Irã desponta como vencedor do conflito iraquiano

Enquanto Síria e Jordânia sofrem para lidar com os 2 milhões de refugiados, Teerã amplia influência na região

Mariana Della Barba, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2008 | 00h00

A guerra no Iraque afetou, em maior ou menor grau, os seis países vizinhos e ainda criou um problema inesperado para a Casa Branca: o fortalecimento do Irã. A oeste, Síria e Jordânia tentam conter a massa de refugiados iraquianos que cruza suas fronteiras diariamente. Arábia Saudita e Kuwait, ao sul, temem que o conflito sectário no Iraque contamine seu território. A Turquia, ao norte, mostra sinais de insatisfação com a crescente autonomia dos habitantes do Curdistão iraquiano - e promete reagir se eles incitarem os curdos turcos a lutar por independência. Veja gráficos e cronologia dos quatro anos da guerra Mas é na fronteira leste iraquiana que está o único dos seis vizinhos que, segundo analistas, acabou lucrando com a guerra. "O Irã ficou muito mais poderoso com o conflito no Iraque", disse ao Estado, por telefone, David Schenker, especialista em política árabe do Instituto Washington. "Eles ficaram livres de seu pior inimigo, Saddam Hussein, e aumentaram sua influência no Iraque, onde a maioria da população também é xiita."Um exemplo dessa ingerência ficou claro na semana passada, quando o presidente iraniano Mahmud Ahmadinejad proclamou, sem meias palavras, o fracasso da ocupação americana no país vizinho. "Preenchemos um vácuo de poder no Iraque", disse Ahmadinejad. "Para os EUA, o maior pesadelo dessa expansão iraniana é o fato de Teerã ter passado a financiar e armar milícias xiitas no Iraque", diz Schenker.O fortalecimento do Irã também alterou o mapa político regional. O governo de Teerã propagou o radicalismo Oriente Médio afora, principalmente no Líbano e nos territórios palestinos, e incitou os xiitas em países onde são minorias, como na Arábia Saudita e Kuwait. Se o conflito iraquiano deu munição a Teerã, o polêmico programa nuclear de Ahmadinejad concretizou sua ameaça. Em meio a bravatas e sanções, o Irã dá prosseguimento ao processo de enriquecimento de urânio. A Casa Branca diz que o objetivo é obter a bomba atômica, Teerã alega que os fins são energéticos e nega com veemência, assim como faz em relação às acusações de que apóia milícias iraquianas. Enquanto o Irã se fortalece, os outros vizinhos do Iraque lutam para driblar os problemas que a guerra vem causando. "O conflito entre xiitas, sunitas e curdos no Iraque pode atravessar fronteiras, fortalecer identidades étnico-religiosas e exacerbar as diferenças sectárias que já existem, mas atualmente não são motivo de conflito", explica Mona Yacoubian, especialista em Oriente Médio do Instituto Estados Unidos da Paz, que desenvolve o projeto "Iraque e seus Vizinhos". A iniciativa promoveu, em Istambul, um encontro entre os vizinhos iraquianos para prevenir um conflito regional. No topo da lista dos países prejudicados está a Síria, principal destino dos refugiados iraquianos, seguida pela Jordânia. "Após receber cerca de 1,5 milhão de exilados do Iraque, o equivalente a 10% da população do país, a Síria está na iminência de um colapso", adverte Yacoubian. Os 2 mil iraquianos que cruzam a fronteira diariamente sobrecarregam a infra-estrutura e economia sírias. Damasco prevê gastos extras, em 2008, de cerca de US$ 1bilhão para lidar com o problema. Diante dessa perspectiva, o governo sírio decidiu dificultar a entrada de refugiados. A partir de amanhã, Damasco passará a exigir visto de iraquianos. Com isso, diz a analista, "é o fim da política síria de portas abertas, a única na região". Segundo a ONU, 4,2 milhões de iraquianos deixaram suas casas desde 2003. Desses, 2 milhões fugiram para outros países e o restante, para áreas menos violentas dentro do próprio país. Muitos carregam o ódio contra o outro grupo religioso, o que pode inflamar as tensões sectárias e fazer com que a guerra se espalhe pela região - o pior cenário para a Casa Branca e atestado de seu fracasso no Iraque.

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