Gabinete do Líder Supremo Iraniano / Via AP
Gabinete do Líder Supremo Iraniano / Via AP

Irã diz que condenou membros de 'rede de espiões da CIA' à morte; Trump fala em 'propaganda'

Autoridades de contraespionagem da Inteligência iraniana realizaram operação de desmantelamento do grupo, que agiria sob comando de Washington; presidente americano diz que informação divulga por Teerã é 'totalmente falsa'

Redação, O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2019 | 06h58
Atualizado 22 de julho de 2019 | 15h58

TEERÃ - O Irã confirmou nesta segunda-feira, 22, a detenção de 17 de seus cidadãos e a condenação de vários outros à morte em um processo sobre o desmantelamento de uma "rede de espiões" da Agência Central de Inteligência Americana (CIA).

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, classificou a informação de "totalmente falsa" e disse que está cada vez mais difícil negociar um acordo com o Irã. 

"Não tiveram respeito com os Estados Unidos. Não deveriam ter feito isso, francamente, fica mais difícil chegar a um acordo com o Irã... embora tudo seja possível", disse o governante americano ao começo de sua reunião com o primeiro-ministro do Paquistão, Imran Khan, que foi recebido na Casa Branca.

Estes 17 iranianos foram detidos entre março de 2018 e março de 2019 durante o processo de desmantelamento desta suposta "rede de espiões" da CIA. A operação foi divulgada por Teerã em 18 de junho deste ano.

O anúncio foi feito em um contexto de grande tensão entre Irã e Estados Unidos, um ano depois da retirada americana do acordo internacional sobre o programa nuclear iraniano e em meio à crescente escalada no Golfo.

"Os que traíram deliberadamente seu país foram entregues à Justiça. Alguns foram condenados à morte, e outros, a longas penas de prisão", disse à imprensa o chefe da área de contraespionagem iraniana, cuja identidade não foi revelada.

Os suspeitos trabalhavam "em setores sensíveis", ou em atividades privadas ligadas a estes setores, e agiam de forma independente, acrescentou a mesma fonte, sem indicar quantos foram condenados à morte.

As acusações de espionagem são comuns entre Teerã e Washington, que mantêm uma relação à beira do conflito desde que no ano passado os EUA decidiram retirar-se de forma unilateral do acordo nuclear de 2015 e voltar a impor sanções econômicas ao Irã.

A tensão tem se estendido ao Golfo Pérsico, onde nos últimos meses ocorreram vários ataques a embarcações, a derrubada de drones e a captura, na sexta-feira, de um petroleiro britânico por parte do Irã.

'Armadilha da CIA'

"O relatório de que o Irã capturou espiões da CIA é totalmente falso. Zero verdade. Apenas mais mentiras e propaganda (como a de seu drone abatido)", disse Trump no Twitter.

O presidente americano afirmou ainda que a economia do Irã "está morta" e que a situação "vai piorar". "O Irã é um desastre total", afirmou.

A CIA não comentou a informação. Em geral, a agência tem como política evitar esclarecer situações, envolvendo seus agentes secretos, ou seus informantes. Neste sentido, o desmentido de Trump foi bastante incomum e gerou críticas dos especialistas em Inteligência.

"Há uma razão, pela qual o governo NUNCA comenta este tipo de afirmação. A próxima vez que uma informação deste tipo ficar sem réplica, vai-se a assumir que é porque é correta", disse o ex-porta-voz do Conselho de Segurança Nacional Ned Price.

Segundo o chefe da área de contraespionagem iraniana, alguns dos condenados foram recrutados ao caírem em uma "armadilha da CIA", quando tentavam obter seus vistos para irem aos Estados Unidos.

As autoridades iranianas também se referiram a casos de "abordagens diretas" a seus concidadãos por parte de agentes da CIA disfarçados como diplomatas em conferências científicas na Europa, na África, ou na Ásia.

Em um CD entregue à imprensa, o Ministério da Inteligência reproduz imagens de crachás de diplomatas americanos em postos na Áustria, Finlândia, Índia, Turquia, ou Zimbábue. De acordo com Teerã, eles trabalham para a CIA.

O CD inclui fotos de alguns daqueles que o Irã apresenta como "agentes da CIA" desmascarados pela contraespionagem.

A desconfiança em torno da ingerência estrangeira no Irã é tão antiga quanto a República Islâmica. Tomada de assalto por estudantes em novembro de 1979, a embaixada dos Estados Unidos em Teerã era apelidada, à época, de "ninho de espiões".

Recentemente, a televisão pública iraniana divulgou uma série de 30 capítulos intitulada "Gando" (nome de uma espécie de crocodilo natural do país) que glorifica a ação dos serviços de contraespionagem iranianos.

Disposição para negociar

Na semana passada, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Mohammad Javad Zarif, aproveitou que estava em Nova York com o propósito de participar de várias reuniões na sede da ONU para expressar a disposição de Teerã de sentar para negociar, desde que Washington suspenda as sanções que pesam sobre seu país.

"Se Trump quer mais por mais, podemos ratificar um protocolo adicional e ele pode retirar as sanções que impôs", disse Zarif, em referência ao denominado Plano Integral de Ação Conjunta (JCPOA, na sigla em inglês), o nome técnico do acordo multilateral nuclear com o Irã.

Trump considerou nesta segunda que sua decisão de deixar tal acordo "é uma das melhores coisas que fez" como presidente, por se tratar, em sua opinião, de um acordo que não permitia à comunidade internacional inspecionar "as instalações importantes" do programa nuclear iraniano.

O presidente americano manifestou também o desejo de assinar um novo tratado com Teerã, mas ressaltou que seu governo está preparado "para o pior" e que a atual situação poderia "terminar de qualquer maneira". / AFP, EFE e REUTERS

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