com o Afeganistão ... não há uma estratégia clara de como eles vão lidar com isso”, disse Vali Nasr, da Escola Johns Hopkins de Estudos Internacionais Avançados.

"Alguns no Irã celebraram a retirada como um fracasso dos EUA", disse Nasr. Mas outros argumentaram que os EUA saúdam o Afeganistão se tornando um atoleiro para o Irã e que a retirada “está preparando o Afeganistão para um regime sectário, na opinião do analista.

Mesmo antes do acordo de Doha, o Irã cultivou laços com facções do Taleban amigas de Teerã, como outros vizinhos do Afeganistão, especialmente o Paquistão, fizeram por décadas.

O estabelecimento de tais laços foi encorajado pela ascensão do ramo Khorasan do Estado Islâmico no Afeganistão em 2015. O Irã começou a vê-lo como uma ameaça maior do que o Taleban, que também se opõe ao grupo ultraviolento.

Os antigos laços do Taleban com o Irã estão se tornando cada vez mais públicos. Em 2016, um ataque de drone dos EUA matou o líder taleban, Mullah Akhtar Mohammad Mansour, quando ele retornou ao Paquistão após uma estadia no Irã. Na reunião de mais alto nível entre as partes, altos funcionários iranianos receberam uma delegação do Taleban em Teerã no final de janeiro.

O novo chefe da Força Quds do Irã no poderoso Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), Ismail Qaani, também tem amplos laços e experiência no Afeganistão. O Irã e os Estados Unidos, no entanto, encontraram no passado um terreno comum em torno do combate ao Taleban.

Enquanto os Estados Unidos se preparavam para invadir o Afeganistão em 2001, o Irã, então liderado pelo presidente reformista Mohammad Khatami, fornecia inteligência. O então comandante da Força Quds, Qassim Suleimani, supostamente supervisionou o contato.

Após a queda do Taleban, o Irã continuou a ajudar a construir um novo governo afegão e a mediar entre os senhores da guerra para preencher o vazio de segurança. Mas essa cooperação terminou em janeiro de 2002, quando o presidente George W. Bush chamou o Irã, a Coreia do Norte e o Iraque de “eixo do mal”.

Agora, disse Aman, Washington e Teerã têm uma pequena janela de tempo para cooperar novamente no interesse do Afeganistão. “Espero que eles não esperem por uma guerra civil para se sentar e falar o máximo que puderem sobre o Afeganistão”, disse Aman. “O Afeganistão sofreu muito com as diferenças e animosidade entre o Irã e os EUA, e o Irã e a Arábia Saudita e seus vizinhos árabes”.

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