Staff Sgt. Ramon A. Adelan/U.S. Air Force via AP
Staff Sgt. Ramon A. Adelan/U.S. Air Force via AP

Irã derruba drone dos Estados Unidos e eleva tensão no Golfo Pérsico

Autoridades dos dois países confirmaram o abate da aeronave de vigilância, mas divergiram sobre uma questão crucial: se o drone havia violado o espaço aéreo iraniano; episódio aumenta temores de uma guerra entre as duas nações e eleva preço do petróleo

Redação, O Estado de S.Paulo

20 de junho de 2019 | 08h42
Atualizado 20 de junho de 2019 | 20h37

WASHINGTON - O Irã abateu um drone de vigilância dos Estados Unidos nesta quinta-feira, 20, informaram autoridades americanas e iranianas, no mais recente episódio da escalada de tensões que gerou temores de uma guerra entre os dois países. Teerã e Washington divergiram, no entanto, quanto à questão crucial: se a aeronave havia violado o espaço aéreo iraniano ou não.

Autoridades iranianas disseram que o drone estava sobre o Irã, o que os militares americanos negaram - uma importante distinção para determinar quem está com a razão - e cada lado acusou o outro de ser o agressor.

Ambos os países disseram que a queda da aeronave ocorreu às 4h05 desta quinta no horário iraniano (0h05 no horário de Brasília). O drone "foi abatido por um sistema de mísseis terra-ar iraniano enquanto operava no espaço aéreo internacional sobre o Estreito de Ormuz", informou o Comando Central dos Estados Unidos em um comunicado. "Este foi um ataque não provocado em um ativo de vigilância dos EUA no espaço aéreo internacional." 

No contexto das recentes trocas de ameaças entre Washington e Teerã, um ataque iraniano contra uma aeronave americana - ainda que contra um drone não tripulado - acrescenta outro ponto de discórdia à crescente lista de confrontos entre o Irã e os EUA.

Além disso o ataque acontece poucos dias depois de autoridades americanas culparem o Irã pelos recentes ataques contra navios petroleiros que também ocorreram perto do Estreito de Ormuz, via vital de grande parte do petróleo do mundo, uma acusação que o Irã negou. Nenhum dos navios atingidos era operado por americanos.

Mais cedo nesta quinta, o presidente dos EUA, Donald Trump, escreveu em sua conta no Twitter que Teerã "cometeu um erro muito grande" ao derrubar o drone americano. 

O tenente-general americano Joseph Guastella, que comanda as forças aéreas americanas naquela região, defendeu que a represália iraniana é uma tentativa de evitar a atuação americana na região após os ataques contra os navios. "Este ataque é uma tentativa de evitar que vigiemos a área depois das recentes ameaças ao transporte marítimo internacional e ao livre comércio", afirmou em declaração à imprensa via teleconferência a partir da base aérea de Al-Udeid, no Catar.

Mais tarde, durante coletiva de imprensa após encontro com o primeiro-ministro canadense, Justin Trudeau, a Casa Branca alterou o discurso. Trump atribuiu a derrubada a um "erro" e não a um ataque "proposital" do Irã, embora não tenha descartado a possibilidade de que Washington possa repreender Teerã pelo incidente.

"Parece difícil acreditar que tenha sido proposital. Acho que foi alguém imprudente e estúpido que fez isso", afirmou Trump aos jornalistas. Em um primeiro momento, Trump parecia falar de um erro estratégico cometido pelos líderes do Irã, mas depois assegurou que tinha um "pressentimento de que foi um deslize por parte de alguém que não deveria estar fazendo o que fez".

"Não estou falando que o país tenha cometido um erro, estou dizendo que alguém sob o comando desse país cometeu um erro", esclareceu Trump.

Questionado pela imprensa sobre uma possível resposta americana ao ocorrido, Trump somente afirmou que a população "ficaria sabendo" caso ocorresse. 

Embora os atritos com o Irã tenham aumentado desde abril, Trump parece reticente a iniciar um conflito militar com este país, e negou nesta quinta que seus assessores o estejam empurrando à guerra.

"Não, claro que não. De fato, em muitos casos, é o contrário. Mas vocês sabem que eu quero sair destas guerras intermináveis, foi uma promessa de campanha, quero sair. Já estamos há (quase) 19 anos no Afeganistão", lembrou Trump.

O preço do petróleo disparou nesta quinta-feira após a postagem de Trump no Twitter. 

Já em alta, em Nova York o barril de WTI acentuou seu aumento em 6,3% para US$ 57,13 por volta do meio dia, enquanto que em Londres o Brent cru subia 4,66% para US$ 64,69.

"A situação se degrada muito rapidamente e o mercado também a integra rapidamente aos preços", disse John Kilduff, da corretora de energia Again Capital. "Por enquanto, os preços acompanharão de perto essa situação", completou.

Justificativa de Teerã

De acordo com a imprensa iraniana, um porta-voz da chancelaria do país afirmou que o sobrevoo de um drone americano no espaço aéreo do país foi um movimento "agressivo e provocativo" de Washington.

Hossein Salami, comandante-chefe da Guarda Revolucionária Iraniana, disse que cruzar a fronteira do país era a "linha vermelha" da sua corporação, segundo a agência de notícias semioficial Mehr. Ele disse que o abatimento do drone foi uma evidência de "como a nação iraniana lida com seus inimigos".

"Não vamos nos envolver em uma guerra com qualquer país, mas estamos totalmente preparados para a guerra", disse Salami em uma cerimônia militar em Sanandaj, no Irã, de acordo com uma tradução da Press TV, uma mídia estatal. "O incidente de hoje foi um sinal claro dessa mensagem precisa, por isso continuamos nossa resistência."

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Não vamos nos envolver em uma guerra com qualquer país, mas estamos totalmente preparados para a guerra
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Houssein Salami, Comandante-chefe da Guarda Revolucionária Iraniana

Nesta quinta, o chanceler do Irã, Mohammad Javad Zarif, escreveu em sua conta no Twitter que o país irá levar o caso à ONU para provar que o drone sobrevoava o espaço aéreo iraniano, ao contrário da narrativa americana. 

"Levaremos esta nova agressão à ONU e mostraremos que os Estados Unidos estão mentindo", escreveu Zarif, depois do general americano Joseph Guastella ter afirmado que o drone foi derrubado a 34 quilômetros da costa iraniana.

"Os Estados Unidos impõem seu #TerrorismoEconômico ao Irã, levaram adiante ações clandestinas contra nós e, agora, avançam sobre nosso território", criticou Zarif. "Não buscamos a guerra, mas defenderemos com zelo nossos céus, terras e águas."


A agência de notícias oficial Fars News publicou em seu perfil no Twitter um vídeo com o que teria sido o trajeto do drone abatido. 

 

A Press TV afirmou que o drone voou sobre o território iraniano sem autorização e informou que ele foi abatido na província de Hormozgan, ao longo da costa sul do país, no Golfo Pérsico e no Golfo de Omã. Tanto os EUA quanto o Irã identificaram a aeronave como um RQ-4 Global Hawk, um drone de vigilância fabricado pela Northrop Grumman.

Autoridades americanas disseram na semana passada que o Irã havia disparado um míssil terra-ar contra um drone sobre o Golfo de Omã, no mesmo dia em que dois navios-tanque foram atacados. Autoridades americanas culparam o Irã pelos ataques aos petroleiros, além de ataques semelhantes em maio contra quatro petroleiros perto dos Emirados Árabes Unidos, acusação que foi negada com veemência em Teerã.

Na quarta-feira, funcionários do governo americano tentaram reforçar o argumento de que o Irã foi responsável pelos ataques dos petroleiros dizendo a jornalistas que os fragmentos recuperados de um dos petroleiros tinham uma "notável semelhança" com minas usadas pelo Irã. Um oficial da Marinha também disse que a investigação encontrou impressões digitais e outras informações valiosas no local.

No ano passado, Trump retirou os Estados Unidos do pacto nuclear de 2015 com o Irã, sob as objeções da China, Rússia e dos aliados americanos na Europa. Ele também impôs novas sanções econômicas ao Irã, tentando cortar o já limitado acesso de Teerã ao comércio internacional, incluindo a venda de petróleo.

O Irã alertou sobre sérias consequências se a Europa não conseguir contornar essas sanções, apesar de ter negado envolvimento nos ataques a navios-tanque próximos. Na segunda-feira, o país disse que deixaria em breve de cumprir um componente central do acordo nuclear, o limite da quantidade de urânio enriquecido estocado pelo país.

Horas depois desse anúncio, Trump enviou mais 1 mil soldados ao Oriente Médio. Os Estados Unidos já haviam despachado 1,5 mil soldados e vários navios de guerra para a região em maio.

Crise regional

No Iêmen, o canal de televisão controlado pelos rebeldes houthis informou na noite de quarta-feira que um de seus mísseis atingiu uma usina de dessalinização de água na cidade saudita de Jizan, no Mar Vermelho, perto da fronteira iemenita. Autoridades da Arábia Saudita disseram que o míssil pousou perto da usina, mas não a atingiu.

Os houthis aumentaram os ataques contra os sauditas, que tem sido acusados por grupos internacionais de bombardeios indiscriminados no Iêmen, mas não está claro que conexão existe entre essa intensificação e o conflito regional envolvendo o Irã. Recentemente, os houthis dispararam projéteis que danificaram um aeroporto saudita, oleodutos e feriram algumas pessoas.

Jizan, que também é o local de um quartel-general militar saudita, tem sido alvo frequente de ataques houthis com mísseis e drones ao longo de uma guerra que se tornou a pior crise humanitária do mundo.  Autoridades militares sauditas disseram em um comunicado que o ataque era evidência de que o Irã estava fornecendo a seus aliados iemenitas armas sofisticadas para serem usadas contra o reino.

Em Washington, conselheiros da Casa Branca teriam sido convocados na noite de quarta para discutir o assunto. Sarah Huckabee Sanders, porta-voz do governo Trump, disse à imprensa que o presidente havia sido informado sobre o ataque de mísseis e que a administração estava monitorando a situação.

A Arábia Saudita e seu parceiro, os Emirados Árabes Unidos, lutam há quatro anos em uma intervenção militar no Iêmen, buscando reverter o avanço dos houthis em grande parte do país. As monarquias árabes do Golfo veem o Irã como seu principal rival regional e consideram a luta no Iêmen como parte de uma luta mais ampla contra o Irã na região. / NYT, AP, EFE e AFP

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