Irã: discurso do papa é parte de ´cruzada´ contra o Islã

As tentativas do papa Bento XVI em conter a crise gerada por suas declarações acerca do islamismo na última semana não foram capazes de reverter a raiva gerada em muitos muçulmanos. Isso ficou mais claro nesta segunda-feira, depois que líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, disse que os comentários do papa estavam alinhados com uma "cruzada" contra o Islã. Segundo trechos do discurso de Khamenei citados pela BBC, o que está por trás da crise é "um desejo das potências cuja sobrevivência depende de criar crises".Ainda de acordo com o aiatolá, as declarações do papa foram a "última ligação" em "uma cadeia conspiratória para lançar uma cruzada". As outras ligações, ele acrescentou, incluem os cartuns satirizando Maomé publicados por jornais europeus no início do ano.A crise começou na última semana, depois que Bento XVI citou criticas feitas a Maomé por um imperador cristão medieval. As referências foram feitas durante um discurso sobre guerra e religião proferido pelo papa em uma universidade alemã. O discurso espalhou protestos em todo o mundo muçulmano. No domingo, o pontífice lamentou a revolta gerada por suas palavras e disse que as visões citadas por ele não correspondiam a seu ponto de vista.Alheio às explicações de Bento XVI, Khamenei aproveito para relacionar as declarações a seu repúdio pelos Estados: "Nós não esperamos nada dos (presidente americano George W.) Bush, pois ele trabalha para companhias e potências de pilhagem global. Mas essas declarações são um motivo de surpresa e preocupação quando vindos da maior autoridade cristã." Os Estados Unidos não mantém relações diplomáticas com o Irã há mais de duas décadas, devido a invasão da embaixada americana em Teerã por radicais islâmicos.Khamenei foi o último líder muçulmano a condenar os comentários de Bento XVI. No domingo, o importante clérigo muçulmano catariano Yusuf al-Qaradawi pediu por um dia de fúria na próxima sexta-feria.AtaquesManifestantes mantiveram os protestos contra o papa em várias regiões muçulmanas nesta segunda-feira.Na Caxemira indiana, lojas e escolas fecharam em resposta a uma greve convocada por Syed Ali Shah Geelani, líder da facção linha-dura Conferência dos Partidos Hurriyat. Pelo terceiro dia consecutivo, manifestantes queimaram pneus e entoaram slogans contra o sumo pontífice. Manifestantes também protestaram na cidade de Muzaffarabad, na Caxemira paquistanesa. "Sua desculpa não foi o suficiente pois ele não afirmou estar errado", disse Uzair Ahmed, do grupo político paquistanês Pasban-e-Hurriyat. Ainda no Paquistão, o ex-premiê malaio Mahathir Mohamad disse na televisão nacional que o papa teria esquecido que o cristianismo é que se espalhou através da espada durante as cruzadas. A Malásia, que preside a Organização da Conferência Islâmica, afirmou esperar que os comentários do papa "não reflitam uma nova linha política do Vaticano em relação à religião islâmica".

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