Ira de republicano divide Nova York

Discurso agressivo de candidato ao governo do Estado atrai críticas de alguns e elogios de eleitores indignados

NICHOLAS CONFESSORE, O Estado de S.Paulo

10 de outubro de 2010 | 00h00

Durante a improvável trajetória do empresário Carl Paladino à candidatura do Partido Republicano ao governado do Estado de Nova York, a ira contra os políticos, os impostos e o trânsito de Manhattan o definiu e o sustentou. Ele dirigiu suas queixas aos donos do poder em Albany e atraiu para seu lado os eleitores que compartilham sua indignação.

Mas o confronto, que quase chegou às vias de fato, de Paladino com um repórter do New York Post, na semana passada, e suas afirmações inconsistentes sobre a vida privada de seu adversário democrata, Andrew Cuomo, das quais teve de se retratar depois, colocaram ao mundo da política a difícil questão. Em um ano eleitoral definido pela ira, quando muito é demais?

Com a exibição do vídeo sobre a briga na internet, que dominou os noticiários da TV a cabo, quem viu se perguntou se Paladino não teria exagerado ou se sua fúria declarada, mas nada digna, seria a perfeita expressão de um eleitorado irrequieto.

Em nenhum outro lugar o debate foi mais intenso do que entre seus colegas republicanos, cujo destino político está vinculado ao de Paladino nas eleições de novembro. Procurando definir até que ponto apoiarão o candidato, que é também apoiado pelo movimento conservador Tea Party, eles estão divididos. Alguns, aparentemente, procuram se distanciar de Paladino em razão do seu comportamento, embora acatando sua mensagem.

O candidato recusou-se a pedir desculpas por sua explosão com o repórter, que culpou por mandar fotógrafos para retratar sua filha de dez anos, nascida de um relacionamento extraconjugal. Em entrevista à TV, ele admitiu que não tinha provas de que Cuomo foi infiel no casamento, que terminou em divórcio, e disse que queria apenas que os repórteres vasculhassem a vida privada do seu adversário, assim como tinham vasculhado a sua.

No entanto, seus assessores de campanha emitiram um comunicado feroz, atacando o repórter Fredric Dicker e acusando o New York Post de molestar sua família e distorcer sua cobertura em favor de Cuomo. O caso deixou seus aliados preocupados com a possibilidade de a reação de Paladino ofuscar sua atraente plataforma, que tem por base consideráveis cortes de impostos e de gastos.

Briga interna. Alguns republicanos começaram a ter dúvidas enormes. O deputado Peter King, republicano de Long Island, disse que Paladino "talvez esteja compreendendo os sentimentos do eleitorado melhor do que ninguém". Mas, na quarta-feira, King expressou preocupação com seu comportamento. "Fico sempre cético e preocupado quando um candidato se refere à vida pessoal de seus adversários."

A principal reclamação de Paladino reflete a de outros rebeldes do Tea Party em todo o país, uma vez que candidatos inflamados, mas ainda não testados, derrubaram republicanos mais antigos nas primárias para poder brigar contra os democratas nas eleições gerais.

Em Sharron Angle, Nevada, a candidata republicana ao cargo de senadora teve dificuldades para explicar as posições que assumiu no passado, como o apelo para que a Previdência Social seja paulatinamente eliminada. Ela ainda reduziu abruptamente suas aparições em público logo depois de sua vitória nas primárias, em junho, chegando, a certa altura, a fugir de um repórter de TV.

Em Delaware, a candidata republicana ao senado, Christine O"Donnell, permanece em um conflito aberto com o Partido Republicano local, enquanto procura responder às revelações de que ela teve experiências com bruxaria na adolescência.

Em um ano em que a raiva tornou-se o tema dominante da política nacional, Paladino destaca-se como candidato definido exatamente pela ira. Já chegou várias vezes a prometer entrar no edifício do Legislativo estadual carregando um taco de beisebol e referiu-se aos habitantes de Albany como "sanguessugas, porcos e debiloides". O judeu ortodoxo Sheldon Silver, presidente da Assembleia local, foi chamado de "Anticristo".

"Sua candidatura é a manifestação de uma ira absolutamente concreta que existe em muitas partes do Estado", afirmou John Faso, candidato republicano ao governo de Nova York, em 2006. "Quando ele for apresentado e tiver criado a primeira impressão na mente dos eleitores, principalmente no sul do Estado, terá de dar uma impressão positiva, apesar da sua rispidez."

Evidentemente, em alguns círculos, os insultos de Paladino têm um público cativo. Na manhã de quinta-feira, Bernard McGuirk, âncora de um programa de entrevistas da WABC-AM, em Nova York, definiu o candidato como "um sopro de ar fresco para muitos de nós", enquanto gentilmente perguntava a ele sobre o bate-boca com Dicker.

"Não brinco mais com eles", respondeu Paladino, que estava calculadamente mais calmo, mas sem demonstrar arrependimento. "Não sou politicamente correto. Essas pessoas não prestam."

Perseguição da imprensa. Nem todos acharam que Paladino fosse o vilão da história. Alguns questionaram se Dicker, que foi visto agitando o dedo debaixo do nariz de Paladino, não teria sido excessivamente agressivo. O próprio governador, David Paterson, democrata, embora afirmando que Paladino teve uma reação inadequada, disse que compreendia a sua angústia pela invasão dos meios de comunicação em sua vida familiar.

Col Allan, editor do New York Post, referindo-se à acusação de Paladino de que o jornal havia enviado fotógrafos para a casa de sua filha, disse que, embora a publicação não tenha mostrado as fotos que tirou da menina - e não pretendesse fazê-lo -, "Paladino não deveria se surpreender com o interesse da imprensa por suas famílias". "Mesmo porque, ele convidou o público a esquadrinhar sua vida pessoal ao candidatar-se a governador e ao falar abertamente de sua amante e da filha que teve com ela", disse.

Alguns republicanos procuraram evitar discutir o confronto. Uma porta-voz de Daniel Donovan, candidato republicano a procurador do Estado, não quis fazer comentários. O candidato do partido à chefia da Controladoria Geral do Estado, Harry Wilson, afirmou que há coisas mais importantes para discutir.

Confiança. Scott Reif, porta-voz dos republicanos no Senado estadual, disse que Paladino está "fazendo sua campanha, e nós estamos cuidando da nossa". "Concordamos com sua proposta de corte de gastos, de redução de impostos e de consertar Albany depois dos prejuízos provocados pelo governo democrata", disse Reif.

Os republicanos não foram os únicos a falar de Paladino. Em uma entrevista ao canal NY1, Matilda Cuomo, a mãe do candidato democrata ao governo do Estado, repudiou as insinuações de seu rival republicano sobre a fidelidade do filho durante o casamento com Kerry Kennedy.

"Conhecemos Andrew e conhecemos Kerry", disse ela. "Nós a amamos e sabemos que tudo isso deve ser esquecido". Questionada sobre o que acontecerá com Nova York se Paladino ganhar a eleição, ela não perdoou. "Nem quero pensar nisso." / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

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